Direito a Liberdade Pessoal  - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru
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Direito a Liberdade Pessoal - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru


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estatal.
223. Ao analisar os fatos e suas consequências a Corte levará em conta que as mulheres se viram afetadas 
pelos atos de violência de maneira diferente dos homens, que alguns atos de violência foram dirigidos 
especi\ufb01 camente contra elas e outros as afetaram em maior proporção que aos homens. Diversos órgãos 
peruanos e internacionais reconheceram que, durante os con\ufb02 itos armados, as mulheres enfrentam situações 
especí\ufb01 cas de dano a seus direitos humanos, como os atos de violência sexual, que em muitas ocasiões é 
usada como \u201cmeio simbólico para humilhar a parte contrária\u201d.126
224. É fato reconhecido que, durante os con\ufb02 itos armados internos e internacionais, as partes que se enfrentam 
utilizam a violência sexual contra as mulheres como meio de castigo e repressão. A utilização do poder estatal 
para violar os direitos da mulher num con\ufb02 ito interno, além de afetá-las de forma direta, pode ter por objetivo 
causar um efeito na sociedade mediante essas violações, e transmitir uma mensagem ou lição.
225. A esse respeito, em seu Relatório Final, a Comissão da Verdade e Reconciliação do Peru a\ufb01 rmou que no con\ufb02 ito 
armado existiu \u201cuma prática [\u2026] de violações sexuais e violência sexual contra mulheres principalmente\u201d, a 
qual \u201cé imputável [\u2026] em primeiro lugar a agentes estatais [\u2026 e] em menor medida a membros dos grupos 
subversivos\u201d. A CVR também salientou que durante o referido con\ufb02 ito os atos de violência sexual contra as 
mulheres tinham por objetivo castigar, intimidar, pressionar, humilhar e degradar a população.
226. A Corte constatou que diversas ações registradas no presente caso em detrimento das mulheres responderam 
ao referido contexto de violência contra a mulher nesse con\ufb02 ito armado (par. 306 a 313 infra).
227. Com base no exposto neste capítulo com relação ao contexto em que ocorreram os fatos e sobre a execução da 
denominada \u201cOperação Mudança 1\u201d, que pretendia atentar contra a vida e a integridade das internas e internos 
que se encontravam nos pavilhões 1A e 4B do Presídio Castro Castro, a Corte considerou estabelecido que, no 
presente caso, existem múltiplos fatores que determinam a gravidade desses fatos, e que serão considerados 
por este Tribunal para determinar as consequências jurídicas nos capítulos seguintes sobre as alegadas 
violações à Convenção Americana.
X
Violação do artigo 4 (Direito à vida) da Convenção Americana, 
em relação ao artigo 1.1 do mesmo instrumento
Alegações da Comissão
228. Quanto à alegada violação do artigo 4 da Convenção, em relação ao artigo 1.1 do mesmo instrumento, a 
Comissão alegou, em resumo, o seguinte:
\u201cFalta de prevenção e uso excessivo da força\u201d
a) houve uma manifesta falta de previsão das autoridades peruanas quanto à supervisão e controle 
125. Cf. Caso do Centro Penitenciário Região Capital Yare I e Yare II, Medidas Provisórias. Resolução da Corte Interamericana de Direitos 
Humanos de 30 de março de 2006, Considerando nono; Caso do Internato Judicial de Monagas (La Pica), Medidas Provisórias. Resolução 
da Corte Interamericana de Direitos Humanos, de 9 de fevereiro de 2006, Considerando nono; e Caso da Penitenciária Urso Branco, Medidas 
Provisórias. Resolução da Corte Interamericana de Direitos Humanos, de 18 de junho de 2002, Considerando oitavo. 
126. Cf. ONU, Comissão para a Eliminação da Discriminação contra a Mulher, 11º período de sessões. Recomendação geral 19, \u201cA violência 
contra a mulher\u201d. Doc. HRI/GEN/1/Rev. 1at84 (1994), par. 16; O.N.U., Comitê de Direitos Humanos, 57° período de sessões de 2001, Relatório 
da Senhora Radica Coomaraswamy, Relatora Especial sobre a Violência contra a Mulher, com a inclusão de suas causas e consequências, 
apresentado em conformidade com a Resolução 2000/45 do Comitê de Direitos Humanos, \u201cA violência contra a mulher cometida ou tolerada 
pelo Estado em tempos de con\ufb02 ito armado (1997-2000)\u201d, E/CN.4/2001/73, par. 44; e Defensoria Pública do Peru. Relatório Defensorial No 80, 
Violência Política no Peru: 1980-1986, uma aproximação a partir da perspectiva de gênero, capítulo IV, p. 34, 35 e 45.
