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História das ideias políticas no Brasil

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destas denunciam àqueles como impressionistas e literatos; os
que querem história ligada às massas vêem elitismo e conservadorismo nas
outras orientações, e são tidos pelos adeptos destas como demagogos. Uns
vêem socialistas, por bem ou por mal, em quantos tenham criticado as
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coisas vigentes. Outros desancam os que não tenham rezado pela cartilha
dessa ou daquela crença. Há aliás um certo paradoxo a anotar: nossa
historiografia, tão acentuadamente “política”, no tradicional sentido de fa-
zer de preferência narrativas dinástico-militares ou de realçar os fatos gover-
namentais e “públicos”, ao mesmo tempo tem feito relativamente pouco
no estudo da “realidade política” brasileira, em bases sistemáticas e com
categorias adequadas.
* * *
Temas para uma história do pensamento político no Brasil.
Convenha-se em que toda história de idéias implica um processo de projeção:
aplicam-se, sobre entidades e valores do passado, noções e preferências do
presente, para ver, no acervo de manifestações encontrado naquele, confirma-
ções e motivações que o entrosem com este, categorias que o vinculem a este.
E só de certo tempo para cá, é que se começou a fazer teoria política com
determinadas formas e conceitos, por força de depurações e exigências; an-
tes, levantava-se o passado de um modo tal que seus conteúdos, vistos ago-
ra, podem parecer ingênuos e terrivelmente inatuais (vejam-se, por exem-
plo, as narrativas enfeixadas por Voltaire no Essai sur les moeurs). Mas a
historicização ao modo atual, enlaçando os conteúdos do passado sob
relativizantes rótulos de “épocas”, caracteriza-os (revela-lhes o caráter) e os
conexiona com os esquemas mentais hoje vigentes e sempre considerados
em vigência em relação ao tempo do historiador; com isso as expressões de
pensamento político das épocas pretéritas adquirem sentido e figura. Sem
falar no fato de que a alusão às circunstâncias especificamente “históricas”,
feita pelo trabalho historizador, dá áquelas expressões por menos importan-
tes que possam parecer, um relevo maior – por situá-las num conjunto. Isto
significa dar-lhes ritmo e estrutura. Daí a história de teorias políticas, que
são quase sempre ideal e polêmica, ser campo adequado para ostentação de
“posições”: posições em que o ideólogo se revela no próprio grau de
criatividade que o historiador permite. Tipos de história segundo posições:
isto seria assunto para ser estudado a sério, de outra vez.
É impossível penetrar nos temas da história das idéias sem sentir
que toda discussão ou opinião radica em modos de conceber o destino – ao
menos o destino “cultural” – do país. O que, contudo, faz o historiador
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pender para um lado ou outro, é sua concepção sobre a forma e as tendên-
cias da vida social, e com essa concepção ele amarra a dos destinos nacionais.
Também em países vizinhos, como na Argentina, os estudiosos mais recen-
tes tentam pôr em ordem as coisas, no tocante à atribuição de maior ou
menor valor a certos elementos, como o “povo”, na análise dos episódios
passados, e no tocante à utilização de dados historiográficos na
esquematização da análise (vejam-se os parágrafos I e II do ensaio de Enri-
que de Gandia, “El proceso a Mariano Moreno”, publicado na Revista de
Ciencias Jurídicas y Sociales de Santa Fé, número 109-112, 1962).
Um problema típico, no tocante à utilização do material
bibliográfico e temático: certas épocas, de que se vai tratar ou certas
conjunturas, têm sua interpretação dependente de sugestões ou esque-
mas fornecidos por determinados autores. Mas por outro lado, as obras
destes autores estão nesta ou naquela posição, cronológica ou ideológi-
ca. Assim, a referência ao Brasil colonial e suas instituições ou sua men-
talidade poderá fazer-se com base em esquemas do tipo dos de Caio
Prado Júnior ou Nélson Werneck Sodré, ou em esquemas como os de
Oliveira Viana ou os de Sérgio Buarque de Holanda. Então vem o fato
de que (e como coisa distinta da questão de valorizá-los pela orientação)
a condução do trabalho poderá chegar por seu turno à “localização” dos
Caio Prado e dos Sérgio Buarque; e isso deve ser tido em mente quando
se utilizam os seus trabalhos para aproveitar os levantamentos que fize-
ram. O equilíbrio do trabalho pede que se resolva o probloema de onde
acentuar a referência a eles.
