Direito a Liberdade Pessoal  - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru
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Direito a Liberdade Pessoal - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru


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as fez mais vulneráveis ao abuso quando se executam atos 
violentos contra grupos determinados, como os privados de liberdade, por diferentes motivos. A 
violência contra as mulheres é uma estratégia de guerra que os atores do con\ufb02 ito armado usam para 
avançar no controle do território e dos recursos. Além disso, essas agressões servem como tática 
para humilhar, aterrorizar, destruir e ferir o \u201cinimigo\u201d, seja o núcleo familiar, seja a comunidade a que 
pertence a vítima;
\u201cFalta de assistência médica aos internos feridos\u201d
j) após a rendição dos internos, entre os dias 10 e 22 de maio de 1992, aproximadamente 160 presos 
feridos durante a execução da \u201cOperação Mudança 1\u201d, e que haviam sido subjugados pelas forças de 
segurança peruana, deixaram de receber assistência médica adequada e oportuna, o que provocou 
o agravamento de suas lesões, e em alguns casos deu lugar a sequelas físicas permanentes;
k) em situações de ferimentos graves, decorrentes do uso da força por parte de autoridades estatais, a 
norma que consagra o direito à integridade pessoal exige que o Estado adote medidas imediatas para 
salvaguardar a integridade física da pessoa que se encontra sob custódia da polícia, das autoridades 
judiciais ou das autoridades penitenciárias. O Estado tem o dever positivo especí\ufb01 co de proteger a 
integridade física de toda pessoa privada de liberdade, o que inclui a adoção das ações necessárias 
para manter um padrão adequado de saúde. A falta de tratamento médico adequado nessa situação 
deve ser quali\ufb01 cada de tratamento desumano;
l) nas circunstâncias particulares do presente caso, a Comissão solicita à Corte que declare que, uma 
vez concluída a \u201cOperação Mudança 1\u201d, a falta de atendimento médico oportuno e adequado aos 
feridos individualizados na demanda, bem como a falta de adoção de ações necessárias para garantir 
de maneira oportuna e e\ufb01 caz os procedimentos e remédios necessárias para restabelecer o nível 
mais alto possível de saúde de todas as pessoas feridas no fatos do presente caso, constituem 
infração do artigo 5 da Convenção e descumprimento da obrigação geral de respeito e garantia 
contemplada no artigo 1.1 do mesmo instrumento;
\u201cIsolamento\u201d
m) uma vez concluída a denominada \u201cOperação Mudança 1\u201d, os internos e internas foram impedidos 
de comunicar-se com os familiares e advogados durante vários dias, e, em certos casos, durante 
semanas. Isso coloca o indivíduo numa situação de vulnerabilidade desnecessária, sendo que o 
isolamento, em si mesmo, pode constituir uma forma de maus-tratos. As autoridades peruanas 
deveriam ter permitido que os sobreviventes se comunicassem com as famílias e advogados para 
informar-lhes sobre sua situação e diminuir a incerteza geral que os fatos provocaram;
\u201cFalta de informação aos familiares sobre a situação das supostas vítimas\u201d
n) nas alegações \ufb01 nais escritas, ressaltou que a desatenção negligente ou dolosa com os familiares, que 
esperaram nas imediações da prisão, nos hospitais e nos necrotérios, constitui em si uma violação 
do direito à integridade pessoal, pela angústia psíquica que a injusti\ufb01 cada demora em informar sobre 
os mortos e feridos gerou nos familiares;
o) nas alegações \ufb01 nais escritas, salientou que particularmente as mães tentaram, sem êxito, obter 
informação sobre a situação de seus familiares, recebendo todo tipo de insultos e agressões físicas. 
