Direito a Liberdade Pessoal  - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru
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Direito a Liberdade Pessoal - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru


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Soering v. United Kingdom, Judgment of 7 July 1989, Series A Vol. 161, 
para. 111; e ONU, Comitê de Direitos Humanos, Miguel Angel Estrella Vs. Uruguai (74/1980), parecer de 29 de março de 1983, par. 8.3 e 10.
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JURISPRUDÊNCIA DA CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS
arbitrária, razão pela qual os internos se esforçaram por se esquivar das rajadas de balas dirigidas a eles (par. 
187 supra).
285. Todos os internos enfrentaram condições de sofrimento adicionais no curso desses quatro dias, como a falta 
de alimentos, água, luz e atendimento médico.
286. Na peritagem que apresentou, a perita Deutsch destacou que os internos experimentaram \u201csofrimento 
psicológico e emocional intenso, pois os feridos não receberam atendimento e [\u2026] tiveram de presenciar com 
impotência [essa] situação\u201d (par. 186 supra).
287. Segundo as perícias apresentadas neste processo e nos depoimentos anexados, os internos que viveram o 
ataque em maio ainda sofrem graves sequelas psicológicas. Os peritos Deutsch e Quiroga a\ufb01 rmaram que as 
consequências psicológicas do ataque correspondem à síndrome de estresse pós-traumático.
288. A Corte considera que os internos que sobreviveram ao ataque experimentaram tortura psicológica pelas 
ameaças constantes e pelo perigo real provocado pelas ações estatais, os quais podiam causar sua morte e 
sérios danos à sua integridade física.
289. Cumpre também salientar que o cadáver da interna Julia Marlene Olivos Peña apresentava \u201csinais visíveis de 
tortura\u201d (par. 197.38 supra). Essa circunstância mostra a violência extrema com que os agentes estatais agiram 
durante a \u201coperação\u201d.
290. O ataque foi iniciado contra o pavilhão das mulheres 1A do Presídio Miguel Castro Castro. As internas que se 
encontravam nesse pavilhão, inclusive as grávidas, viram-se obrigadas a fugir do ataque em direção ao pavilhão 
4B. Essa locomoção foi especialmente perigosa em virtude das condições do ataque antes descritas; as internas 
sofreram diversos ferimentos. Um dado que mostra as condições extremas em que se desenvolveu o ataque 
foi que as prisioneiras tiveram de se arrastar coladas ao chão e passar por cima de corpos de pessoas mortas, 
para evitar serem alcançadas pelas balas. Essa circunstância foi particularmente grave no caso das mulheres 
grávidas que se arrastaram sobre o ventre.
291. Essas características do ataque vivido pelas internas, que observaram a morte das companheiras e viram 
outras grávidas feridas arrastando-se pelo chão, criaram, conforme descreveu a testemunha Gaby Balcázar, 
\u201cum clima de desespero entre as mulheres\u201d, de forma tal, que sentiam que iam morrer. No mesmo sentido, a 
perita Deutsch concluiu que, durante os quatro dias de duração do ataque, \u201c[o]s internos \ufb01 caram aterrorizados 
pelo medo de morrer [, o que] originou um sofrimento psicológico e emocional intenso\u201d.
292. É importante esclarecer que, da prova apresentada ao Tribunal e dos depoimentos dos internos, depreende-se 
que as internas grávidas também foram vítimas do ataque ao presídio. As mulheres grávidas que viveram o 
ataque experimentaram um sofrimento psicológico adicional, já que, além de verem comprometida sua própria 
integridade física, passavam por sentimentos de angústia, desespero e medo pelo perigo que corria a vida dos 
\ufb01 lhos. As internas grávidas identi\ufb01 cadas perante esta Corte são as senhoras Eva Challco, que, aproximadamente, 
um mês depois do ataque, teve seu \ufb01 lho Said Gabriel Challco Hurtado; Vicenta Genua López, que tinha cinco 
meses de gravidez; e Sabina Quispe Rojas, que tinha oito meses de gravidez (par. 197.57 supra). A esse 
respeito, além da proteção que o artigo 5 da Convenção Americana oferece, é preciso salientar que o artigo 7 
da Convenção de Belém do Pará dispõe expressamente que os Estados devem zelar para que as autoridades e 
agentes estatais se abstenham de qualquer ação ou prática de violência contra a mulher.