Um ponto que, a livrá-lo dos bizantinismos, deve ser tocado é
o de como traçar a linha do curso do nossas idéias políticas, relacionando-a
com a do curso das filosóficas, das jurídicas, das econômicas, sem evidente-
mente confundir as coisas. Não se pode expor a problemática de certos
debates sem filiá-la a certas questões completamente gerais pelo teor cultu-
ral ou filosófico; nem aludir por exemplo ao cunho político das instituições
de 1891, ou dos debates que as envolveram, sem alguma conexão com o
lado jurídico da Constituição e dos problemas constitucionais. Então o
estudo das idéias políticas nacionais deve situar-se diante de um “sistema”
do desenvolvimento das ambiências culturais no Brasil: um quadro geral
em que se tenham as linhas dum processo integrado.
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Com isso se liga a questão aparentemente cediça de como divi-
dir a História, demarcar etapas, balizar as “épocas” da evolução das nossas
doutrinas políticas. Aliás, já existem umas tantas divisões – algumas fa-
mosas – de nossa história literária, de nossa história filosófica, etc., que os
autores de desde o século XIX foram fazendo e refazendo. Assim, a história
de nossas letras foi retalhada por Ronald de Carvalho em período “de for-
mação” (até 1750), “de transformação (até 1830) e “autonômico ” (até 1925).
O esquema naturalmente está hoje remontado por críticos mais recentes; o
espírito no entanto não parece ter mudado muito.
Na história da filosofia, a trajetória tem sido demarcada aten-
dendo-se à diferença entre o estágio colonial, o imperial e o republicano
(assinalando-se sempre o essor positivista na base deste último), ou então
acentuando-se o traço de certas correntes representativas de todo o Ociden-
te e manifestadas também em nosso país: iluminismo, romantismo e
ecletismo, neotomismo, evolucionismo, socialismo, existencialismo, etc.
Não é necessário fazer complicação para mostrar que a marcha
dos estágios e dos padrões é sempre paralela entre as várias faixas, filosofia,
literatura, teoria social; que entre elas há uma necessária solidariedade na
adoção de estilos e influências, no desenvolvimento de temas, na caracteri-
zação das obras. Tanto mais que, como se sabe, muitas vezes as mesmas
obras são de certo modo literárias, de alguma forma filosófica e em outro
aspecto importam como doutrina social (exemplo, o famigerado Canaã de
Graça Aranha, ou, melhor ainda, Minha formação de Joaquim Nabuco).
Diante de tudo isso, preferi manter para o presente livro a divi-
são Colônia-Monarquia-República. Primeiro, porque indica as épocas
institucionais a que o pensamento exposto se vincula; segundo, porque per-
mite o aproveitamento, quando nada parcial, das sugestões contidas nas divi-
sões aludidas, na medida em que têm um denominador comum. Não preci-
so dizer, também, que a aceitação desses marcos não impede que o cronológi-
co se reduza às vezes ao mínimo necessário, na organização dos esquemas. Às
vezes o cronológico se vê emborcado e traído. Por exemplo: Frei Caneca,
revolucionário de 1824, vai mencionado, por causa disso, na parte que men-
ciona as revoluções da fase imperial; alguns de seus contemporâneos, como
Lopes Gama, vão para outra parte, por força do ângulo temático que os distin-
gue. Na verdade, fazer história num tema como o deste livro é partir de um
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começo e vir chegando ao presente, mas isso implica, contrapesantemente,
recuos através dos quais se “sobe” até às origens, a cada passo, para