Direito a Liberdade Pessoal  - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru
136 pág.

Direito a Liberdade Pessoal - Presídio Miguel Castro Castro Vs. Peru


DisciplinaDireito Internacional5.674 materiais45.443 seguidores
Pré-visualização50 páginas
de punição coletiva, \u201cpor sua gravidade e consequências físicas e psicológicas [, é] 
coerente com tortura\u201d.
298. Entre as internas que estiveram nas condições descritas, havia mulheres grávidas. Os agentes estatais não 
tiveram nenhuma consideração com sua condição especí\ufb01 ca. Só foram identi\ufb01 cadas perante a Corte as 
senhoras Eva Challco, Sabina Quispe Rojas e Vicenta Genua López (par. 197.57 supra). A posição em que 
tiveram de permanecer, de bruços, é especialmente grave no caso das mulheres grávidas. Presenciar esse 
tratamento dispensado a elas provocou mais angústia entre os demais internos.
299. A Corte também chama a atenção para o caso particular do senhor Víctor Olivos Peña, que, estando vivo, mas 
gravemente ferido, foi levado para o necrotério de um hospital, de onde foi resgatado pela mãe e um médico 
(par. 197.45 supra).
300. A Corte considera que os tratamentos descritos nos parágrafos acima constituíram um tratamento desumano 
que viola o artigo 5 da Convenção Americana. Essa violação se viu agravada quanto aos internos feridos e às 
mulheres grávidas.
3) Tratamentos recebidos nos centros de saúde para os quais foram transferidos os internos durante ou após 
encerrado o ataque
301. Ficou provado que os internos transferidos para o Hospital da Polícia não receberam tratamento médico 
adequado (par. 197.47 supra). O Princípio Vigésimo Quarto para a Proteção de Todas as Pessoas Submetidas a 
Qualquer Forma de Detenção ou Prisão estabelece que \u201c[\u2026] toda pessoa detida [\u2026] receberá[\u2026] atendimento 
e tratamento médico sempre que for necessário[\u2026]\u201d.157 Esta Corte estabeleceu que \u201co Estado tem o dever de 
proporcionar aos detentos [\u2026] atendimento e tratamento [médicos] adequados quando for necessário\u201d.158
157. Cf. ONU, Conjunto de Princípios para a Proteção de Todas as Pessoas Submetidas a Qualquer Forma de Detenção ou Prisão, aprovado 
pela Assembleia Geral na Resolução 43/173, de 9 de dezembro de 1988, princípio 24. No mesmo sentido cf. Caso de la Cruz Flores. Sentença 
de 18 de novembro de 2004. Série C Nº 115, par. 133; e Caso Tibi, nota 150 supra, par. 154. 
158. Cf. Caso Montero Aranguren e outros (Retén de Catia), nota 128 supra, par. 102 e 103; Caso de la Cruz Flores, nota 157 supra, par. 132; 
e Caso Tibi, nota 150 supra, par. 157. 
176
JURISPRUDÊNCIA DA CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS
302. O Estado deveria cumprir esse dever, com maior razão, no que se refere a pessoas feridas num centro 
penal pela ação de agentes de segurança. É evidente que todos os feridos em consequência da chamada 
\u201cOperação Mudança 1\u201d e dos atos seguintes a essa operação necessitavam de atendimento médico urgente, 
principalmente se se considera a dimensão do ataque, o tipo de ferimento causado e as características das 
armas utilizadas durante essa \u201coperação\u201d. A falta de atendimento médico adequado ocasionou sofrimento 
psicológico e físico adicional e determinou que as lesões não fossem adequadamente tratadas e dessem 
lugar a sofrimentos crônicos.
303. Com respeito ao tratamento que devem receber as mulheres detidas ou presas, o Alto Comissariado das 
Nações Unidas para os Direitos Humanos salientou que \u201cnão devem sofrer discriminação e que devem ser, 
de todas as formas, protegidas da violência ou da exploração\u201d. Salientou também que as detidas devem ser 
supervisionadas e examinadas por funcionárias femininas, e às mulheres grávidas e lactantes devem ser 
oferecidas condições especiais durante a detenção.159 A Comissão para a Eliminação da Discriminação contra 
a Mulher ressaltou que essa discriminação inclui a violência baseada no sexo, \u201cou seja, a violência dirigida 
contra a mulher, porque é mulher ou que a afeta de forma desproporcional\u201d, e que abrange \u201catos que in\ufb02 igem 
danos ou sofrimentos de natureza física, mental ou sexual, ameaças de cometer esses atos, coação e outras 
formas de privação da liberdade.\u201d160
304. Foi provado que, no Hospital da Polícia, os internos feridos, que se encontravam em deploráveis condições, 
foram ainda despidos e obrigados a permanecer sem roupa durante quase todo o tempo em que estiveram 
no hospital, que, em alguns casos,prolongou-se por vários dias e, em outros, por semanas, e eram vigiados 
por agentes armados (par. 197.49 supra).
