Direito a Liberdade Pessoal  - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru
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Direito a Liberdade Pessoal - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru


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das recomendações da CVR.
208. É pertinente ainda ressaltar que a Defensoria Pública do Peru se referiu em vários relatórios a esse contexto e 
deu sequência ao processo de reparação das vítimas da violência dessa época e, em especial, se pronunciou 
sobre a forma em que se investigaram as denúncias por essas violações dos direitos humanos.123
209. A investigação interna que cabia realizar pelos fatos deste caso foi afetada pela situação de impunidade dominante 
no Peru naquela época de graves violações dos direitos humanos. Recentemente, 13 anos depois de ocorridos os 
fatos, em 16 de junho de 2005, um tribunal abriu um processo penal referente à investigação de fatos suscitados 
no Presídio Castro Castro entre 6 e 9 de maio de 1992, aspectos que serão analisados no capítulo sobre a alegada 
violação dos artigos 8 e 25 da Convenção (par. 372 a 408 infra). Há quase três meses, ordenou-se a abertura de 
instrução num processo penal pela via ordinária contra Alberto Fujimori Fujimori por alguns dos fatos do presente 
caso (par. 197.75 supra), em cujo auto de abertura o juiz penal salientou, inter alia, que:
decorre das investigações preliminares que se incrimina ALBERTO FUJIMORI FUJIMORI, na qualidade 
de ex-presidente do Governo de Reconstrução Nacional e Chefe Supremo das Forças Armadas e 
Policiais do Peru, por ter ordenado o planejamento e execução de um plano para assassinar dirigentes 
e integrantes do Sendero Luminoso, fatos sucedidos no Estabelecimento Penal de Regime Fechado 
Especial Miguel Castro Castro, entre seis e dez de maio de mil novecentos e noventa e dois, para o 
que o denunciado, como parte da estratégia integral contra o terrorismo, que anunciara depois do 
denominado autogolpe de Estado de cinco de abril de mil novecentos e noventa e dois, expediu o 
Decreto-Lei Número vinte e cinco mil quatrocentos e vinte e um, de seis de abril de mil novecentos 
e noventa e dois, declarando em situação de reorganização o Instituto Nacional Penitenciário [\u2026].124
A denominada \u201cOperação Mudança 1\u201d iniciada em 6 de maio de 1992
210. No contexto descrito, o Estado realizou a denominada \u201cOperação Mudança 1\u201d, que, segundo fontes o\ufb01 ciais, 
pretendia a transferência das internas que se encontravam no pavilhão 1A do Presídio Miguel Castro Castro 
para outra prisão de segurança máxima de mulheres. Nesse pavilhão, encontravam-se aproximadamente 135 
internas mulheres e 50 homens (par. 197.13 supra). Comprovou-se que a \u201coperação\u201d também se destinou ao 
pavilhão 4B desse centro penal, em que havia aproximadamente 400 internos homens. As internas e os internos 
desses pavilhões do presídio eram acusados ou condenados pelos crimes de terrorismo ou de traição à pátria, 
e eram supostamente membros do Sendero Luminoso (par. 197.13 supra).
211. Quanto ao início dessa \u201coperação\u201d, as partes coincidem em que a primeira ação ocorreu em 6 de maio de 
1992 aproximadamente às 4h, quando efetivos das forças de segurança peruanas iniciaram uma incursão no 
pavilhão 1A, derrubando parte da parede mediante o uso de explosivos, para o que se recorreu a três detonações 
sucessivas. Simultaneamente, os efetivos policiais abriram buracos nos telhados, de onde dispararam (par. 
197.20 supra). Isso se encontra apoiado em prova anexada aos autos deste caso.
212. Não escapa à consideração da Corte a dimensão da força utilizada nessa primeira ação da \u201coperação\u201d realizada 
na madrugada de 6 de maio de 1992. A Comissão ressaltou em sua demanda que \u201cas forças de segurança do 
Estado empregaram, desde o início da \u2018operação\u2019, força excessiva e inclusive material bélico que ocasionou a 
destruição parcial dos pavilhões\u201d.
