Direito a Liberdade Pessoal  - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru
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Direito a Liberdade Pessoal - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru


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para provocar medo, 
execuções simuladas, e ameaças de violência ou morte dirigidas aos detentos ou a seus seres 
queridos são formas de tortura psicológica\u201d;
\u201cO uso da nudez forçada, o uso de cães sem focinheira contra pessoas detidas\u201d
i) foram utilizados cães sem focinheira para intimidar e degradar os prisioneiros em situação de desproteção, 
em violação do artigo 5 da Convenção e do Manual das Nações Unidas, o Protocolo de Istambul;
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DIREITO À LIBERDADE PESSOAL - CASO DO PRESÍDIO MIGUEL CASTRO CASTRO VS. PERU
j) a nudez a que foram submetidos os presos, seguida de \u201cespancamentos brutais e sádicos, e de 
exposição [ao] frio ou à noite por longas horas\u201d constituiu um sofrimento intenso;
\u201cEletrochoques, falanga e golpes contundentes em partes sensíveis do corpo como forma de tortura\u201d
k) os prisioneiros e doentes sobreviventes do massacre foram despidos e espancados com ferros 
e paus, e receberam eletrochoques na cabeça, costas, solas dos pés, joelhos, pulmões, coluna 
vertebral, costelas, quadris, mãos, fígado e rins. Isso ocasionou dano físico grave nos sobreviventes, 
e em alguns casos impossibilitou-os de andar por vários dias. Solicita que esses espancamentos 
sejam reconhecidos pela Corte como forma de tortura, em violação ao artigo 5 da Convenção 
Americana;
\u201cCelas de castigo: O buraco\u201d
l) a tortura dos sobreviventes incluiu o uso de uma cela especial de castigo chamada \u201cburaco\u201d. 
Essa cela era de metal, media aproximadamente 1,70x2m, com uma janela de 10x10 cm, com 
água acumulada, ratos, sem luz e com odor nauseante. Os internos presos nessa cela tinham de 
permanecer de pé dia e noite pela falta de espaço. Nesse lugar, eram torturados pessoalmente pelo 
diretor do presídio, recebendo golpes com pedaços de pau nos testículos, na perna e nos pés. As 
supostas vítimas também eram alimentadas em um balde de plástico sujo onde comiam os cães da 
cozinha;
\u201cAs condições gerais de prisão aplicadas aos sobreviventes constituíram tortura porque foram uma 
afronta à dignidade humana dos presos\u201d
m) \u201cas condições gerais de prisão aplicadas aos sobreviventes e descritas em detalhe em cada um 
dos depoimentos apresentados perante a Corte Interamericana e incluídos no documento Lista de 
Vítimas constituíram tortura, porque foi um regime in\ufb02 igido intencionalmente a eles\u201d;
\u201cA violência de gênero no presente caso\u201d
n) as internas foram feridas gravemente no decorrer do massacre, e foram arrastadas sobre cadáveres, 
sem que se permitisse que outras pessoas as ajudassem;
o) a violência também se dirigiu às mães, irmãs e esposas das supostas vítimas as quais foram visitar 
seus familiares, submetendo-as a torturas psicológicas, por terem de presenciar o massacre, bem 
como a ataques físicos e verbais por parte das autoridades da operação. Durante esses ataques, 
jogaram-lhes água, bombas de gás lacrimogêneo, dispararam contra elas e as espancaram. Várias 
das mulheres estavam grávidas ou acompanhadas por crianças. As mães também foram ameaçadas 
de morte a não ser que se retirassem do local onde estava ocorrendo \u201ca operação\u201d;
p) é signi\ufb01 cativo que o Estado tenha realizado a operação militar num dia de visita feminina à prisão; 
mais ainda, o ataque foi realizado [\u2026] na semana do Dia das Mães\u201d. A violência do Estado \u201chavia sido 
planejada de forma que o castigo exemplar das prisioneiras políticas e o dos prisioneiros políticos 
homens [\u2026] fosse presenciado pelas próprias mães e irmãs\u201d. No domingo em que se comemorava o 
Dia das Mães, as mães dos prisioneiros estariam recolhendo cadáveres dos necrotérios ou visitando 
hospitais para saber se seu ser querido havia sobrevivido. Da mesma maneira, \u201cvárias prisioneiras 
sobreviventes que eram mães levariam gravada para sempre, [\u2026] na memória, a conexão entre [o 
Dia das Mães] e seu sofrimento extremo nessa matança\u201d. O massacre de Castro Castro se realizou 
de modo a que a \u201ccada [D]ia das [M]ães, todos os anos, [as] mulheres revivessem o sofrimento 
in\ufb02 igido\u201d, bem como para in\ufb02 uir para que \u201cas mães ou as esposas se o[pusessem] a que os \ufb01 lhos 
se integr[assem à]s \ufb01 leiras senderistas]\u201d;
q) \u201c[n]ão existe tortura que não leve em conta o gênero da vítima. Não existe [\u2026] tortura \u2018neutra\u2019 [\u2026]. 
