Direito a Liberdade Pessoal  - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru
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Direito a Liberdade Pessoal - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru


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pavilhão 1A do Presídio Miguel Castro Castro, com o objetivo de exterminá-las, transformando-
as em alvos singularizados do ataque contra a prisão. Muitas das internas foram assassinadas à 
queima-roupa;
g) nas alegações \ufb01 nais orais, salientou que, no momento dos fatos, a interna Eva Challco estava grávida 
de aproximadamente sete meses e deu à luz prematuramente em 27 de junho de 1992. Sadi, o \ufb01 lho 
de Eva Challco, \u201cdeveria ter sido considerado como presente no pavilhão 1A, já que estava a ponto de 
nascer e foi vítima direta de todo o ataque como pessoa que já \ufb01 sicamente se encontrava ali, dentro 
do ventre de Eva\u201d;
\u201cCrimes de Estado e a responsabilidade internacional do Estado\u201d
h) \u201cas violações dos direitos humanos [\u2026] não foram \u2018excessos\u2019 de alguns policiais que não souberam 
como \u2018controlar\u2019 uma situação de violência na prisão. Foram um massacre planejado desde os 
escalões mais altos do Estado peruano, [\u2026] existiu uma cadeia de comando\u201d de Alberto Fujimori ao 
Conselho de Ministros e aos altos comandos militares do Peru;
\u201cCrimes de lesa-humanidade\u201d
i) \u201cas violações matéria [deste caso\u2026] constituem, pelo menos, crimes de lesa-humanidade\u201d;
\u201cGenocídio\u201d
j) \u201cas violações matéria [deste caso\u2026] foram cometidas contra as vítimas tendo como alvo sua alegada 
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DIREITO À LIBERDADE PESSOAL - CASO DO PRESÍDIO MIGUEL CASTRO CASTRO VS. PERU
identi\ufb01 cação com um grupo especí\ufb01 co (ou considerado pelo Estado peruano como \u2018permeáveis\u2018 a 
ideias comunistas), com a intenção de destruir esse grupo em todo ou em parte\u201d. Embora, no 
presente caso, a identidade do grupo de supostas vítimas não seja uma categoria protegida em 
conformidade com a de\ufb01 nição da Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio, 
\u201co Estado do Peru [em seu Código Penal] consentiu numa de\ufb01 nição de genocídio que amplia a 
de\ufb01 nição re\ufb02 etida [nessa] Convenção, incluindo o \u2018grupo social\u2019 entre os grupos protegidos e, 
portanto, estã[o] vinculados vis-à-vis aqueles sob sua jurisdição a não submeter aqueles grupos 
sociais a atos genocidas\u201d; e
k) no presente caso se con\ufb01 gura o genocídio, tendo em vista que o Estado \u201cé responsável por assassinar 
membros do grupo de prisioneiros em questão\u201d, causar-lhes dano físico e mental grave, bem como 
submeter esse grupo a \u201ccondições de vida calculadas para causar sua destruição física no todo ou em 
parte\u201d. Além disso, esses atos foram cometidos contra esses prisioneiros \u201cpor serem considerados 
parte de um grupo especí\ufb01 co que era alvo do Estado\u201d. A \u201cintenção\u201d ou \u201cdolus specialis\u201d que o crime 
de genocídio exige pode ser demonstrada por diversos atos atribuídos ao Estado.
Alegações do Estado
230. O Estado declarou:
a) em seu escrito de contestação da demanda e observações sobre o escrito de petições e argumentos 
que \u201caceita o descumprimento da obrigação geral de respeito e garantia dos direitos humanos 
estabelecida no artigo 1.1 da Convenção Americana[, \u2026] aceita a responsabilidade parcial pelas 
violações do direito à vida [, \u2026] enquanto o Poder Judiciário do Peru não se pronuncie sobre a 
verdade histórica e detalhada dos fatos ocorridos entre 6 e 9 de maio de 1992\u201d;
b) em suas alegações \ufb01 nais orais, salientou que o Peru, durante 20 anos, viveu uma situação de con\ufb02 ito 
interno sumamente grave\u201d, e que \u201cos atos de 6 a 9 de maio [ de 1992 \u2026] foram praticados contra 
internos de determinada orientação. Os atos de violência foram dirigidos contra dois pavilhões, ou 
contra um pavilhão principalmente, o pavilhão 1A e o pavilhão 4B, ocupados no momento dos fatos 
por internos acusados de crimes de terrorismo vinculados ao Sendero Luminoso, partido comunista 
do Peru [. \u2026 O] ato teve um destino direto: atacar o Sendero Luminoso\u201d;
c) em suas alegações \ufb01 nais escritas que, \u201cembora no âmbito da jurisdição interna se determinem as 
responsabilidades individuais, nos termos [d]o processo atualmente em tramitação perante o Poder 
Judiciário [\u2026,] não se pode deixar de reconhecer a dimensão dos fatos a que se refere o presente 
processo e a responsabilidade que sobre eles tem o Estado peruano\u201d; e
d) que \u201creconhece sua responsabilidade nos fatos acontecidos entre 6 e 9 de maio de 1992\u201d.