213. Segundo as explicações do Estado, na época dos fatos, utilizou-se a força porque os internos estavam amotinados. 
Sobre esse ponto, a Comissão salientou na demanda que \u201cas autoridades encontraram resistência\u201d para realizar 
a \u201coperação\u201d de transferência, e isso \u201cdesencadeou a utilização da força\u201d, embora em seu escrito de alegações 
\ufb01 nais se re\ufb01 ra a que \u201csupostamente houve resistência à transferência\u201d. Na mesma demanda, assume uma posição 
pouco clara ao ressaltar que \u201cé irrelevante de quem partiu a agressão [\u2026]\u201d. Também na demanda, a Comissão 
a\ufb01 rmou que foi perpetrado um \u201cmassacre [\u2026] contra os internos do Centro Penal \u2018Miguel Castro Castro\u2019\u201d. Ainda 
na demanda, salientou que \u201c[o] fato de que os internos presos nos pavilhões \u20181A\u2019 e \u20184B\u2019 do presídio \u2018Castro Castro\u2019 
tivessem armas, cujo número, características e funcionalidade eram desconhecidos das forças de segurança 
peruanas mostrava uma disposição de resistência à operação de transferência [, \u2026] situação [que] autorizava 
o uso gradual de força\u201d. Essas últimas a\ufb01 rmações não foram sustentadas pela Comissão em seu escrito de 
123. Cf. Relatório Defensorial Nº 97, \u201cA dois anos da Comissão da Verdade e Reconciliação\u201d, setembro de 2005. 
124. Cf. auto de abertura de instrução expedido pelo Segundo Juizado Penal Supraprovincial do Peru em 29 de agosto de 2006 (expediente 
sobre mérito e eventuais reparações e custas, tomo XI, folhas 3.173 a 3.239).
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DIREITO À LIBERDADE PESSOAL - CASO DO PRESÍDIO MIGUEL CASTRO CASTRO VS. PERU
alegações \ufb01 nais, embora ao referir-se à \u201cexecução extrajudicial de internos desarmados\u201d, tenha a\ufb01 rmado nas 
alegações que \u201cem casos como os do Presídio Castro Castro [\u2026] se constata que o uso de armas de fogo não é 
necessário e que[,] em todo caso, a motivação anunciada para a operação não é a real\u201d.
214. A interveniente comum destacou que não havia um motim que justi\ufb01 casse o uso de força por parte do Estado, 
e que \u201c[n]ada na prova apresentada durante o processo perante a Comissão provou que, de fato, a operação 
\u2018Mudança I\u2019 foi uma operação legal com a \ufb01 nalidade de transferir prisioneiros\u201d. A interveniente também 
salientou que \u201c[a] Comissão [\u2026] se fundamenta na versão dos fatos re\ufb02 etid[a] num relatório proveniente de 
um organismo Estatal peruano (a CVR)\u201d, e que esse relatório \u201cse contradiz com todos os autos do processo 
perante a própria Comissão (prova nunca refutada pelo Estado peruano), e mais ainda que, em seus aspectos 
fundamentais, contradiz as conclusões do órgão judicial peruano (Câmara Nacional de Terrorismo), que 
investigou fatos relativos ao ocorrido em Castro Castro proferindo sentença nos primeiros meses de 2004\u201d. 
Além disso, a interveniente enfatizou que \u201c[s]e o objetivo tivesse sido uma \u2018necessária\u2019 transferência de 
mulheres prisioneiras para outra prisão \u2018porque esse presídio já não tinha capacidade\u2019 por que se continuou 
levando prisioneiras até a última semana precisamente a esse lugar?\u201d
215. Não foi provado perante esta Corte que existisse um motim quando se realizou essa primeira ação da 
\u201coperação\u201d, nem outra situação que justi\ufb01 casse o uso legítimo da força pelos agentes do Estado. Ao contrário, 
o comportamento observado pelos agentes de segurança, altas autoridades do Estado e outros funcionários 
estatais durante os quatro dias de duração da \u201coperação\u201d, bem como posteriormente ao fato, mostram que 
se tratou de um ataque executado para atentar contra a vida e a integridade das internas e internos que se 
encontravam nos pavilhões 1A e 4B do Presídio Miguel Castro Castro.
216. Para chegar à conclusão de que não havia uma causa que justi\ufb01 casse o uso legítimo da força pelos agentes 
estatais, e que se tratou de um ataque executado para atentar contra a vida e a integridade das internas e 
internos que se encontravam nos pavilhões 1A e 4B, a Corte levou em consideração, entre outras, as seguintes 
ações e omissões em que incorreram as autoridades estatais na época dos fatos:
\u2022 as autoridades estatais não informaram que no dia 6 de maio de 1992 realizariam uma transferência 
das internas (par. 197.15 supra);
\u2022 a primeira ação da \u201coperação\u201d foi sumamente violenta, e não há prova de que os agentes estatais 
houvessem recorrido às medidas de adoção indispensável previamente ao uso da