Direito a Liberdade Pessoal  - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru
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Direito a Liberdade Pessoal - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru


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disparos que os militares faziam do teto em direção ao pavilhão 1A 
mataram Marcos Calloccunto e feriram gravemente Víctor Javier Olivos Peña. A testemunha foi ferida por 
uma bomba, situação que se complicou com a tuberculose de que já sofria. Nesses fatos também \ufb01 cou ferido 
Jesús Villaverde.
Durante o tempo do ataque os internos não receberam alimentos, água, nem atendimento médico. Alguns 
feridos morreram por falta de atendimento. Os agentes estatais mataram pessoas seletivamente, como Janet 
Talavera. Depois de suportar quatro dias de ataques, os sobreviventes foram transferidos para a zona chamada 
\u201cterra de ninguém\u201d. Foram obrigados a \ufb01 car nus, ao ar livre, deitados de bruços, e não podiam utilizar o 
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JURISPRUDÊNCIA DA CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS
banheiro. Foram espancados e pisoteados. A testemunha não recebeu atendimento médico, e permaneceu 
mais de 15 dias com a mesma roupa.
Nos meses seguintes, continuaram as torturas. Como castigos os obrigavam a cantar o hino nacional do 
Peru, cuja primeira estrofe diz \u201csomos livres\u201d, e jogavam querosene, cânfora e pele de ratos nos alimentos. 
Eram mantidos fechados 23 horas e meia por dia, as visitas eram restritas, era proibido trabalhar, cantar, fazer 
exercício e desenvolver qualquer atividade dentro do presídio.
Em consequência do ocorrido no presídio, suas relações sentimentais foram prejudicadas, e sua saúde 
piorou. Agravou-se a tuberculose de que já sofria, perdeu os dentes e grande parte da visão, contraiu alergia 
a umidade e problemas digestivos. Sua família também sofreu em consequência dos fatos. A saúde dos pais 
deteriorou, e os recursos econômicos que se destinariam aos irmãos foram usados com ele, razão pela qual 
os irmãos não puderam estudar.
b) Solicitados pelo Presidente como prova para melhor resolver
10. Nieves Miriam Rodríguez Peralta, suposta vítima
Nos \u201cdias anteriores a 6 de maio, foi realizada uma \u2018inspeção\u2019 da qual consta que não houve nenhuma espécie 
de arma [ou] \u2018resistência armada\u2019 para justi\ufb01 car o crime de genocídio, de acordo com as leis peruanas, contra 
o grupo de prisioneiros dos pavilhões 1A e 4B, acusados de pertencer ao Partido Comunista do Peru\u201d.
Em 6 de maio de 1992, estava dormindo quando escutou a primeira explosão no pavilhão das mulheres, 
e rapidamente percebeu que estavam sendo atacadas \u201cbrutal e covardemente\u201d. Observou que haviam 
dinamitado uma parede do pátio do pavilhão 1A e que \u201cbalas, bombas e gás lacrimogêneo estavam por 
toda parte\u201d. Observou também que efetivos da polícia começavam a dinamitar o teto do quarto andar. As 
internas tentaram encontrar uma saída por um duto porque \u201c[p]arecia que iam derrubar o pavilhão\u201d. Os 
dutos não eram túneis construídos pelos internos, mas construções que uniam os pavilhões. Era difícil entrar 
no duto porque era necessário passar em frente a uma janela, e os francoatiradores disparavam ao menor 
movimento. A interna María Villegas \ufb01 cou gravemente ferida. Tentando sair do pavilhão em direção ao duto, 
a testemunha foi ferida na perna por um disparo. Foi levada por dois companheiros ao pavilhão 4B. A bala 
causou impacto na região lombar esquerda, atingindo as raízes nervosas. Eram vários os feridos, mas lhes 
negaram atendimento médico, \u201cmostrando uma vez mais que [às autoridades] não importava a vida dos 
internos\u201d.
Os companheiros que estavam dentro do pavilhão pediam que os feridos fossem transferidos, e que 
tivessem atendimento médico. Também, \u201cpediam reiteradamente garantia para suas vidas (a presença de 
representantes da Cruz Vermelha Internacional, advogados e familiares) para poder sair\u201d. Entretanto, \u201co 
ataque era cada vez mais brutal e desenfreado\u201d. Em 9 de maio de 1992, \u201cos prisioneiros que saíram de mãos 
dadas cantando a Internacional\u201d foram objeto de fuzilamento seletivo.