Mesmo quando uma forma de tortura não seja \u2018especí\ufb01 ca\u2019 para a mulher[, \u2026] seus efeitos, sim, 
terão especi\ufb01 cidades próprias na mulher\u201d. Em virtude disso, \u201cem que pese a que nem toda forma 
de violência neste caso foi especí\ufb01 ca das mulheres, [\u2026] constitui[u] violência de gênero, pois se 
destinava [\u2026] a atacar a identidade feminina\u201d;
r) \u201co tipo de insulto dirigido à[s mulheres], a maneira como eram espancadas e o regime de prisão que 
lhes negou acesso a objetos próprios do cuidado feminino, atendimento ginecológico [e] direitos 
de maternidade, além do oferecimento de um sistema de \u2018prêmios\u2019 àquela que \u2018abandonasse\u2019 sua 
liberdade de pensamento em troca da \u2018devolução\u201d de sua feminilidade, dando-lhes acesso a materiais 
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JURISPRUDÊNCIA DA CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS
como pente, lápis labial, etc., e da reintegração ao papel de \u2018boa mãe\u2019 (as que aceitavam submissão 
voltavam a ver os \ufb01 lhos) mostram os aspectos de gênero incorporados às torturas in\ufb02 igidas e o 
dano especí\ufb01 co na mulher vis-à-vis os homens\u201d;
s) \u201co regime aplicado às sobreviventes do massacre constituiu um ataque contra sua dignidade 
e uma violação sustentada do direito de serem livres de torturas, conforme reconhece o artigo 
4 da Convenção Americana\u201d. Além disso, o sofrimento in\ufb02 igido às mulheres no presente caso é 
compatível com a de\ufb01 nição de violência contra a mulher constante do artigo 2 da Convenção de 
Belém do Pará;
t) \u201cno período de 12 de julho de 1995 em diante, essas violações constituíram uma violação do objeto 
e propósito da Convenção Inter[a]mericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a 
Mulher[, \u2026] assinada pelo Peru em 12 de julho de 1995[,] e violações d[os] artigo[s] 4 e 7 da 
mesma Convenção no período de 1996 em diante, uma vez que o Peru rati\ufb01 cou esse tratado em 
4 de junho de 1996\u201d. \u201cO Estado do Peru intencionalmente in\ufb02 igiu violência contra as prisioneiras 
políticas como castigo pela dupla transgressão do sistema dominante: o uso do fator gênero para 
in\ufb02 igir dano, e a tortura das prisioneiras\u201c;
\u201cViolência física e psicológica pós-massacre\u201d
u) \u201co Estado [\u2026] in\ufb02 igiu violência física brutal e violência psicológica intensa que em conjunto 
constituíram tortura nas sobreviventes do massacre\u201d. Essa violência envolveu espancamentos 
frequentes, condutas que negaram intencionalmente que as prisioneiras com \ufb01 lhos pudessem 
cumprir efetivamente o papel de mãe, negação intencional de atendimento médico adequado pré 
e pós-natal às gestantes, bem como de condições básicas na prisão que respeitassem a dignidade 
humana das mulheres;
v) as medidas de isolamento afetaram a mulher de maneira particular, porque atingiram sua relação com 
os \ufb01 lhos pequenos. Em geral, as crianças que não puderam ver as mães, senão através de grades por 
breves momentos, começaram a perder contato emocional com elas e muitas as desconheceram;
w) as condições de prisão impostas às sobreviventes violaram os artigos 4, 5 e 12 da Convenção sobre 
a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher;
\u201cViolência sexual\u201d e \u201cviolação da mulher como forma de tortura\u201d
x) a violência contra a mulher, no caso, incluiu violência sexual de vários tipos. Essa violência \u201cnão se 
limitou à violação sexual, mas as mulheres foram submetidas [a] uma gama mais ampla de violência 
sexual, que incluiu atos que não env[olviam] penetração ou [\u2026] contato físico\u201d. Pelo menos em um 
caso há evidência de que uma sobrevivente do massacre de Castro Castro foi violada sexualmente no 
Hospital de Polícia, e há alegações de violação sexual com as \u201cpontas das baionetas\u201d com respeito 
à prisioneira \u201cextrajudicialmente assassinada Julia Marlene