Direito a Liberdade Pessoal  - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru
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Direito a Liberdade Pessoal - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru


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o \ufb01 lho somente cinco dias, por medo da constante 
ameaça contra sua segurança e integridade no presídio. Durante o tempo que passou na prisão viu o \ufb01 lho 
\u201cmuito poucas vezes\u201d, e \ufb01 nalmente pôde \u201cser sua mãe\u201d quando saiu da prisão dez anos mais tarde.
No início de 1993, foram transferidas para a prisão de Santa Mónica, ocasião em que utilizaram bastões 
elétricos contra elas e as espancaram de maneira \u201chorrível\u201d.
A experiência vivida repercutiu na saúde de seu \ufb01 lho, que apresenta alterações no sistema nervoso e \u201c[n]ão 
pode sofrer emoções fortes. Nem tristezas nem alegrias fortes\u201d. Em consequência das condições carcerárias 
descritas, a testemunha contraiu tuberculose e hoje sofre de polineurite. Também teve depressão, e sua 
família se viu fortemente afetada pelas sequelas do massacre.
7. Luis F. Jiménez, testemunha ocular dos fatos de maio de 199217
Era advogado da Secretaria Executiva da Comissão Interamericana de Direitos Humanos no momento 
dos fatos. Em 6 de maio de 1992, foi procurado por um familiar de um dos presos, que lhe pediu que se 
aproximasse do presídio, \u201co mais rápido possível, pois havia começado uma operação de forças combinadas 
do Exército e da Polícia para transferir os presos para outro presídio, o que era considerado pelos familiares 
um pretexto para executar o que chamavam de \u2018genocídio\u2019\u201d.
Naquele mesmo dia a testemunha foi ao presídio, junto com um encarregado de segurança designado 
pelo Estado. Entrevistou-se nas proximidades do presídio com o Diretor, Coronel Gabino Cajahuanca, que 
comunicou à testemunha que \u201ctemia uma matança\u201d, e solicitou que a Comissão adotasse medidas. O coronel 
também o informou de que havia sido afastado da tomada de decisões, \u201cpois o controle do presídio havia 
sido assumido por uma unidade especial das forças de segurança\u201d.
Com base em informação prestada por diferentes fontes, a testemunha constatou que não havia ocorrido 
nenhuma rebelião ou motim por parte dos presos, \u201cmas uma ação violenta e unilateral das forças de 
segurança\u201d.
Na noite de 7 de maio de 1992, foi informado por um grupo de familiares dos internos, acompanhados 
por dois de seus advogados, que \u201cos presos aceitavam a transferência com a condição de que estivessem 
presentes no ato representantes da Comissão de Direitos Humanos da OEA e da Cruz Vermelha\u201d. No dia 
seguinte transmitiu essa informação pessoalmente ao Ministro da Justiça, de quem nunca recebeu resposta. 
As mais altas autoridades governamentais estavam cientes de que os presos aceitavam a transferência.
Em 9 de maio de 1992, foi ao centro penal acompanhado do Presidente da Conferência Episcopal. Pôde 
perceber que \u201c[a] quantidade de tiros contra o pavilhão era realmente impressionante\u201d. Tentou aproximar-se 
da porta do presídio, mas as forças armadas \u201c\ufb01 zeram disparos dissuasivos\u201d. Também observou que havia 
pessoal fardado, que considerou parte das \u201cforças combinadas do Exército e da Polícia [\u2026, bem como] 
sobrevoo de helicópteros[, \u2026] disparos de fuzil[,] detonações de armas de grosso calibre [e] grande número 
de veículos blindados\u201d. Também ouviu apelos por megafone, que declaravam que se dispunham a respeitar 
a vida dos que se entregassem, mas imediatamente depois ouviu disparos que supôs que \u201ceram destinados 
a eliminar a quem se haviam proposto\u201d.
Após esses fatos, as autoridades peruanas não ofereceram, imediatamente, uma relação dos feridos, mortos 
17. Na resolução do Presidente de 24 de maio de 2006 (par. 65, supra) delimitou-se o objeto desse depoimento para que apresentasse 
declaração \u201csobre os fatos que aconteceram na prisão Miguel Castro Castro na condição de testemunha ocular dos fatos de maio de 1992, 
de acordo com os termos estabelecidos no Considerando 37 da [\u2026] resolução\u201d. Segundo o disposto nessa resolução, a testemunha devia 
referir-se aos fatos dos quais teve conhecimento pessoal e direto.