293. Com base no acima exposto, este Tribunal considera que o Estado é responsável pela violação à integridade 
física dos internos feridos durante os fatos de 6 a 9 de maio de 1992, o que constituiu uma violação do artigo 5 
da Convenção Americana. A Corte também considera que, nas circunstâncias do presente caso, o conjunto de 
atos de agressão e as condições em que o Estado colocou deliberadamente os internos (os que morreram e os 
que sobreviveram) durante os dias do ataque, que causaram, em todos eles, um grave sofrimento psicológico 
e emocional, constituíram tortura psicológica inferida, em detrimento de todos os membros do grupo, com 
violação dos artigos 5.1 e 5.2 da Convenção Americana, e 1, 6 e 8 da Convenção Interamericana para Prevenir 
e Punir a Tortura. Além disso, esta Corte considera que a violação do direito à integridade pessoal das senhoras 
Eva Challco, Sabina Quispe Rojas e Vicenta Genua López se viu agravada pelo fato de que se encontravam 
grávidas, de forma tal que os atos de violência afetaram-nas em maior medida. Do mesmo modo, a Corte 
considera que o Estado é responsável pelos atos de tortura in\ufb02 igidos a Julia Marlene Olivos Peña, em violação 
do artigo 5.2 da Convenção Americana e dos artigos 1, 6 e 8 da Convenção Interamericana para Prevenir e Punir 
a Tortura.
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DIREITO À LIBERDADE PESSOAL - CASO DO PRESÍDIO MIGUEL CASTRO CASTRO VS. PERU
2) Tratamentos recebidos pelos internos posteriormente a 9 de maio de 1992 e durante a transferência para 
outros presídios e hospitais
294. Foram provadas (par. 197.42 supra) as condições desumanas em que teve de permanecer a maioria dos internos, 
uma vez encerrado o ataque em 9 de maio de 1992. Além disso, está provado que, em 10 de maio de 1992, o 
ex-presidente do Peru, Alberto Fujimori Fujimori, esteve no Presídio Miguel Castro Castro e caminhou entre os 
internos deitados de bruços no chão desse estabelecimento (par. 197.43, supra), constatando diretamente as 
condições em que se encontravam.
295. A Corte considera particularmente grave que os internos que estavam feridos e foram mantidos nas áreas 
conhecidas como \u201cterra de ninguém\u201d e \u201cadmissão\u201d não tenham recebido atendimento médico (par. 197.42 
supra). O Estado tinha o dever de prestar-lhes o atendimento médico de que necessitavam, considerando que 
era o garante direto de seus direitos.
296. Provou-se também que uma minoria dos internos feridos foi transferida para o Hospital de la Sanidad, da 
Polícia, em 9 de maio de 1992 (par. 197.44 supra), e que, durante a transferência, tiveram novamente violadas 
sua integridade física, psíquica e moral. Foram transferidos amontoados, e foram espancados pelos agentes 
de segurança, apesar de se encontrarem feridos (par. 197.48 supra). A vítima Gaby Balcázar declarou que 
acreditava que \u201cnem a um animal se faz isso\u201d (par. 187 supra). Esse fato é mais um elemento do tratamento 
particularmente grave que se dispensou aos internos durante e após a \u201coperação\u201d. O perito Quiroga descreveu 
a maneira de transferir os internos feridos para os hospitais como \u201catos de grande crueldade\u201d (par. 186 supra).
297. No mesmo sentido, quando os internos que se encontravam na \u201cterra de ninguém\u201d e na \u201cadmissão\u201d do Presídio 
Castro Castro (par. 197.42 supra) foram transferidos para outros presídios ou realojados no mesmo Presídio 
Castro Castro, sofreram novas violações de integridade física, psíquica e moral, já que foram espancados uma 
vez mais, inclusive com objetos contundentes, na cabeça, nos rins e em outras partes do corpo (pars. 197.46 e 
197.48 supra). Como parte dessas agressões submeteu-se grande parte dos internos homens ao que o perito 
Quiroga descreve como o \u201cCorredor Escuro\u201d, método de punição que consiste em obrigar o detento a caminhar 
por uma \ufb01 la dupla de agentes que os agridem com objetos contundentes como paus e bastões metálicos ou de 
borracha, e aquele que cai no chão recebe mais golpes, até que chega ao outro extremo do corredor. O perito 
salientou que esse método