Direito a Liberdade Pessoal  - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru
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Direito a Liberdade Pessoal - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru


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e que [lhe] seja concedida 
uma justa reparação pelos danos causados a [sua] família[,] a [sua] saúde física e mental e a [sua] honra\u201d.
11. Cesar Mamani Valverde, suposta vítima
A testemunha era interno no Presídio Castro Castro no pavilhão 4B. Em 6 de maio de 1992, foi despertado 
por uma potente explosão que vinha do pavilhão 1A, no qual se encontravam as mulheres. Foi o início de 
uma sucessão de bombas e descargas explosivas lançadas contra esse pavilhão. No dia seguinte, os feridos 
foram levados ao pavilhão 4B, e se \u201cjuntaram cinco cadáveres dos internos\u201d, que foram enterrados nesse dia. 
Após tentativas de diálogo entre as partes, não se obteve resposta dos altos comandos das forças armadas. 
No início, haviam aceitado que os feridos saíssem, mas mudaram de ideia e os francoatiradores começaram 
a disparar dos pavilhões contíguos contra vários internos; o teto foi perfurado e introduziram granadas 
de mão e bombas de gás lacrimogêneo. Nesse momento havia mais de 30 mortos e mais de 500 pessoas 
imobilizadas. Os internos estavam amontoados, não havia espaço para andar, não se podia comer, dormiam 
muito perto dos cadáveres, estavam as\ufb01 xiados e se queimando por causa dos gases, das bombas e do fogo 
que as forças armadas utilizavam dentro do presídio. Considera que o que as autoridades queriam não era a 
transferência, mas sim \u201cmatar os internos\u201d.
Sua mãe teve de ir ao necrotério à sua procura e examinar todos os cadáveres, o que foi uma experiência 
traumatizante para ela.
Foi levado ao hospital da polícia onde não recebeu o atendimento médico necessário. Junto dele, reconheceu 
Walter Huamanchumo, Luis Pérez Zapata, Víctor Olivos Peña e Agustín Machuca. Seu diagnóstico, depois \u201cda 
explosão\u201d no Presídio Castro Castro, foi de queimaduras de segundo grau no rosto, peito, ambos os braços 
e pernas; perfuração dos tímpanos em ambos os ouvidos, ruptura da arcada superior direita, perda do globo 
ocular do olho direito, e perda da visão total do olho esquerdo. Programaram uma cirurgia para retirar-lhe o 
olho direito, mas nesse mesmo dia foi transferido para o Hospital Alcides Carrión, no qual não continuaram 
seu tratamento médico. Foi instalado em uma cela totalmente anti-higiênica. Em agosto de 1992, foi levado 
de volta ao Presídio Castro Castro, onde prosseguiram os maus-tratos. Foi espancado constantemente, 
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JURISPRUDÊNCIA DA CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS
obrigado a sair nu no pátio durante o inverno para ser revistado, nunca o deixaram trabalhar, não tinha acesso 
aos meios de comunicação, e não lhe permitiam ler nem fazer curativos no olho, o que provocou infecção. 
Às vezes a comida tinha vidro moído, urina, pedaços de ratos, e não era servida quente nem em horários 
adequados. Por isso aumentaram os casos de tuberculose e infecção. Sua mãe foi submetida a humilhações 
nas revistas para entrar no presídio.
Em meados de novembro de 1994, foi processado por juízes sem rosto, e foi absolvido. Quando estava em 
liberdade foi hostilizado, perseguido, detido e estigmatizado como terrorista por parte do Governo peruano. 
Por essas razões não pôde reintegrar-se à sociedade peruana, o que o levou a pedir refúgio, inicialmente, na 
República da Bolívia e, posteriormente, na República do Chile. Sua qualidade de vida depois dos fatos tem 
sido muito precária, já que apresenta incapacidade física e danos neurológicos e psicológicos consideráveis, 
razão pela qual sua saúde se deteriora cada dia mais, o que o impediu de conseguir um trabalho ou estudar.
A testemunha solicita que se condene o Estado, que lhe sejam concedidas as medidas de reparação e 
justa satisfação pertinentes, e que se punam penalmente os responsáveis pelos atos que, de acordo com a 
legislação peruana, constituem genocídio praticado contra um grupo político.
