Direito a Liberdade Pessoal  - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru
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desse direito inalienável 
e, especi\ufb01 camente, o dever de impedir que seus agentes atentem contra ele.128 A observância do artigo 4, 
em relação ao artigo 1.1 da Convenção Americana, não só pressupõe que nenhuma pessoa seja privada da 
vida arbitrariamente (obrigação negativa), mas exige, além disso, que os Estados adotem todas as medidas 
apropriadas para proteger e preservar o direito à vida (obrigação positiva),129 conforme o dever de garantir o 
pleno e livre exercício dos direitos de todas as pessoas sob sua jurisdição.130 Essa proteção ativa do direito à 
vida por parte do Estado não envolve somente os legisladores, mas toda instituição estatal e aqueles a quem 
compete resguardar a segurança, quer se trate de suas forças policiais, quer se trate de suas forças armadas.131
238. Tendo em vista o acima exposto, os Estados devem adotar as medidas necessárias não só para prevenir e punir 
a privação da vida em consequência de atos criminosos, mas também para prevenir as execuções arbitrárias 
por parte de suas próprias forças de segurança,132 situação que se vê agravada quando existe um padrão 
de violações dos direitos humanos.133 De maneira especial, os Estados devem zelar por que seus corpos de 
segurança, aos quais se atribui o uso da força legítima, respeitem o direito à vida daqueles que se encontrem 
sob sua jurisdição.134
239. Conforme se depreende dos \u201cPrincípios Básicos sobre a Utilização da Força e de Armas de Fogo pelos 
Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei\u201d, os órgãos de segurança estatais só podem recorrer ao 
emprego de armas letais quando for \u201cestritamente inevitável para proteger uma vida\u201d, e quando medidas menos 
extremas sejam ine\ufb01 cazes.135
127. Cf. Caso do Massacre de Pueblo Bello, nota 7 supra, par. 120; Caso da Comunidade Indígena Yakye Axa. Sentença de 17 de junho de 
2005. Série C Nº 125, par. 161; e Caso \u201cInstituto de Reeducação do Menor\u201d. Sentença de 2 de setembro de 2004. Série C Nº 112, par. 156. 
128. Cf. Caso Montero Aranguren e outros (Retén de Catia). Sentença de 5 de julho de 2006. Série C Nº 150, par. 64; Caso dos Massacres de 
Ituango, nota 7 supra, par. 129; e Caso Baldeón García, nota 21 supra, par. 83. 
129. Cf. Caso Vargas Areco, nota 3 supra, par. 75; Caso Montero Aranguren e outros (Retén de Catia), nota 128 supra, par. 65; e Caso dos 
Massacres de Ituango, nota 7 supra, par. 130. 
130. Cf. Caso Vargas Areco, nota 3 supra, par. 75; Caso Montero Aranguren e outros (Retén de Catia), nota 128 supra, par. 65; e Caso dos 
Massacres de Ituango, nota 7 supra, par. 130. 
131. Cf. Caso Vargas Areco, nota 3 supra, par. 75; Caso dos Massacres de Ituango, nota 7 supra, par. 131; e Caso do Massacre de Pueblo 
Bello, nota 7 supra, par. 120. 
132. Cf. Caso Baldeón García, nota 21 supra, par. 87; Caso do \u201cMassacre de Mapiripán\u201d, nota 8 supra, par. 232; e Caso Huilca Tecse, nota 22 
supra, par. 66. 
133. Cf. Caso Baldeón García, nota 21 supra, par. 87; Caso Irmãos Gómez Paquiyauri, nota 21 supra, par. 128; e Caso Myrna Mack Chang. 
Sentença de 25 de novembro de 2003. Série C Nº 101, par. 139. 
134. Cf. Caso Servellón García e outros, nota 3 supra, par. 102; e Caso Montero Aranguren e outros (Retén de Catia), nota 128 supra, par. 66.