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JURISPRUDÊNCIA DA CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS
dos pavilhões nos quais supostamente ocorreu a resistência à transferência, e na facilitação da 
entrada de armas;
b) ao iniciar a operação, o Estado não recorreu a mecanismos alternativos destinados a conseguir uma 
solução negociada para a transferência ou para reduzir a capacidade de resistência dos internos, 
e recusou de forma expressa a intervenção dos representantes do Comitê Internacional da Cruz 
Vermelha, da Comissão Episcopal de Ação Social, da Coordenação Nacional de Direitos Humanos e 
da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. As forças de segurança do Estado empregaram, 
desde o início da operação, força excessiva e inclusive material bélico que provocou a destruição 
parcial dos pavilhões matéria da operação;
c) uma ação de transferência de detentos deve ser planejada e controlada para reduzir ao mínimo o 
uso da força e os riscos para a vida e a integridade física das pessoas envolvidas, e deve dispor dos 
cuidados necessários para determinar as responsabilidades dos agentes estatais que façam uso das 
armas;
d) o uso legítimo da força pública implica, entre outros fatores, que essa força deve ser necessária e 
proporcional. A polícia e outros funcionários encarregados de fazer cumprir a lei devem proteger 
os direitos à vida, à liberdade e à segurança da pessoa, podendo empregar a força, unicamente, em 
caso de perigo direto ou iminente de morte ou de lesões para os próprios agentes ou outras pessoas;
e) para resistir à entrada da força pública no presídio, alguns dos internos podem ter acionado armas 
de fogo, existindo discrepância entre as partes a respeito do número, poder, alcance e funcionalidade 
dessas armas. Essa situação não pôde ser esclarecida, devido ao manejo irregular da prova e à 
destruição parcial dos resultados da investigação;
f) a prova apresentada pelo Estado mostra que a maioria das vítimas mortais apresentou entre três e 12 
perfurações de bala, alguns delas nas extremidades inferiores, e que outras vítimas mortais e feridos 
apresentavam lesões compatíveis com as provocadas por objetos contundentes ou perfurocortantes 
e lacerações que podiam ser consequência de agressões. Além disso, está clara a forma em que 
se executou a operação desde o início, empregando explosivos para derrubar paredes, e até sua 
conclusão, com a demolição parcial do pavilhão 4B do Presídio Castro Castro, o que evidencia um 
uso desproporcional da força, e de forma indiscriminada contra qualquer interno, sem atender ao 
fato de que se houvesse rendido ou entregado;
g) o tipo de armamento empregado durante a incursão permite concluir que a intensão dos agentes 
estatais era provocar grave dano físico e psicológico, além da eliminação do maior número possível 
de internos;
h) a falta de prevenção das autoridades para impedir a entrada e a posse de armas no centro penal, 
a posse de explosivos de fabricação caseira por parte dos internos e o uso desproporcional da 
força ao longo dos quatro dias que durou a incursão permitem atribuir ao Estado as mortes 
ocorridas desde o primeiro dia da \u201cOperação Mudança 1\u201d até os instantes anteriores à rendição 
dos presos, em 9 de maio de 1992, constituindo violações do artigo 4 da Convenção Americana 
e o descumprimento da obrigação geral de respeito e garantia contemplada no artigo 1.1 do 
mesmo instrumento;
\u201cExecuções extrajudiciais\u201d
i) nas alegações \ufb01 nais, salientou que \u201ca falta de capacitação e a falta de controle da operação se 
evidenciam, em casos como o do presídio Castro Castro, em fatos que degeneram na execução 
extrajudicial de internos desarmados. Nesses casos, constata-se que o uso de armas de fogo não é 
necessário e que, em todo caso, a motivação anunciada para a operação não é a real\u201d;
j) uma vez que os prisioneiros