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de Educação, agindo em prol da 
escola popular. Ao contrário do que fizeram outros teóricos de sua época, Freinet 
não apoiava um ensino elitista ou classificatório, mas sim um ensino pautado na 
experiência que pudesse preparar o aluno (de qualquer realidade socioeconômica) 
para o convívio social, defendendo o trabalho cooperativo como fundamental no 
alcance desse objetivo.
Por esse motivo, Freinet defendia a livre expressão como um princípio 
pedagógico, ou seja, dizia que a Educação deveria permitir que cada sujeito social 
pudesse expressar seus sentimentos, acolhendo, ao mesmo tempo, os sentimentos 
dos “outros” sociais, reforçando ainda mais sua idéia de uma pedagogia solidária 
e cooperativa.
Um outro princípio que liga Freinet à Educação é o trabalho. Para Freinet, o 
trabalho deve ser visto como um meio de instrumentalizar tecnicamente as reflexões 
do homem sobre seu mundo, incluindo aí as próprias relações de exploração 
existentes no mundo do trabalho. Desse modo, Freinet critica o trabalho alienado 
e defende uma Educação crítica que conduz o homem no caminho contrário ao do 
trabalho fragmentado e alienador.
Vale lembrar que o pensamento pedagógico de Freinet se alia aos pensamentos 
pedagógicos soviéticos e que, por esse motivo, sua preocupação centra-se na idéia 
de formação do homem historicamente determinado por suas relações sociais e 
seus padrões culturais.
Cèlestin Freinet e o método natural
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Assim sendo, algumas considerações são necessárias:
 deve-se compreender a atividade mental de forma dialética, ou seja, de 
forma a considerar as implicações sociais. É nesse sentido que Freinet 
desenvolve as chamadas técnicas de vida;
 a Educação para Freinet não é um processo autoritário, nem anárquico, 
mas sim o resultado de numa organização que promove uma 
racionalização da vida escolar. No entanto, para Freinet, tal organização 
assim constituída só tem sentido se o trabalho desenvolvido com os 
alunos ocorrer de forma cooperativa;
 baseado na psicologia da aprendizagem soviética (como na teoria de 
Vygotsky, por exemplo), Freinet considera três pontos como sendo de 
grande relevância para o processo pedagógico: a comunicação, a divisão 
do trabalho escolar e o desenvolvimento da aprendizagem. Sobre a questão 
da comunicação, Freinet aponta a dialética como um método fundamental 
a ser utilizado pelos professores com seus alunos. Sobre a divisão do 
trabalho escolar, Freinet aponta como saída a questão da cooperação, 
ou seja, para o trabalho coletivo. No que tange ao desenvolvimento da 
aprendizagem, aponta para o fato de que esta deve ser realizada em 
adequação com a realidade concreta dos alunos, incluindo aí a linguagem 
por eles utilizada;
 os conceitos que norteiam seu trabalho são: confiança, respeito mútuo, 
cooperação, coletividade, solidariedade, autonomia e trabalho. 
O método natural
A teoria de Freinet pode ser denominada de método natural, pedagogia do 
bom senso e educação pelo trabalho. De qualquer maneira, o que todos esses 
nomes procuram demonstrar é a compreensão de que, para Freinet, o trabalho 
funciona como ferramenta educativa, bem como a Educação age como ferramenta 
para o trabalho. Além disso, devemos lembrar ainda que a pedagogia de Freinet se 
desenvolve a partir da idéia de que, para educar, devemos levar em consideração 
as ações do homem em sua vida cotidiana.
Como vimos no tópico anterior, Freinet preocupava-se com as desigualdades 
sociais e o domínio de uma classe sobre outra(s), e direcionou seu trabalho às 
crianças filhas das classes operárias.
Ao iniciar seus trabalhos com as crianças “operárias”, Freinet observou que 
aquelas que eram vistas como ativas, felizes ou mesmo agitadas fora da sala de 
aula, quando estavam dentro da sala de aula comportavam-se de maneira apática, 
demonstrando total desinteresse pelo processo educativo. Foram essas observações 
que levaram Freinet a desenvolver uma teoria pedagógica preocupada em ligar 
a escola e a vida cotidiana meio do contato (experimentação) da natureza e do 
contato com o meio social e cultural dos alunos.