Quando se encontrava com os demais feridos, ouviu a voz de Elvia Sanabria. Depois das transferências, 
percebeu sua ausência.
Esse \u201cataque brutal e sinistro\u201d se estendeu a seus familiares e afetou, em especial, sua mãe, que \ufb01 cou 
doente do coração, esteve em tratamento psiquiátrico e quis atentar contra a própria vida, por não suportar 
o sofrimento que sentiu em consequência dos ataques e, depois, ao buscar o corpo da \ufb01 lha que acreditava 
estar morta.
Posteriormente a esses fatos, a testemunha foi transferida com outros feridos para um hospital onde, durante 
quase toda sua permanência e em pleno frio, as mantiveram despidas e cobertas somente por um lençol, 
até que \ufb01 nalmente permitiram que a Cruz Vermelha lhes desse um cobertor e uma camisola. Durante a 
permanência das mulheres no hospital, foram vigiadas por três seguranças armados. Tinha uma sonda 
para eliminar a urina, que só foi mudada uma vez durante um mês. No hospital não lhes deram nenhum 
remédio, sendo este o motivo da morte de María Villegas. Depois de 15 dias, foi transferida junto com outras 
mulheres feridas para o presídio de segurança máxima de Chorrillos, mas o médico do presídio não quis 
se responsabilizar pelo que pudesse acontecer, e foi devolvida ao hospital junto com outras companheiras; 
tinham feridas abertas.
Depois de um mês, foi transferida novamente para o presídio de Chorrillos. Necessitava urgentemente de 
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DIREITO À LIBERDADE PESSOAL - CASO DO PRESÍDIO MIGUEL CASTRO CASTRO VS. PERU
reabilitação física, que lhe foi negada repetidamente. Depois de mais de um ano foi levada a um centro 
especializado, mas seus músculos já se haviam então atro\ufb01 ado, condição apontada pelos especialistas 
como irreversível por falta de reabilitação física. Os especialistas consideraram que havia possibilidades de 
que a testemunha recuperasse a movimentação em uma das pernas se se submetesse a reabilitação diária, 
tratamento que não pôde realizar porque as autoridades carcerárias não a levavam. Depois, foi transferida 
para o Instituto Nacional de Reabilitação, onde diagnosticaram que só podia manter a massa muscular ainda 
existente, mas as autoridades impediram o tratamento de reabilitação devido. Em duas ocasiões sofreu 
queimaduras na pele com uma bolsa de água quente. A respeito dos ferimentos que estavam abertos, só lhe 
foi dado um creme antibiótico pelo médico do presídio, até que foi levada ao hospital por exigência de sua 
família.
As internas também foram vítimas de espancamentos por parte das forças de segurança, tais como os que 
lhes foram aplicados em 25 de setembro (avalizado pela promotora Mirtha Campos) e em novembro de 1992. 
Foi arrastada pelo corredor junto com outras presas, e tiveram todo o corpo pisoteado \u201csem respeitar as 
mulheres grávidas, idosas, ou doentes\u201d. Uma vez no chão, os guardas andaram e pularam sobre suas costas, 
e colocaram o membro entre as nádegas de outras presas.
Referiu-se a seu julgamento em 1994 por um tribunal especial sem rosto.
Referiu-se a vários problemas por que passa em consequência do ferimento à bala e da falta de reabilitação 
física, tais como: paraplegia parcial afetando os membros inferiores; hemorroidas por constipação severa e 
crônica; constantes infecções nas vias urinárias; in\ufb02 amações no reto, em virtude da falta de elasticidade dos 
músculos; osteoporose, em consequência da falta de movimento e da superlotação na prisão; e problemas 
nas vias respiratórias e articulações graças à umidade e às in\ufb01 ltrações nas celas. Além da saúde e de bens 
materiais, perdeu o trabalho e seus planos de aperfeiçoamento e desenvolvimento pro\ufb01 ssional. Sofreu um 
grande dano moral e sequelas emocionais devido às já descritas \u201cviolações que denegriram [sua] dignidade 
como pessoa e como mulher\u201d. As lesões descritas impediram que desenvolvesse qualquer atividade ou 
trabalho, e tiveram um profundo impacto em sua família, afetando especialmente sua mãe e suas irmãs (uma 
delas foi detida e a outra despedida do trabalho).
Solicitou à Corte que se faça justiça para que \u201cesses fatos não \ufb01 quem impunes,