Aprender Antropologia
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Aprender Antropologia

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apreendidas do interior mesmo de sua diferenc¸a, isto e´, a
partir de uma relac¸a˜o.

Andre Sobrinho
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19.3. O CONCRETO E O ABSTRATO 157

19.3 O Concreto E O Abstrato

A terceira tensa˜o que examinaremos agora e´ a da observac¸a˜o daquilo que e´
vivido, e da teoria constru´ıda para dar conta dessa observac¸a˜o, ou, se prefe-
rirmos, do campo e do me´todo.

A incompreensa˜o entre os que enfatizam a unidade fundamental da cultura
e os que privilegiam a diversidade, supostamente irredut´ıvel, das culturas,
decorre do fato de que na˜o nos situamos, nos dois casos, no mesmo n´ıvel de
investigac¸a˜o do social. A tomada e’m considerac¸a˜o da variedade cultural me
leva a perceber que pertenc¸o a uma cultura entre muitas outras, mas o meu
olhar ate´m-se a` observac¸a˜o da realidade emp´ırica. Pelo contra´rio, a ana´lise da
variabilidade cultural evidencia o que na˜o vejo diretamente quando passo de
uma cultura para outra, mas me permite perceber que pertenc¸o a uma figura
particular da cultura. De um lado, portanto, a preocupac¸a˜o do concreto, de
outro, a exigeˆncia, para dar conta deste, da construc¸a˜o cient´ıfica. Vaive´m a
meu ver ininterrupto que pode ser ilustrado, por exemplo, pelo formalismo
lo´gico de um Le´vi-Strauss, o qual na˜o deve, pore´m, nos deixar esquecer a
especificidade por assim dizer carnal dessa Ame´rica ı´ndia dos Nhambiquaras
de que tanto gosta o autor de Tristes Tro´picos.

1) O primeiro risco, que eu qualificaria de tentac¸a˜o emp´ırica, vem da sub-
missa˜o do´cil ao campo, do registro ficticiamente passivo dos ”fatos”, que da´
ao observador a impressa˜o de situar-se do lado das coisas, de estar junto delas.

Essa suspeic¸a˜o frente a` abstrac¸a˜o e a` teoria parece-me perfeitamente leg´ıtima.
A mu´sica, a poesia, a literatura, a pintura, a religia˜o sa˜o abordagens muito
mais indicadas do que a antropologia para nos fazer coincidir com os se-
res. Proporcionam-nos incontestavelmente mais emoc¸o˜es, mais prazeres- Mas
na˜o sa˜o a antropologia. Na˜o ha´, de fato, cieˆncia, nem atividade cr´ıtica nem
mesmo coleta de fatos sem teoria. A rejeic¸a˜o desta u´ltima leva inclusive ine-
vitavelmente a adotar a teoria do senso comum, a ”opinia˜o”, a ideologia do
momento, a que estiver vigente na sociedade que se estuda ou a` qual perten-
cemos. O trabalho do antropo´logo na˜o consiste em fotografar, gravar, anotar,
mas em decidir quais sa˜o os fatos significativos, e, ale´m dessa descric¸a˜o (mas
a partir dela), em buscar uma compreensa˜o das sociedades humanas. Ou
seja, trata-se de uma atividade claramente teo´rica de construc¸a˜o de um ob-
jeto que na˜o existe na realidade, mas que so´ pode ser empreendida a partir
da observac¸a˜o de uma realidade concreta, realizada por no´s mesmos.

2) O segundo risco pode ser qualificado de tentac¸a˜o idealista (ou nomina-

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158CAPI´TULO 19. AS TENSO˜ES CONSTITUTIVAS DA PRA´TICA ANTROPOLO´GICA:

lista). Situamo-nos dessa vez do lado das palavras (ou do lado dos nu´meros),
mas tomam-se enta˜o as palavras por coisas. No te´rmino do empreendimento
de modelizac¸a˜o que transforma fenoˆmenos emp´ıricos em objetos cient´ıficos,
acaba-se tomando a construc¸a˜o do objeto pela pro´pria realidade social. Ora,
a populac¸a˜o que estudamos na˜o nos esperou para atribuir significac¸o˜es a
suas pra´ticas. Por outro lado, uma teoria cient´ıfica nunca e´ o reflexo do
real, e sim uma construc¸a˜o do real. Os fatos etnogra´ficos sa˜o fatos cientifica-
mente constru´ıdos, a partir de nossas observac¸o˜es, mas tambe´m contra nossas
observac¸o˜es, nossas impresso˜es, as interpretac¸o˜es dos interessados e nossas
pro´prias interpretac¸o˜es espontaˆneas. Existe portanto uma inadequac¸a˜o en-
tre, de um lado, a realidade social estudada, que na˜o e´ nem esgotada nem
esgota´vel pela etnologia, e de outro, o objeto que constru´ımos a partir de
uma determinada opc¸a˜o disciplinar e teo´rica, e da nossa pro´pria relac¸a˜o com
o psicolo´gico e o social.