135. Cf. O.N.U., Princípios Básicos sobre o Emprego da Força e de Armas de Fogo por Parte de O\ufb01 ciais Encarregados de Fazer Cumprir a Lei, 
aprovados pelo Oitavo Congresso das Nações Unidas para a Prevenção do Crime e o Tratamento dos Delinquentes, Havana, Cuba, 27 de agosto 
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DIREITO À LIBERDADE PESSOAL - CASO DO PRESÍDIO MIGUEL CASTRO CASTRO VS. PERU
240. Conforme salientou em ocasiões anteriores, esta Corte reconhece a existência da faculdade e inclusive da 
obrigação do Estado de garantir a segurança e manter a ordem pública, em especial dentro dos presídios, 
utilizando a força se necessário.136 A esse respeito, também estabeleceu que ao reduzir alterações da ordem 
pública o Estado deve fazê-lo com apego e em cumprimento às normas internas, buscando atender à ordem 
pública, desde que essas normas e as ações desenvolvidas em sua aplicação se ajustem, por sua vez, às 
normas de proteção dos direitos humanos, aplicáveis à matéria.137 O poder estatal não é ilimitado; é preciso 
que o Estado atue \u2018\u2018dentro dos limites e conforme os procedimentos que permitam preservar tanto a segurança 
pública como os direitos fundamentais da pessoa humana\u201d.138 Em casos conhecidos anteriormente por esta 
Corte conheceu, nos quais o Estado utilizou a força para manter a ordem dentro de centros penais quando 
se apresenta um motim, coisa que não sucedeu no presente caso, o Tribunal analisou se havia elementos 
su\ufb01 cientes para justi\ufb01 car a dimensão da força utilizada.139
241. No entanto, conforme foi provado (par. 215 supra), no momento em que o Estado iniciou a \u201coperação\u201d, os 
internos não estavam amotinados, e não se provou que houvesse causa alguma que justi\ufb01 casse o uso legítimo 
da força pelos agentes estatais nessa primeira ação do ataque. A resistência oposta pelos internos surgiu 
depois do ataque, como reação normal à ofensiva das forças de segurança, por um instinto de defesa da vida e 
da integridade física.
242. Durante os quatro dias de duração da denominada \u201cOperação Mudança 1\u201d, os internos dos pavilhões 1A e 
4B viram suas vidas constantemente ameaçadas pela intensidade do ataque, que implicou o uso de armas de 
guerra e a participação de agentes da polícia, do exército e das forças especiais, e pela dimensão dos danos que 
provocava (pars. 197.18 a 197.38 supra). Segundo a prova apresentada nos autos, os internos passaram esses 
quatro dias procurando formas de sobreviver diante das múltiplas e constantes ações estatais que podiam 
causar sua morte.
243. De acordo com os fatos expostos, também perderam a vida 41 pessoas identi\ufb01 cadas. Da análise dos laudos de 
necropsia dos cadáveres, conclui-se que a maioria das vítimas apresentava de três a 12 ferimentos de bala na 
cabeça e no tórax (par. 197.39 supra). Também, dos exames físicos realizados pelo perito José Quiroga, que 
descreve os ferimentos de 13 dos sobreviventes, conclui-se que pelo menos quatro apresentavam ferimentos 
por arma de fogo em partes do corpo onde se presume que a consequência do disparo seria a morte, como a 
cabeça, o pescoço e o tórax. Por essa razão, entre outras, pode-se concluir que os disparos efetuados pelas 
forças de segurança não tinham a \ufb01 nalidade de imobilizar ou persuadir os internos, mas causar um dano 
irreparável à vida dessas pessoas.
244. No presente caso, as forças de segurança, numa atitude coerente com a \ufb01 nalidade da \u201cOperação Mudança 
1\u201d, não \ufb01 zeram nada para utilizar outros meios que não fossem o uso da força letal (par. 216 supra); assim, 
recusou-se o oferecimento de intervenção por parte da Cruz Vermelha, da Comissão Interamericana de Direitos 
Humanos, da Comissão Episcopal de Ação Social e da Coordenação Nacional de Direitos Humanos.
245. A gravidade dos fatos do presente caso se mostra evidente quando se analisa a forma com que foram executados 
alguns internos, que no último dia da \u201coperação\u201d anunciaram aos agentes estatais que sairiam do pavilhão 4B, 
e pediram que parassem de atirar; e que, entretanto, ao sair, foram recebidos por rajadas de balas provenientes 
de disparos de agentes estatais (par. 197.37 supra). Os demais internos que também decidiram sair do pavilhão 
a 7 de setembro de 1990, Princípios 4 e 9. No mesmo sentido, Cf. Caso do Centro Penitenciário Regional Capital Yare I e Yare II. Medidas 
Provisórias, nota 125 supra, Considerando décimo quinto, e Caso do Internato Judicial de Monagas (La Pica), nota 125 supra, Considerando 
décimo sétimo. 
136. Cf. Caso Montero Aranguren e outros (Retén de Catia), nota 128 supra, par. 70; Caso Neira Alegría e outros. Sentença de 19 de janeiro 
de 1995. Série C Nº 20, par. 75; Caso Godínez Cruz. Sentença de 20 de janeiro de 1989. Série C Nº 5, par. 162; Caso do Centro