Direito a Liberdade Pessoal  - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru
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Direito a Liberdade Pessoal - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru


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a gritos que não disparassem contra eles porque iam sair, mas foram fuzilados. A testemunha 
saiu do pavilhão 4B, caminhou pela \u201crotunda\u201d e chegou à \u201cporta de acesso\u201d, de onde conseguiu ver que 
\u201chavia [\u2026] centenas de tropas combinadas com armamentos de guerra\u201d e que nos morros havia soldados 
com armamento. Quando ia andando viu que \u201ca [sua] frente havia uma metralhadora de três pés\u201d. Virou-se e 
uma bala acertou-lhe as costas, outra a mão, e a palma da mão se abriu. Estava estirado de boca para cima 
quando um soldado com fuzil e capuz colocou-lhe a arma na boca, o xingou e o chutou. Pedia água porque 
sentia muita sede, lhe doía a mão e as costas, tinha um \u201cburaco\u201d na clavícula. Aproximadamente uma hora 
depois, dois soldados o pegaram pela mão que doía e o levantaram pelo braço, \u201ccomo se fosse um saco de 
batatas\u201d e o jogaram em um caminhão militar onde havia outras pessoas feridas. Jogaram outras pessoas 
em cima dele. Depois os levaram ao hospital da polícia.
No Hospital da Polícia costuraram sua mão de tal forma que \ufb01 cou com muitas cicatrizes e na prática não 
consegue movimentá-la bem. Durante o tempo em que esteve no hospital \u201cos médicos [lh]es disseram 
que não havia medicamentos para [eles]\u201d. A Cruz Vermelha Internacional preocupava-se de que tivessem 
medicamentos. Permaneceu no hospital vigiado por três ou quatro policiais armados que não permitiam a 
entrada em seu quarto.
Transcorridas duas semanas, foi transferido para o hospital \u201cCarrión\u201d, onde permaneceu num lugar sujo, sem 
janelas, com muito barulho, sem roupa, e com os ferimentos infectados porque não lhes foram entregues os 
remédios que haviam sido distribuídos pela Cruz Vermelha. A Cruz Vermelha \u201cconseguiu entrar depois de 15 
dias\u201d. Transcorridos cerca de um mês e meio foram transferidos de novo para o Presídio Castro Castro, sem 
roupa nem sapatos. Como era inverno, o frio fazia com que lhes doessem mais os ossos e os ferimentos. No 
Presídio Castro Castro continuaram a ser \u201ctorturados\u201d, tocavam marchas militares às 6h com muito volume; 
os espancaram; aplicaram-lhes descargas elétricas; não lhes permitiam realizar nenhuma atividade como ler 
ou trabalhar; não podiam sair ao pátio; permaneciam 24 horas nas celas de 2x1,80m sem receber a luz do 
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JURISPRUDÊNCIA DA CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS
sol; os alimentos que lhes ofereciam eram sujos, inclusive com pequenas pedras; e eram obrigados a passar 
entre duas \ufb01 las de guardas, que lhes batiam com paus e ferros. Teve de suportar todas essas \u201ctorturas\u201d 
quando se estava recuperando do que lhe causaram os ferimentos de bala.
Permitiram as visitas dos familiares depois de seis meses do ocorrido no Presídio Castro Castro.
Sua mãe sofreu muito e \u201ca tensão lhe provocou câncer\u201d, em razão do qual faleceu há dois anos. Durante 
os dias do ataque sua mãe chorou muito, e se sentia muito mal ao ver que estavam \u201cbombardeando [\u2026] e 
fuzilando\u201d a testemunha e ela não podia fazer nada.
Está cursando o quinto ano de Direito na Universidade de San Marcos. Também trabalha como operário da 
construção civil. Hoje, além das lesões por causa dos disparos (que incluem as cicatrizes), tem uma lesão 
no ouvido que lhe reduziu a capacidade de ouvir, causada por uma explosão durante o ataque ao presídio. 
Além disso, tem problemas de movimento na mão, que lhe trouxeram di\ufb01 culdade para a realização de certos 
trabalhos, e não pode levantar \u201ccompletamente\u201d o braço. Tem muitas di\ufb01 culdades para ouvir uma pessoa em 
uma conversação normal, e mais ainda para ouvir suas aulas.
No Peru ninguém foi indiciado e nenhuma autoridade se responsabilizou pelo que lhes ocorreu.
