Direito a Liberdade Pessoal  - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru
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Direito a Liberdade Pessoal - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru


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quatro dias, e da qual participaram agentes da 
polícia e do exército.
255. O dever de investigar é uma obrigação de meios, não de resultados. Essa obrigação deve ser assumida 
pelo Estado como um dever jurídico próprio e não como uma simples formalidade condenada de antemão 
a ser infrutífera,141 ou como mera gestão de interesses particulares, que dependa da iniciativa processual 
das vítimas ou de seus familiares ou da apresentação privada de elementos probatórios,142 o que não se 
contrapõe ao direito de que gozam as vítimas de violações dos direitos humanos ou seus familiares de serem 
ouvidos durante o processo de investigação e tramitação judicial, bem como de participar amplamente 
dessas etapas.143
256. À luz desse dever, uma vez que as autoridades estatais tenham conhecimento do fato, devem iniciar ex 
of\ufb01 cio e sem demora uma investigação séria, imparcial e efetiva.144 Essa investigação deve ser realizada por 
todos os meios legais disponíveis e destinada à determinação da verdade, bem como à investigação, busca, 
captura, indiciamento e, caso seja pertinente, punição de todos os responsáveis pelos fatos, especialmente 
quando estejam envolvidos agentes estatais.145
257. Para determinar o cumprimento da obrigação de proteger o direito à vida mediante uma investigação séria 
do ocorrido, é preciso examinar os processos instaurados no âmbito interno, destinados a identi\ufb01 car os 
responsáveis pelos fatos do caso. Esse exame será feito à luz do que dispõe o artigo 25 da Convenção 
Americana e dos requisitos que impõe o artigo 8 para todo processo, e será realizado no Capítulo XV da 
presente Sentença.
***
258. Em virtude do acima exposto, a Corte conclui que o Estado é responsável pela violação do direito à vida, 
consagrado no artigo 4.1 da Convenção, em relação ao artigo 1.1 do mesmo instrumento, em detrimento 
dos 41 internos mortos identi\ufb01 cados, cujos nomes \ufb01 guram no Anexo 1 de vítimas da presente Sentença, que 
para esses efeitos dela faz parte. Os fatos revestem especial gravidade em razão das considerações tecidas 
neste capítulo e no capítulo IX, \u201cA responsabilidade internacional do Estado no contexto do presente caso\u201d.
140. Cf. Caso Servellón García e outros, nota 3 supra, par. 119; Caso Ximenes Lopes, nota 3 supra, par. 147; Caso dos Massacres de Ituango, 
nota 7 supra, par. 297; e Caso Baldeón García, nota 21 supra, par. 92. 
141. Cf. Caso Ximenes Lopes, nota 3 supra, par. 148; Caso dos Massacres de Ituango, nota 7 supra, par. 296; e Caso Baldeón García, nota 21 
supra, par. 93. 
142. Cf. Caso Goiburú e outros, nota 5 supra, par. 117; Caso Baldeón García, nota 21 supra, par. 93; e Caso do Massacre de Pueblo Bello, nota 
7 supra, par. 144. 
143. Cf. Caso Goiburú e outros, nota 5 supra, par. 117; Caso dos Massacres de Ituango, nota 7 supra, par. 296; e Caso Baldeón García, nota 
21 supra, par. 93. 
144. Cf. Caso Vargas Areco, nota 3 supra, par. 77; Caso Servellón García e outros, nota 3 supra, par. 119; e Caso Montero Aranguren e outros 
(Retén de Catia), nota 128 supra, par. 79. 
145. Cf. Caso Goiburú e outros, nota 5 supra, par. 117; Caso Servellón García e outros, nota 3 supra, par. 119; e Caso Ximenes Lopes, nota 3 
supra, par. 148.
