Direito a Liberdade Pessoal  - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru
136 pág.

Direito a Liberdade Pessoal - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru


DisciplinaDireito Internacional5.682 materiais45.500 seguidores
Pré-visualização50 páginas
força; ou seja, o 
primeiro e único recurso foi o ataque contra as internas;
\u2022 desde a primeira ação, utilizaram explosivos para derrubar a parede externa do pavilhão 1A (par. 
197.20 supra);
\u2022 desde o primeiro dia da \u201coperação\u201d, e durante os três seguintes, foi empregado armamento que os 
peritos quali\ufb01 caram como de guerra ou próprio de uma \u201cincursão militar\u201d (par. 186 e 187 supra), tais 
como granadas tipo instalazza, bombas, foguetes, helicópteros de artilharia, morteiros e tanques, 
bem como bombas de gás lacrimogêneo e vomitivo, além de bombas paralisantes, contra os 
internos. O especialista Peerwani, que é perito forense (par. 187 supra), ressaltou que utilizaram 
armas de grande velocidade que se caracterizam por provocar maior destruição nos tecidos e muitos 
ferimentos internos no corpo, além de portarem uma grande quantidade de energia cinética, que 
tende a recolchetear ao tocar o alvo, causando ainda mais dano;
\u2022 a dimensão da força empregada também se depreende de que da \u201coperação\u201d participaram agentes 
da polícia, do exército e de forças especiais tais como DINOES, UDEX, SUAT e USE, os quais 
inclusive se posicionaram como francoatiradores nos telhados do presídio e dispararam contra os 
internos (par. 197.21 supra);
\u2022 o tipo de ferimento sofrido pelos internos con\ufb01 rma que os prisioneiros se esquivaram de descargas 
de armas de fogo dirigidas a eles; e alguns prisioneiros morreram em consequência de explosões e 
queimaduras (par. 187 supra). Os prisioneiros também apresentavam ferimentos nas costas e nas 
extremidades. Além disso, a maioria dos internos mortos apresentavam entre três e 12 perfurações 
de bala na cabeça e no tórax (par. 197.39 supra);
\u2022 apesar do oferecimento de vários órgãos internacionais e outras organizações para intervir no 
desenvolvimento da \u201coperação\u201d para que cessasse a violência, o Estado não utilizou meios que não 
fosse a força letal (par. 197.35 supra);
\u2022 no último dia da \u201coperação\u201d, os agentes estatais dispararam contra os internos que saíram 
156
JURISPRUDÊNCIA DA CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS
do pavilhão 4B, os quais haviam pedido que não disparassem contra eles; ou seja, dispararam 
indiscriminadamente contra internos que estavam sob o controle das autoridades estatais, e não 
signi\ufb01 cavam perigo que justi\ufb01 casse o uso da força (par. 197.37 supra);
\u2022 alguns internos que se encontravam sob o controle das autoridades estatais foram separados do 
grupo e executados por agentes estatais (par. 197.38 supra);
\u2022 durante os dias da \u201coperação\u201d, divulgou-se que, pelo menos duas vezes (par. 197.28 e 197.30 supra), 
o então Presidente da República, Alberto Fujimori, se reuniu nas instalações do Comando Geral do 
Exército, conhecido como \u201cPentagonito\u201d, com o Conselho de Ministros e autoridades policiais e 
militares, para avaliar a situação do presídio e determinar as ações a serem seguidas. No dia 10 
de maio, Fujimori também se apresentou no presídio e caminhou entre os prisioneiros deitados de 
bruços no chão dos pátios (par. 197.42 supra);
\u2022 uma vez encerrada a \u201coperação\u201d e encontrando-se os internos sob o controle das autoridades 
estatais, o Estado não prestou a alguns deles a necessária assistência médica, durante horas, e 
a outros durante dias, em consequência do que alguns morreram e outros \ufb01 caram com sequelas 
físicas permanentes (pars. 197.43 e 197.47 supra);
\u2022 depois de concluída a \u201coperação\u201d, alguns dos internos feridos que permaneceram durante horas 
sem assistência médica foram levados a hospitais, onde vários deles não receberam os remédios de 
que necessitavam (par. 197.47 supra); e
\u2022 as autoridades estatais incorreram em graves omissões na coleta, preservação e análise da prova: 
não \ufb01 zeram provas toxicológicas; não coletaram provas como cartuchos de balas ou fragmentos 
de metal; não recolheram as impressões digitais ou a roupa dos mortos (par. 187 supra); os 
protocolos de necropsia e os laudos periciais de balística forense dos internos assassinados 
violentamente foram realizados de forma incompleta; não preservaram as armas apreendidas na 
\u201coperação\u201d nem os projéteis de armas de fogo retirados dos cadáveres, bem como os encontrados 
nos pavilhões 1A e 4B, e na \u201crotunda\u201d e na \u201cterra de ninguém\u201d do Presídio Castro Castro; e 
recentemente, em 21 de abril de 2006, foi realizada uma diligência de inspeção judicial no presídio 
(par. 197.74 supra).
