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História das ideias políticas no Brasil

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no referente aos símbolos políti-
cos (interesses do povo, direitos do povo).
Sociologicamente, a situação das elites intelectuais podia ser
a mesma; mas os conteúdos culturais de sua mentalidade estavam deci-
179 Diz FERNANDO AZEVEDO que, “no Brasil, o 1850 corresponde ao 1830 na Europa” (A
Cult. Bras., pág. 184). Mas também por lá a essência do Romantismo durou muito, se é que
não se pode dizer que ficou durando até hoje; de qualquer sorte o nosso “atraso” cronológico,
de que tanto se falaria depois (com Tobias por exemplo), não era tão grande.
História das Idéias Políticas no Brasil 191
didamente mudados. A pose de um escritor de 1860 já não era a de um
autor de cantatas: ele, ao menos na intenção e na medida das circunstân-
cias, estava numa sintonia maior com o país.180 E ao Brasil romântico
devemos o legado de uma série de modos brasileiros de ser, que ainda
hoje a consciência nacional tem de reconhecer como visceralmente pe-
culiares: o culto de um certo tipo de brilho verbal, a nostalgia do passa-
do (quase versão de saudade ibérica com mais enfoque no tempo), o
gosto por um determinado tipo feminino e por certa galanteria mistu-
rada de pieguice e piada, o culto do saber heróico, encarnado no ho-
mem votado como um mago aos livros, o apego ao traje e aos gestos.
Mais, um tom de interiores que tende a ser inconfundível e uma série de
inclinações plásticas.
No sistema de formas românticas, o indianismo foi como
todo mundo sabe um caso importante. Conceitua-se como “idealização
do índio”, e inclui a alusão em tom épico a coisas de índio: flecha, luta,
jaguar. Agora, o “pastor” arcádico, que no século anterior era copiado
dos modelos clássicos, é substituído por uma figura aborígene, se bem
continue a haver estilização; o selvagem passa a simbolizar o fundo au-
têntico da pátria. O índio, que dizem ter sido anteriormente levado ao
Velho Mundo a dar exemplo de exotismo e sugerir edificantes doutri-
nas filosóficas, ou dar nova imagem aos antigos ideais da bondade pri-
mitiva – veja-se o conhecido e sugestivo ensaio de Afonso Arinos –,181 o
índio agora apresentava tintas melhoradas e assumia traços que o assemelha-
vam, não tanto ao inconveniente iroquês de Voltaire, mas ao sublimado,
cristianizado e parsifalesco selvagem de Chateaubriand.182 Havia mes-
mo algo dos heróis de Ossian, nas imponentes figuras de chefes, que
180 Para MERCADANTE (op. cit. à nota 2; cap. XI), foi de conciliação o sentido também de nosso
Romantismo, combinando os modelos europeus liberais com nossas estruturas atrasadas. Em
que, porém, isso o descaracteriza? Classicismos não era mais; e o paralelismo com a rebeldia
política não faltou: faltaram chances.
181 AFONSO ARINOS DE MELO FRANCO, O Índio Brasileiro e a Revolução Francesa - As
Origens Brasileiras da Teoria da Bondade Natural, J. Olímpio, Rio, 1937.
182 O que não exclui a presença de “fontes folclóricas” no movimento indianista, como as que
menciona, na esteira de Capistrano de Abreu, o historiador NELSON WERNECK SODRÉ,
em ensaio sobre Alencar (A Ideologia do Colonialismo, Ed. Civilização Brasileira, 2a ed., Rio,
1965, págs. 57 e 58). Isto é outro lado da coisa.
192 Nelson Nogueira Saldanha
aparecem por exemplo no Acaiaca, romance de Joaquim Felício dos Santos, ou
ainda até no Potyra do posteriormente mais cauteloso Machado de Assis.183 Isto
sem falar, é claro, nos lindos e virtuosos bugres de Alencar e Gonçalves Dias.