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DIREITO À LIBERDADE PESSOAL - CASO DO PRESÍDIO MIGUEL CASTRO CASTRO VS. PERU
e sobreviventes. Não se permitiu a entrada no centro penal Castro Castro, mas sim à prisão de Santa Mónica, 
ao necrotério e ao Hospital da Polícia. Quando visitou a prisão de Santa Mónica, para onde foram transferidas 
algumas sobreviventes dos fatos, observou que as mulheres \u201cestavam ainda sujas do pó do presídio e 
salpicadas de sangue\u201d. Também o impressionou \u201co amontoamento das internas\u201d.
8. Raúl Basilio Gil Orihuela, suposta vítima
Era interno no pavilhão 4B do Presídio Castro Castro quando aconteceram os fatos. Tendo em vista que 
prestou serviço militar no Peru, onde recebeu treinamento no manejo de armamento e explosivos, reconheceu 
as \u201carmas de guerra\u201d utilizadas no interior do centro carcerário. Também reconheceu que participaram a 
polícia de elite, as forças armadas, efetivos da FOES (grupo de elite da Marinha) e francoatiradores, e antes 
da \u201coperação\u201d observou a presença do exército peruano com uniformes de campanha nos pavilhões 4B 
e imediações. Um mês antes dos fatos no presídio, os pavilhões 1A e 4B foram inspecionados, já que a 
imprensa dizia que havia armas dentro do centro carcerário. O resultado da inspeção foi que não existiam 
armas dentro desses pavilhões.
Na madrugada de 6 de maio de 1992, ouviu-se uma forte explosão que vinha do pavilhão 1A, onde se 
encontravam as mulheres. Houve disparos, bombas e gás lacrimogêneo. O calor era insuportável, havia 
corpos de mulheres no chão, e as que sobreviviam pediam ajuda. Foram usadas bombas incendiárias, que 
contêm gás de fósforo branco que, ao contato com o corpo humano, provoca ardência nas partes descobertas 
e nas fossas nasais, além de causar as\ufb01 xia e \u201cqueimação\u201d química dos órgãos internos e da pele. Considera 
que o propósito foi \u201cmatá-los a todos em massa\u201d. Tratou-se de um \u201cataque militar\u201d, \u201c[n]ão houve ali nenhum 
motim\u201d.
As forças armadas combinadas mataram várias pessoas, e de dentro de um helicóptero destruíram o pavilhão 
1A. No pavilhão 4B, o interno Cesar Augusto Paredes morreu em virtude de um disparo na cabeça. Em 9 de 
maio de 1992, morreu o senhor Mario Aguilar, em decorrência de queimaduras no corpo.
A quantidade de feridos e mortos era considerável. Os internos decidiram sair gritando \u201cnão disparem, vamos 
sair\u201d. Em pouco tempo, a testemunha ouviu rajadas de tiros e gritos, e quando saiu à soleira da porta 
de entrada do pavilhão, reconheceu vários mortos, entre os quais estavam Deodato Hugo Juárez e Janet 
Talavera. Homens fardados e encapuzados levaram Antonio Aranda e Julia Marlene à \u201ccozinha\u201d, onde estavam 
fuzilando internos. Os internos que sobreviveram foram colocados de bruços no chão cheio de vidro, sob a 
chuva, sem alimentação adequada, e foram maltratados, espancados, pisoteados e mordidos por cães.
Os maus-tratos continuaram durante os meses seguintes. Em algumas revistas obrigavam os internos a sair 
nus nos pátios, os torturavam com bastões elétricos e os submetiam a revistas nas partes íntimas do corpo. 
Em consequência desse tratamento, sofre de uma dor crônica lombar, perda da capacidade de visão do olho 
direito e ferimentos no braço esquerdo.
9. Jesús Ángel Julcarima Antonio, suposta vítima
Referiu-se à sua detenção e à transferência para o Presídio Castro Castro, em 8 de novembro de 1991. Sua 
condição legal era de réu, não havia sido julgado nem haviam sido formalizadas acusações contra ele. Após 
algumas notícias na imprensa peruana, que informavam que dentro do presídio havia armas e túneis, os 
presos foram submetidos a uma minuciosa revista na qual \ufb01 cou claro que não possuíam armas nem havia 
túneis construídos por eles no presídio.
Os fatos se iniciaram na madrugada de 6 de maio de 1992, quando se ouviram explosões no pavilhão 1A, 
onde se encontravam as mulheres. Os internos se deslocaram até esse pavilhão por dutos, para socorrer 
as internas. Quando chegaram havia cheiro de pólvora, se sentia uma ardência na garganta e não se podia 
respirar. Havia mortos e feridos. Os