12. Alfredo Poccorpachi Vallejos, suposta vítima
Encontrava-se preso no Presídio Castro Castro, acusado de terrorismo, no momento em que ocorreram 
os fatos. Em 6 de maio de 1992, viu efetivos do DINOES (força de elite da polícia) nos tetos dos pavilhões, 
nas rotundas, \u201ccom roupas de comando, fuzis e capuz\u201d. Ouviam-se tiros e explosões, e as bombas de gás 
lacrimogêneo chegaram até o pavilhão 4B, onde estava. As prisioneiras chegaram a esse pavilhão através 
de um duto. Desse pavilhão \u201capela[ram] aos gritos às autoridades do presídio para que respeitassem a vida 
das prisioneiras[,] cessassem o ataque e conversassem com os delegados, mas [\u2026] os apelos ao Diretor 
do presídio foram em vão\u201d. A interna Janet Talavera foi crivada de balas a trinta metros dele, quando alguns 
internos saíam do pavilhão 4B.
Posteriormente, os internos foram transferidos para diferentes presídios sem que se informassem seus 
familiares. A testemunha foi transferida para o presídio Lurigancho, onde os internos foram \u201cduramente 
espancados na presença da Promotora Mirtha Campos\u201d. Durante o trajeto para rumo desconhecido, os 
prisioneiros foram espancados. Os internos foram submetidos a \u201cespancamentos [e] tortura\u201d. Na prisão 
\u201cfo[ram] submetidos a um isolamento absoluto, sem roupa e em geral sem a mais mínima provisão de 
necessidades elementares\u201d. Considera que \u201co objetivo era aniquilá-los sistematicamente tanto física como 
moralmente, reduzindo-os a condições desumanas\u201d.
Estava em tratamento médico porque sofria de tuberculose e, por conta dos fatos, seu tratamento foi 
suspenso e sua \u201csaúde piorou consideravelmente em virtude dos abusos a que foi submetido, das bombas 
de gás lacrimogêneo e das múltiplas explosões nos pavilhões, torturas e espancamentos\u201d. Em consequência 
do ataque ao Presídio Castro Castro sua tuberculose piorou, e \u201ca falta de tratamento adequado ocasionado 
pela brutalidade do sistema carcerário peruano [lhe] provocou cinco recaídas\u201d. Também \u201csofr[e] de gastrite 
crônica [devido] ao plano de isolamento e aniquilação a que [foi] submetido depois dos fatos\u201d. Também sofre 
de de\ufb01 ciência de irrigação cerebral em consequência dos socos na cabeça, e tem fragmentos de granada no 
couro cabeludo. Essas e outras doenças reduziram consideravelmente sua qualidade de vida. Particularmente, 
a tuberculose limitou seu desenvolvimento no trabalho.
Apresentou quatro recursos de habeas corpus denunciando os abusos cometidos contra ele, mas todos 
foram declarados improcedentes. Também lhe foram negados quatro pedidos de liberdade condicional, três 
pedidos de comparecimento e duas queixas ao Controle Interno do Poder Judiciário. Permaneceu na prisão 
por 18 anos e cinco meses, sem ser julgado ou condenado, e foi liberado por \u201cprescrição\u201d, já que sua 
detenção ultrapassou a pena correspondente ao crime que lhe atribuíam.
A testemunha e sua família sofreram danos psicológicos em consequência dos maus-tratos e doenças, e dos 
fatos terríveis que presenciaram. \u201cTodas as situações anteriores violaram [seu] direito à vida, à saúde, ao 
trabalho, à igualdade perante a lei, e [sua] liberdade e integridade física e mental\u201d.
Entre seus \u201cdesejos de justiça, [\u2026] está a liberação dos sobreviventes que ainda se encontram presos, o \ufb01 m 
da perseguição aos sobreviventes, a restituição plena de seus direitos e de sua honra perante a sociedade, e 
a punição dos responsáveis por esse ato genocida\u201d.
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DIREITO À LIBERDADE PESSOAL - CASO DO PRESÍDIO MIGUEL CASTRO CASTRO VS. PERU
13. Madelein Escolástica Valle Rivera, suposta vítima
Foi vítima dos fatos acontecidos de 6 a 9 de maio no Presídio Castro Castro. Estava presa no pavilhão 
1A, não havia sido sentenciada. Em 6 de maio de 1992, ouviu uma detonação ao redor das 4h. Os 
membros das forças especiais atacaram o pavilhão 1A, e nos tetos de outros pavilhões se encontravam 
francoatiradores disparando pelas janelas e pela cabine. O ataque foi muito intenso, com todo tipo de 
armas, lança-granadas, bazucas, armas longas e bombas de gás lacrimogêneo, bombas de gás vomitivo 
e bombas paralisantes. À medida que transcorriam