217. É importante observar as diferenças registradas no número de baixas: 41 internos identi\ufb01 cados e um policial; e 
no número de internos feridos: aproximadamente 190 em contraposição com aproximadamente nove agentes 
policiais feridos (par. 197.40 supra). O Estado não estabeleceu a causa da morte do policial nem dos ferimentos 
dos referidos agentes.
218. Nessa ordem de considerações é preciso fazer referência ao disposto na sentença proferida em 3 de fevereiro 
de 2004 pela Câmara Nacional de Terrorismo da Corte Suprema de Justiça do Peru (par. 197.67 supra), que 
absolveu os quatro internos acusados de terrorismo, violação da liberdade pessoal, exposição ou abandono 
de pessoas em perigo, posse ilegal de armas e material explosivo e violência e resistência à autoridade \u201cem 
detrimento do Estado e outros\u201d, com base nos fatos suscitados em consequência do desenvolvimento da 
\u201cOperação Mudança 1\u201d. Nessa sentença, a Câmara Nacional de Terrorismo estabeleceu, inter alia, que \u201cem 6 de 
maio de 1992, os internos dos pavilhões Um A e Quatro B não estavam amotinados, nem realizando ato de força 
ou emprego de violência alguma, que houvesse justi\ufb01 cado uma intervenção da força pública das características 
da operação \u2018Mudança I\u2019\u201d. A prova testemunhal apresentada perante esta Corte também coincide em que não 
havia um motim dos internos quando o Estado deu início ao ataque (par. 186 e 187 supra).
219. Tendo em vista que esta Corte considerou provado que não havia um motim nem outra situação que justi\ufb01 casse 
o uso legítimo da força no início da \u201cOperação Mudança 1\u201d, é desnecessário e irrelevante realizar considerações 
sobre a controvérsia quanto à posse e utilização de armas por parte dos internos, ponto a respeito do qual não 
há prova conclusiva.
220. No presente caso, é claro que as ações estatais da chamada \u201cOperação Mudança 1\u201d, que durou quatro dias, 
foram amplamente divulgadas na sociedade peruana e tratadas pelos meios de comunicação e publicamente 
pelas autoridades estatais como ações estatais destinadas a controlar um amotinamento de presos considerados 
membros de grupos subversivos, além de terem signi\ufb01 cado uma exposição pública sobre a dimensão da força 
que o Estado era capaz de utilizar na luta contra a subversão.
221. Os atos, executados de forma direta por agentes estatais cuja atuação era protegida por sua autoridade, se 
dirigiram contra pessoas presas num centro penal estatal, ou seja, pessoas a respeito das quais o Estado tinha 
157
DIREITO À LIBERDADE PESSOAL - CASO DO PRESÍDIO MIGUEL CASTRO CASTRO VS. PERU
a responsabilidade de adotar medidas de segurança e proteção especiais, na condição de garante direto de seus 
direitos, posto que essas pessoas se encontravam sob sua custódia.125
222. Outro dado importante que este Tribunal levará em conta ao analisar a responsabilidade internacional do Estado 
é que os referidos atos de violência extrema da denominada \u201cOperação Mudança 1\u201d eram dirigidos, em primeiro 
termo, às internas presas no pavilhão 1A do Presídio Miguel Castro Castro (par. 197.20 supra). Posteriormente, 
dirigiu-se a força contra o pavilhão 4B do presídio (pars. 197.23, 197.24 e 197.31 supra), uma vez que as 
internas começaram a passar para esse pavilhão a \ufb01 m de proteger-se, e que os internos do 4B começaram a 
ajudá-las. Na época dos fatos, as altas autoridades estatais consideravam que essas mulheres localizadas no 
pavilhão 1A eram membros de organizações subversivas e isso determinava, em grande medida, a ação