Teorias da Aprendizagem
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A experimentação, fundamento básico do método natural, aponta para 
o aprendizado como algo que ocorre por processos de repetições de ações 
bem sucedidas no meio onde os alunos estão integrados. Essas repetições 
e integrações, entendidas como processos, devem ser pensadas dentro das 
possibilidades de aprendizagem de cada educando. Isso significa dizer que 
Freinet considera que parte do aprendizado ocorre por meio do “tateamento” 
experimental, a manipulação do real pelo aprendiz, o que produz, segundo 
Minicucci (1992, p. 48), novas descobertas, desequilíbrios e adaptações.
Assim, ao observar a vida cotidiana das crianças nas escolas, Freinet percebeu 
o grande interesse delas pelo mundo extra-escolar, e que a melhor maneira de 
favorecer o conhecimento das crianças sobre esse mundo até então desconhecido 
por elas era por meio da experimentação ativa, da manipulação.
Desse modo, o conhecimento ou aprendizagem, na teoria de Freinet, se faz 
em vários sentidos. O primeiro está colocado na relação do homem com seu meio, 
uma vez que é nessa interação que o homem extrai conhecimentos históricos e 
sociais que o ajudam a compreender a si e ao meio que o cerca. O segundo sentido 
está colocado na via da experimentação concreta, na qual o aluno constrói seu 
conhecimento de forma livre e espontânea. O terceiro caminho é o que se faz 
pela via do trabalho, por meio de técnicas que auxiliam as crianças a ir da ação 
à reflexão e da reflexão de volta à ação. As técnicas naturais aparecem, nesse 
contexto, como uma maneira de permitir à criança aprofundar seus conhecimentos 
de forma prática.
Pelo caráter social de sua teoria, Freinet se colocou contrário aos grandes 
manuais de instrução pedagógica, criando, junto com seus alunos, diferentes 
materiais pedagógicos que permitiam explorar a vida de maneira ativa, construindo 
conhecimentos sobre o mundo e sua existência.
A seguir citamos algumas das atividades naturais desenvolvidas por 
Freinet.
 O livro da vida – material que tem como objetivo o registro das 
experiências das crianças sobre os conteúdos e conceitos aprendidos nas 
diferentes disciplinas. A partir desse material, as crianças podem discutir 
seus dilemas de aprendizagem de maneira ativa e contextualizada. 
 Intercâmbio interescolar – técnica simples que consiste na troca de 
correspondências entre alunos de diferentes escolas e regiões. A intenção 
é levar os alunos a conhecerem outras realidades sociais e culturas 
diferentes das suas. 
 Fichas de estudo – consistem em fichas de auto-avaliação organizadas 
por temas em fichários, criadas para desenvolver nos alunos o sentido da 
avaliação.
 Aulas­passeio – consistem em atividades externas à escola, como passeios 
a bibliotecas, zoológicos, parques, entre outros, que têm como finalidade 
levar os alunos a interagir concretamente com os conceitos apresentados 
em sala de aula.
Cèlestin Freinet e o método natural
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 A imprensa escolar – se desenvolveu a partir da experiência do intercâmbio 
interescolar, que por ganhar grandes dimensões acabou por promover o 
surgimento da imprensa escolar. Esta última consiste na divulgação das 
“notícias” reunidas pelos alunos a partir da troca de cartas entre eles. É o 
que hoje chamaríamos de “jornal escolar”.
 Por meio da imprensa escolar, os alunos elaboravam jornais cuja 
leitura era compartilhada por amigos e familiares. A correspondência 
interescolar abriu ainda mais essas fronteiras. Os alunos enviavam 
fotos, desenhos, cartas, jornais para colegas distantes. Foi assim que as 
crianças da montanha passaram a conhecer o mar, a pesca e os costumes 
de comunidades que viviam em aldeias marítimas. E estes ficavam 
sabendo das colheitas, da vida dos pastores, dos tecelões,