Nessa idealização de chefias índias (que algum weberiano seria tentado a rotu-
lar de carismáticas), se exprimia um propósito ético, o de ensinar o embasamento
do mando na efetiva excelência de qualidades superiores; bem como um zelo
étnico, restaurador e maquilador dos fundamentos autóctones das virtualidades
do povo. De qualquer sorte, porém, deve-se reconhecer que esse “momento”
indianista não chegou a representar uma concepção política nem a desembo-
car em uma doutrina social. Deve entretanto ser valorizado pelos símbolos
que traçou e pelo hábito que deu às letras brasileiras de ter em mente os
elementos “não brancos” de nossa estirpe. Se pela forma o indianismo trazia
figurinos franceses, pelo conteúdo era uma sugestão para a consciência nacio-
nal – embora ainda tão ingênua quanto essa consciência mesma. E foi, se não
uma vigança, ao menos uma compensação literária: pois quanto ao negro não
houve africanismo literário como gênero, tendo havido embora mais defesa
do africano, inclusive posteriormente, que do índio. A sociedade estrutural-
mente incluía o trabalho do escravo negro e era difícil à mentalidade literária
dominante superar essa situação para dar ao africano um perfil nobilitado per
se: as figuras de negros que surgem favoravelmente na literatura de então, vêm
em função de enredos e caracteres em que branco e índio são principais.
* * *
Dentro do romantismo brasileiro se podem encontrar, como
de resto no de todas as nações que o conheceram, contradições aparentes,
como esta, entre o culto da individualidade heróica (Napoleão, por exem-
plo) e as reivindicações coletivas. É que os exemplos históricos e os modelos
literários impunham ambas as coisas e no nosso país um mundo de
problemas indecisos chamava a atenção dos escritores. Na poesia romântica
183 O trecho do Acaiaca vem na velha antologia de MELO MORAIS FILHO, Curso de Literatura
Brasileira, Rio de Janeiro, 1870; de MACHADO DE ASSIS, v. Poesias Completas, ed. Jackson,
1947. Para o mais, v. a tese de Madre MARIA CELESTE FERREIRA, O Indianismo na
Literatura Romântica Brasileira, Rio de Janeiro, 1949. Cf. ainda as observações de CASSIANO
RICARDO, em O Homem Cordial e Outros Pequenos Estudos Brasileiros, ed. MEC. INL, Rio,
1959, págs. 160 e segs.
História das Idéias Políticas no Brasil 193
brasileira, as questões sociais tiveram por vezes lugar de destaque, particular-
mente na obra de Castro Alves, cujos versos, às vezes ingênuos e em geral
extremamente hugoanos, são sempre um arrepio sinceríssimo: neles as men-
ções ao povo são freqüentes, como na ode “O povo ao poder” de 1866,
onde se lê a famosa frase.
“A praça! A praça é do povo
como o céu é do condor”,
e onde aparecem antevisões revolucionárias:
“Da plebe doem os membros
no chicote do poder,
e o momento é malfadado
quando o povo ensagüentado
diz: já não posso sofrer.”
Seus poemas estão repletos da retórica, depois muito usada,
consistente em relacionar grandezas naturais com destinos nacionais; de ar-
rebatadas alusões à plebe, às “turbas”, desamparadas, mas capazes de criar
futuro, dos Gracos, às lutas sociais passadas aos tronos que “rolam”; à libedade,
ao “despertar” do povo”, a emancipação dos escravos (e da pátria).
Não era entretanto um socialista no sentido pleno da palavra;
nem tinha doutrina sistemática o grande poeta, morto aos vinte e poucos
anos numa quadra em que isto foi comum em nossas letras. Tinha um credo
humanitário, meio liberal, meio igualizante, e dizia-o em estrofes crepitantes.
* * *
Até o fim do século XIX, o liberalismo brasileiro assumiria
formas diferentes, indo do clamor oposicionista ocasional nas lutas do se-
gundo quartel do século, à culminação conseguida na realização da Repú-
blica, passando pelo republicanismo antecipado de muitos, e pelo
monarquismo vencido de outros. Em Nabuco, por exemplo, o liberalismo
foi o contraponto, o complemento de seu culto aristocrático pelas institui-
ções monárquicas, que via à inglesa, lendo Bagehot (nas folgas lia Renan) e
bagatelizando de certo modo os verdadeiros problemas do país. Em Rui
Barbosa, foi em parte um resultado bibliográfico, trançado de citações eru-
194 Nelson Nogueira Saldanha
ditas e afiado em debates de imprensa, alimentando um ideal federalista
alongado oportunamente em republicanismo. Nuns, era incoformismo po-
lítico, reação ao governo quase sempre exercido por conservadores; nou-
tros, convicção literária, aprendida pela contemplação