305. A Corte considera que todos os internos que foram submetidos, durante esse prolongado período, à referida 
nudez forçada foram vítimas de tratamento que viola sua dignidade pessoal.
306. Em relação ao acima exposto, é preciso enfatizar que essa nudez forçada teve características especialmente graves 
para as seis mulheres internas que foram submetidas a esse tratamento. Do mesmo modo, durante todo o tempo 
em que permaneceram nesse lugar, não foi permitido às internas assear-se, e, em alguns casos, para utilizar os 
serviços sanitários, deviam fazê-lo acompanhadas de um guarda armado que não lhes permitia fechar a porta e 
lhes apontava a arma enquanto faziam suas necessidades \ufb01 siológicas (par. 197.49 supra). O Tribunal considera 
que essas mulheres, além de receberem tratamento que violou sua dignidade pessoal, também foram vítimas 
de violência sexual, já que estiveram despidas e cobertas tão somente com um lençol, rodeadas de homens 
armados que aparentemente eram membros das forças de segurança do Estado. O que quali\ufb01 ca esse tratamento 
de violência sexual é que as mulheres foram constantemente observadas por homens. A Corte, seguindo a linha 
da jurisprudência internacional e levando em conta o disposto na Convenção para Prevenir, Punir e Erradicar 
a Violência contra a Mulher, considera que a violência sexual se con\ufb01 gura mediante ações de natureza sexual 
cometidas contra uma pessoa sem seu consentimento, que, além de compreender a invasão física do corpo 
humano, podem incluir atos que não envolvam penetração ou inclusive contato físico algum.161
307. A Corte chama a atenção para o contexto em que foram realizadas essas ações, já que as mulheres a elas 
submetidas se encontravam sujeitas ao completo controle do poder de agentes do Estado, absolutamente 
indefesas, e haviam sido feridas precisamente por agentes estatais de segurança.
308. O fato de as internas terem sido forçadas a permanecer despidas no hospital, vigiadas por homens armados, 
no estado precário de saúde em que se encontravam, constituiu violência sexual nos termos anteriormente 
descritos, que lhes provocou constante temor ante a possibilidade de que essa violência se extremasse mais 
ainda por parte dos agentes de segurança, o que lhes ocasionou grave sofrimento psicológico e moral, que 
se junta ao sofrimento físico pelo qual já passavam em função de ferimentos. Esses atos de violência sexual 
atentaram diretamente contra a dignidade dessas mulheres. O Estado é responsável pela violação do direito à 
integridade pessoal consagrado no artigo 5.2 da Convenção Americana, em detrimento das seis internas que 
sofreram esses tratamentos cruéis, cujos nomes se encontram incluídos no Anexo 2 de vítimas da presente 
Sentença, que, para esses efeitos, dela faz parte.
159. Cf. ONU, Regras Mínimas para o Tratamento dos Presos, aprovadas pelo Primeiro Congresso das Nações Unidas sobre Prevenção do 
Delito e Tratamento do Delinquente, realizado em Genebra em 1955, e pelo Conselho Econômico e Social nas resoluções 663C (XXIV), de 31 
de julho de 1957, e 2076 (LXII), de 13 de maio de 1977, par. 23 e 53. 
160. Cf. ONU, Comissão para a Eliminação da Discriminação contra a Mulher, 11º Período de Sessões. Recomendação geral 19, \u201cA violência 
contra a mulher\u201d. Doc. HRI/GEN/1/Rev. 1at84 (1994), par. 6. 
161. Cf. ICTR, Case of Prosecutor v. Jean-Paul Akayesu. Judgment of September 2, 1998. Case No. ICTR-96-4-T, para. 688. 
177
DIREITO À LIBERDADE PESSOAL - CASO DO PRESÍDIO MIGUEL CASTRO CASTRO VS. PERU
309. Por outro lado, provou-se, no presente caso, que uma interna transferida para o Hospital de la Sanidad, da 
Polícia, foi objeto