Considerações da Corte
231. O artigo 1.1 da Convenção salienta que:
Os Estados Partes nesta Convenção comprometem-se a respeitar os direitos e liberdades nela 
reconhecidos e a garantir seu livre e pleno exercício a toda pessoa que esteja sujeita a sua jurisdição, 
sem discriminação alguma por motivo de raça, cor, sexo, idioma, religião, opiniões políticas ou de 
qualquer outra natureza, origem nacional ou social, posição econômica, nascimento ou qualquer outra 
condição social.
232. O artigo 4.1 da Convenção dispõe que:
[t]oda pessoa tem direito de que se respeite sua vida. Esse direito deve ser protegido pela lei e, em 
geral, desde o momento da concepção. Ninguém pode ser privado da vida arbitrariamente.
233. O Tribunal considera pertinente analisar a violação do artigo 4 da Convenção, devido à gravidade dos fatos, às 
circunstâncias em que ocorreram e a que o Peru não reconheceu os fatos posteriores a 9 de maio de 1992 (par. 
150 a 152 supra).
234. Tal como salientou a Corte (par. 227 supra), na análise do presente capítulo serão levados em conta os dados 
mencionados que determinam a gravidade dos fatos deste caso. Por esse motivo, é preciso partir do fato de 
que o ocorrido no Presídio Miguel Castro Castro foi um massacre, e que carece de fundamento a\ufb01 rmar que os 
internos signi\ufb01 cassem para os agentes estatais um perigo que justi\ufb01 casse um ataque de tal dimensão (pars. 
215 a 219 supra). Quando se realizou a primeira ação da \u201coperação\u201d, não havia motim dos internos, nem 
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JURISPRUDÊNCIA DA CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS
outra causa que determinasse o uso legítimo da força pelos agentes estatais (par. 215 supra). Pelo contrário, 
o comportamento observado pelos agentes de segurança, altas autoridades do Estado e outros funcionários 
estatais durante os quatro dias de duração da \u201coperação\u201d, bem como posteriormente a ela, mostram que se 
tratou de um ataque executado para atentar contra a vida e a integridade dos internos que se encontravam 
nos pavilhões 1A e 4B. A esse respeito, a sentença proferida pela Câmara Nacional de Terrorismo em 3 de 
fevereiro de 2004 salientou que \u201chá elementos que geram suspeita razoável no Colegiado Julgador, quanto a 
que, por motivo da Operação Mudança Um, teria sido planejado desde as mais altas esferas do governo, [\u2026] a 
eliminação física dos presos por terrorismo que ocupavam os pavilhões Um A e Quatro B\u201d (par. 197.17 supra).
235. A esse respeito, ao reconhecer sua responsabilidade internacional pelos fatos de 6 a 9 de maio de 1992, 
o próprio Estado declarou que \u201cos atos de violência foram cometidos contra internos de determinada 
orientação\u201d, os quais estavam \u201cno pavilhão 1A e no pavilhão 4B, ocupados no momento dos fatos por 
internos acusados de crimes de terrorismo vinculados ao Sendero Luminoso, partido comunista do Peru\u201d. 
Segundo salientou o Estado, \u201co ato teve um destino direto: atacar o Sendero Luminoso\u201d e \u201ca partir da 
estratégia militar do governo da época houve um direcionamento das ações contra esse partido, esse grupo, 
houve uma lógica de guerra [ao] adversário\u201d.
236. Este caso se apresentou num contexto de sistemática violação dos direitos humanos, em que houve 
execuções extrajudiciais de pessoas suspeitas de pertencer a grupos armados à margem da lei, como o 
Sendero Luminoso, e essas práticas eram realizadas por agentes estatais que obedeciam às ordens de chefes 
militares e policiais (par. 203 supra).
237. A Corte estabeleceu que o direito à vida desempenha um papel fundamental na Convenção Americana, por 
ser o pressuposto essencial para a realização dos demais direitos.127 Os Estados têm a obrig ação de garantir 
a criação das condições que sejam necessárias para que não ocorram violações