Além disso, tiveram de passar por condições terríveis para procurar seus entes queridos e recuperar 
seus restos mortais, quando conseguiam identi\ufb01 cá-los. À senhora Julia Peña negaram repetidas 
vezes que sua \ufb01 lha se encontrasse no necrotério, e, para poder sepultá-la, teve de entrar furtivamente 
no local, abrindo os frigorí\ufb01 cos, deparando-se com o horror dos cadáveres descompostos e até 
esquartejados de outras vítimas, que tampouco haviam sido entregues às famílias. Durante todo esse 
processo, não recebeu assistência alguma por parte dos funcionários encarregados do necrotério; e
p) nas alegações \ufb01 nais escritas, destacou que, \u201c[e]m virtude de [\u2026] prova apresentada nos autos 
posteriormente, [\u2026] considera que o sofrimento experimentado por esses familiares pela falta 
de informação, bem como a impotência e a angústia suportadas durante anos, ante a inatividade 
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JURISPRUDÊNCIA DA CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS
das autoridades estatais para esclarecer os fatos e punir os responsáveis, constituem razões pelas 
quais os familiares das vítimas devem ser considerados vítimas de tratamentos cruéis, desumanos 
e degradantes nos termos do artigo 5 da Convenção, em relação à obrigação geral de respeito e 
garantia estabelecida no mesmo instrumento\u201d.
Alegações da interveniente comum
260. A interveniente comum alegou a violação do artigo 5 da Convenção Americana. Além disso, alegou a violação 
dos artigos 1, 6, 7, 8, e 9 da Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura, e dos artigos 4 e 7 
da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher, alegações que não 
se encontram na demanda apresentada pela Comissão Interamericana. A interveniente alegou, em resumo, o 
seguinte:
\u201cHermenêutica do direito humanitário e do direito dos direitos humanos\u201d
a) \u201ca as\ufb01 xia, a privação de água e alimentos, o amontoamento forçado, o sofrimento mental grave 
in\ufb02 igido pelo ataque e pelas armas especí\ufb01 cas escolhidas constituem uma violação \ufb02 agrante da 
proibição da tortura\u201d;
b) \u201co ataque foi concebido como uma reprodução do inferno\u201d. Esse ataque incluiu cortes de eletricidade, 
bombardeio e bombas incendiárias que produziam uma luz alaranjada, num ambiente de escuridão 
absoluta e gritos. Isso foi \u201cintencionalmente planejado assim\u201d para que \ufb01 casse nos neurônios dos 
sobreviventes;
\u201cO isolamento como forma de tortura\u201d
c) as condições de isolamento aplicadas nas prisões Santa Mónica, Castro Castro e Cachiche aos 
sobreviventes da \u201coperação\u201d incluíram isolamento total do mundo exterior, \u201csem acesso a rádios, 
jornais, televisão, livros, atividades de trabalho ou estudo, as 24 horas do dia, em celas de dois por 
dois metros, com pelo menos outras duas pessoas, com banheiro incluído, sem acesso adequado 
a água corrente, nenhum tipo de luz, com proibição de falar entre si, sem materiais de asseio, 
roupa de frio ou atendimento médico\u201d. Essas condições se prolongaram por mais de cinco meses, 
e constituíram tortura para os internos, que muitas vezes \u201cenlouqueceram\u201d em decorrência dessas 
condições;
d) as prisioneiras de Santa Mónica não viram os parentes até setembro de 1992, nem a luz do sol por 
meses depois do massacre, o que ocasionou perda de pigmentação no rosto e tonteiras. Além disso, 
permaneceram com as mesmas roupas ensanguentadas do massacre, sem poder trocar a roupa 
íntima ou obter agasalho para o frio;
e) solicita \u201cque no presente caso se reconheça que o isolamento prolongado a que foram submetidos os 
prisioneiros constituiu tortura pela extensão, [\u2026] condições e propósitos especí\ufb01 cos de sua aplicação\u201d;
\u201cO con\ufb01 namento isolado do mundo e o controle total da pessoa humana: a institucionalização total para 
sua lenta destruição\u201d
f) o regime de isolamento absoluto buscava o controle total do ambiente do preso com dois outros 
objetivos: in\ufb02 igir sofrimento mental ao interno pela falta de contato com seus familiares, e restringir 
o apoio e a comunicação com o exterior. A falta de contato com os familiares também era usada para 
controlar a vontade dos internos;
g) o con\ufb01 namento do preso à imobilidade durante as 24 horas do dia, bem como a privação de luz e de 
exercício, foram uma forma severa de in\ufb02 igir sofrimento humano. Havia uma ordem especí\ufb01 ca para 
mantê-los inativos, \u201csó podiam comer, defecar e dormir\u201d;
h) segundo um estudo, \u201cmétodos como privação sensorial, isolamento, privação de sono, nudez 
forçada, humilhação cultural e sexual, o uso de cães treinados militarmente