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JURISPRUDÊNCIA DA CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS
XI
Violação do artigo 5 (Direito à integridade pessoal) da Convenção Americana, em relação ao artigo 1.1 
do mesmo instrumento, e em conjunto com os artigos 1, 6 e 8 da Convenção Interamericana 
para Prevenir e Punir a Tortura
Alegações da Comissão
259. Quanto à alegada violação do artigo 5 da Convenção, em relação ao artigo 1.1 do mesmo instrumento, a 
Comissão salientou, em resumo, o seguinte:
\u201cInternos feridos durante o \u2018enfrentamento\u2019\u201d
a) aproximadamente 175 presos \ufb01 caram feridos durante a operação denominada \u201cMudança 1\u201d, em 
consequência de disparos e explosões efetuados pelas forças de segurança do Estado, e da queda 
de reboco durante o enfrentamento, bem como dos espancamentos e maus-tratos in\ufb02 igidos pelos 
agentes estatais aos prisioneiros rendidos uma vez concluído o ataque;
b) o próprio Estado, pela falta de prevenção da entrada de armas no centro penal, criou uma situação 
em que era previsível a necessidade de subjugar pela força os internos e, em consequência, causar 
eventuais lesões à sua integridade pessoal. É irrelevante de\ufb01 nir de quem partiu a primeira agressão, 
pois, ainda que os prisioneiros tivessem iniciado um motim ou disparado armas de fogo, há indícios 
su\ufb01 cientes de que a polícia utilizou forma excessiva, desnecessária, não gradual e desproporcional 
contra os presos, ferindo muitos deles;
c) vários dos internos \ufb01 caram feridos pelos disparos efetuados pelas forças de segurança enquanto 
saíam do pavilhão 4B, após \u201cterem se rendido e desarmado\u201d;
d) o Estado não investigou com a devida diligência as lesões provocadas nos presos durante o 
enfrentamento, nem puniu os responsáveis. Consequentemente, é impossível para a Comissão 
determinar se algumas das lesões ocasionadas nos presos decorreram do uso legítimo, necessário 
e proporcional da força pública, ou em legítima defesa por parte de alguns de seus agentes;
e) a análise feita pela Comissão em relação à falta de prevenção e ao excesso no uso da força que 
ocasionaram violações do direito à vida é aplicável, mutatis mutandi a respeito da violação do direito 
à integridade pessoal, em concordância com a obrigação geral de respeito e garantia comtemplada 
no artigo 1.1 da Convenção;
\u201cTratamento dispensado aos internos após a tomada dos pavilhões 1A e 4B\u201d
f) nos dias posteriores à operação denominada \u201cMudança 1\u201d e até 22 de maio de 1992, inclusive, 
os internos individualizados na demanda foram obrigados a permanecer deitados de bruços nos 
pátios conhecidos como \u201cterra de ninguém\u201d e \u201cadmissão\u201d, sem que lhes dessem água e alimento 
su\ufb01 ciente, ou lhes permitissem mudar de roupa, ou lhes oferecessem cobertores para abrigar-se 
ou um colchão onde se deitar, embora muitos presos tivessem \ufb01 cado feridos durante o ataque;
g) nas alegações \ufb01 nais escritas salientou que os internos feridos transferidos para centros de saúde 
foram novamente maltratados no trajeto até esses estabelecimentos, e que houve novas tentativas 
de execução extrajudicial. Foram submetidos a condições sanitárias inadequadas e moralmente 
degradantes, o que é particularmente grave no caso das mulheres. Muitos dos feridos, embora 
ainda não tivessem conseguido se recuperar, receberam alta com o único propósito de levá-
los novamente à prisão, destacando-se as experiências das senhoras Gaby Balcázar e Miriam 
Rodríguez, e do \ufb01 lho da senhora Julia Peña Castillo, Víctor Olivos Peña, relatadas no curso da 
audiência pública perante a Corte;
h) nas alegações \ufb01 nais escritas, salientou que as internas foram tratadas pelos agentes estatais com 
particular desprezo e crueldade desde o início do ataque. As \u201csituações [de violação] tiveram 
consequências particularmente graves para as vítimas mulheres, várias delas grávidas\u201d. O ataque 
se iniciou no único pavilhão da prisão ocupado por mulheres, e após o término da operação 
foram submetidas a condições que atentavam contra sua dignidade como mulheres. As internas 
reinstaladas em prisões de mulheres foram vítimas de maus-tratos físicos e psicológicos durante 
a transferência e dentro dos estabelecimentos penitenciários para os quais foram levadas. Do 
mesmo modo, as feridas transferidas para os hospitais foram despidas e obrigadas a permanecer 
assim por semanas, rodeadas de indivíduos armados, sem permissão para se assear ou usar os 
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DIREITO À LIBERDADE PESSOAL - CASO DO PRESÍDIO MIGUEL CASTRO CASTRO VS. PERU
serviços sanitários, a não ser acompanhadas de um guarda armado que não lhes permitia fechar 
a porta;
i) nas alegações \ufb01 nais escritas, destacou que as mulheres foram vítimas de uma história de 
discriminação e exclusão por sexo, que