* * *

O paradoxo, mas tambe´m a especificidade da antropologia no campo das
cieˆncias sociais, e´ que na˜o sendo ”a cieˆncia social, do ponto de vista do obser-
vador”(e´ assim que Le´vi-Strauss define a sociologia), tambe´m na˜o e´ a cieˆncia
social do ponto de vista do observado, e sim uma pra´tica que surge em seu
limite, ou melhor, em sua intersecc¸a˜o. Podemos reduzir a inadequac¸a˜o entre
os dois pensamentos de que acabamos de falar, traduzindo-a em uma outra
linguagem. Por exemplo, quando um nu´mero considera´vel de indiv´ıduos que
compo˜em a sociedade brasileira tende a interpretar suas dificuldades (soci-
ais, psicolo´gicas, biolo´gicas) em termos religiosos, podemos dizer que se trata
de ”ilusa˜o”, de ”projec¸a˜o”, de ”deslocamento”ideal de uma realidade mais
”fundamental”. Da mesma forma, quando o pensamento tradicional clas-
sifica as coisas segundo categorias co´smicas (a a´gua, o ar, a terra, o fogo),
podemos dizer que realiza ”sublimac¸o˜es”cujas ”verdadeiras”razo˜es sa˜o so´cio-
econoˆmicas. Podemos tambe´m compreender essa adequac¸a˜o atrave´s de um
confronto ininterrupto e de uma articulac¸a˜o entre o pensado e o impensado,
o dito e o na˜o-dito, o manifesto (de minha e da outra sociedade) e o recalcado
(de minha e da outra sociedade).

Alguns exemplos va˜o permitir mostrar que um certo nu´mero de condutas,
observa´veis em outro lugar, sa˜o capazes de agir como reveladores de aspec-
tos culturais inteiros, cuidadosamente dissimulados em nossa cultura, o que
permite afirmar, com Georges Devereux, que o inconsciente de uma cultura
pode ser encontrada no consciente de uma outra.

Nossos sistemas de representac¸a˜o, em mate´ria de doen c¸a, sa˜o hoje em grande

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19.3. O CONCRETO E O ABSTRATO 159

parte exorc´ısticos: a doenc¸a e´ considerada como um mal que deve ser esma-
gado, e os sintomas, como uma calamidade a ser eliminada; o que trac¸a as
figuras, bem conhecidas entre no´s, do doente-v´ıtima e do me´di-co-exorcista.
Mas as representac¸o˜es inversas, chamadas ”adorc´ısticas”e que correspondem
a`s duas figuras do me´dico-louco e do paciente-ora´culo, nem por isso esta˜o au-
sentes. Esta˜o simplesmente recalcadas, e tornam-se manifestas se passarmos
de uma cultura para outra (dos exorcistas thonga aos xama˜s shongai), ou de
uma cultura para ela mesma no tempo (da nossa psiquiatria cla´ssica para
a corrente que qualifica a si pro´pria de ”antipsiquiatria”, que na˜o produz
realmente algo novo, mas reatualiza antes algo recalcado).

Da mesma forma, os cultos de possessa˜o afro-brasilei-ros, tais como os estou
estudando neste momento em uma grande cidade do Nordeste, podem ser
utilizados como reveladores da abordagem antipsiquia´trica inglesa – e parti-
cularmente de Laing – que expressa ao n´ıvel do discurso o que os brasileiros
realizam ao n´ıvel do corpo.

Poder´ıamos assim multiplicar os exemplos, e mostrar que o processo, co-
nhecido dos psicossocio´logos, da exclusa˜o em um grupo que se quer ho-
mogeˆneo, torna-se particularmente claro e ”desocultado”quando nos refe-
rimos a` feitic¸aria que e´ uma regulac¸a˜o social estruturalmente universal, etc.

De tudo isso, resulta que o objetivo da etnologia na˜o e´ o de traduzir a alteri-
dade nos moldes do que e´, para minha sociedade, conhecido e correto (o que
equivaleria a suprimir essa alteridade); nem o de estender a racionalidade a`s
dimenso˜es do universo, nos modos missiona´rios ou messiaˆnicos da conquista
(pois essa racionalidade e´ provinciana, isto e´, limitada no espac¸o e no tempo).
A etnologia, pelo contra´rio, abre essa estreiteza