4. Lastenia Eugenia Caballero Mejía, esposa da suposta vítima Mario Aguilar Vega e mãe das 
supostas vítimas Ruth e Orlando Aguilar Caballero
Seu esposo e seu \ufb01 lho estavam presos no pavilhão 4B do Presídio Castro Castro e sua \ufb01 lha, no pavilhão 
1A desse presídio. Inteirou-se pelo noticiário do que estava ocorrendo no presídio e se dirigiu ao local 
acompanhada de sua neta. Assim que chegou, observou muitos militares e policiais que cercavam o centro 
penitenciário. Ouviu disparos e explosões, e ninguém lhe deu informação sobre os internos. No terceiro dia, 
a situação foi mais grave, visto que o número de militares aumentou, e continuavam as explosões e disparos. 
Os familiares foram maltratados pelos militares, que lhes diziam que fossem embora e que disparavam e 
lançavam bombas de gás lacrimogêneo contra eles, além dos jatos de água. Além disso, também foram 
vítimas de disparos feitos por civis.
No terceiro dia dos fatos, ao não saber o que poderia ter acontecido com seus familiares, dirigiu-se ao necrotério 
para buscar informação. Segundo ela, o necrotério \u201cera um verdadeiro açougue\u201d. Para a identi\ufb01 cação dos 
familiares, lhe mostraram fotos de pessoas que estavam \u201cdespedaçadas\u201d. Havia vermes no chão e um cheiro 
horrível, bem como pessoas \u201cjogadas no chão como se fossem animais\u201d. Além disso, o pessoal do necrotério 
realizava as autópsias diante dos familiares dos cadáveres, como se não se importasse que eles vissem o 
processo. Foi \u201cuma dor muito imensa\u201d para a testemunha, que lhe \u201c\ufb01 cou estampada como uma marca muito 
grande\u201d. Seus \ufb01 lhos e seu esposo não estavam no necrotério, por esse motivo ela voltou ao presídio.
Quando ela estava nas proximidades do presídio, no quarto dia dos fatos, saía fumaça, ouviam-se \u201cestrondos\u201d, 
e se escutavam metralhadoras \u201ccomo se fosse uma guerra\u201d. Imaginou que os \ufb01 lhos e o esposo estivessem 
mortos. Voltou ao necrotério e não os encontrou.
O Estado não apresentou uma lista o\ufb01 cial com o nome das pessoas que morreram nem dos sobreviventes e 
sua condição.
Seus \ufb01 lhos sobreviveram aos fatos e foram transferidos para as prisões de Ica e Puno. Depois de 12 anos 
perguntando a diferentes pessoas sobre o ocorrido, ela teve conhecimento de que seu esposo havia morrido 
carbonizado, em consequência de uma explosão de uma bomba incendiária.
Ela sofre de transtornos psicológicos e nervosos e de outras doenças do sistema urinário. Solicitou que os 
responsáveis sejam punidos e que lhe entreguem o cadáver de seu esposo para que possa sepultá-lo.
c) Proposto pelo Estado
5. Omar Antonio Pimentel Calle, Juiz do Segundo Juizado Penal Supraprovincial
Trabalha como Juiz Supraprovincial, encarregado de conhecer de casos de terrorismo e violação de direitos 
humanos. Desde julho de 2005, vem conhecendo do caso, em matéria de instrução, pelos fatos ocorridos 
no Presídio Castro Castro entre 6 e 9 de maio de 1992. Após avaliar a denúncia apresentada pela Quinta 
Promotoria Supraprovincial, a testemunha procedeu à determinação da abertura de instrução. A investigação 
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DIREITO À LIBERDADE PESSOAL - CASO DO PRESÍDIO MIGUEL CASTRO CASTRO VS. PERU
judicial é exclusivamente por homicídio quali\ufb01 cado, baseada nos artigos 106 e 108, inciso 4 do Código Penal 
do Peru, e os demandantes serão os familiares das vítimas desses homicídios.
A respeito dos sobreviventes e feridos, o referido juizado não vem conhecendo de seus casos, já que, no 
Peru, o monopólio da ação penal está a cargo do Ministério Público. Cabe ao promotor denunciar perante o 
juiz, e este último não pode motu propio iniciar essa ação. É possível que, estando na etapa de julgamento de 
um caso, se constate que falta completar alguma informação, caso em que se enviará outra vez ao promotor 
para que \u201ca complete\u201d. No caso do Presídio Castro Castro, \u201cencaminhou-se ao promotor [competente]\u201d para 
que emita opinião sobre dois aspectos: o primeiro é que se diz nos autos e na investigação que houve muitos 
feridos, como também outros atos que violaram diferentes bens jurídicos que não só conduziram a mortes; e 
o segundo é que a parte civil solicitou o comparecimento ao processo do ex-presidente Fujimori.
O pronunciamento sobre a responsabilidade do ex-presidente Alberto Fujimori cabia à Promotoria da Nação 
pela