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História das ideias políticas no Brasil

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e não
somente crítica e análise. Levantamento necessariamente incompleto e
defeituoso, tanto mais se se considera o prazo de poucos meses em que
me dispus a escrevê-lo, isso mesmo no meio da trabalheira de uma vida
universitária cheia de encargos e parca de vantagens, e com um ano difí-
cil como me foi este.
Se digo que sobre o tema faltam visões de conjunto, não resul-
ta que pretenda preencher “plenamente” esta falta. Nem que escasseiem
estudos sobre aspectos da evolução do nosso pensar político; ao contrário,
temo-los já muitos e alguns ótimos. Nas notas deste ensaio, notas que
tanto são o esteio documental como o complemento crítico do texto,
encontram-se em geral mencionados. Resulta, sim, que encaro o livro
com certa insatisfação. Nele mantive porém a preocupação de situar as
coisas humanas – valores institucionais e lastros doutrinários – em seu
específico orbe histórico-cultural.
* * *
Finalmente, menções e agradecimentos. Antes de tudo, às bi-
bliotecas a que recorri e a cujos dirigentes e funcionários devo atenções e
gentilezas: Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco, Biblioteca do
Gabinete Português de Leitura, Biblioteca da Faculdade de Direito da Uni-
versidade do Recife, Biblioteca da Faculdade de Filosofia, Biblioteca do
Mosteiro de São Bento de Olinda. Recorri também, na busca de livros, e,
ocasionalmente, de sugestões, a vários amigos: assim, aos professores Miguel
Reale e Luís Washington Vita, em São Paulo; ao Dr. Olympio Costa Júnior,
aos professores Luís Delgado, Manoel Correia de Andrade, Rui Antunes,
Gláucio Veiga, Armando Souto Maior, José de Moura Rocha, Giuseppe
38 Nelson Nogueira Saldanha
Reale, Palhares Moreira Reis e Aziz Elihimas, bem como ao Sr. Francisco
Barreto Caeté – antigo bibliotecário – e ao meu tio Antônio Saldanha.
Agradeço a todos penhoradamente.
Tenho também de registrar meu cordial reconhecimento à aju-
da datilográfica que me prestaram os estudantes Sônia Santiago, Neli Tem-
poral, Elisabeth Morais, Dulce Maia, Vilma Tavares, José Luís Delgado e
Lúcio Flávio Regueira.
Recife, março a dezembro de 1966
NELSON SALDANHA
ADENDO: Esta “Introdução”, com todas as suas intenções,
foi escrita em 1966, como de resto o livro todo, e estava referida à expecta-
tiva de publicar-se no Sul do país. A expectativa, por determinadas circuns-
tâncias, não se cumpriu, e o volume foi acolhido em tempo pelas gráficas
da Imprensa Universitária da hoje Universidade Federal de Pernambuco,
publicando-se agora com pequeníssimos acréscimos. O autor se sente no
dever de agradecer ao magnífico reitor e ao professor Luís Delgado por
haverem incluído a obra no programa editorial da Universidade, e também
se sente obrigado pela boa vontade dos que fazem a gráfica: Esmaragdo
Marroquim, Dilermando Pontual e todos os demais funcionários.
N. N. S., maio de 1968
História das Idéias Políticas no Brasil 39
Parte I: Colônia
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História das Idéias Políticas no Brasil 41
rigens: essa idéia parece obrigatória no começo de um estudo
histórico (ver historicamente um objeto é, ao menos em princípio, vê-lo em
suas origens), inclusive porque as gerações que vêm fazendo estudos históricos
sempre tiveram uma certa idéia do que sejam “origens”. No sentido em que a
empregam os historiadores dos países europeus, a palavra se encaixa num feixe
de referências mais ou menos determinado. As origens da monarquia inglesa; as
do socialismo francês; as do idealismo alemão: são representações que se situam
de logo em conexões mais ou menos reconhecidas, e em relação a elas o histori-
ador trabalha com alguma segurança. Ao menos uma segurança formal. Em
realidade a mentalidade européia sempre dispôs, como de um escabelo ou de
uma esteira, de uma noção de origens com sentido histórico – na Idade Média
as origens eram sobretudo bíblicas, desde o Renascimento sobretudo clássicas.
Essa idéia do “clássico”, como padrão histórico-cultural, provém da idealização
e estilização (talvez platonização) das formas estéticas e intelectuais pagãs, e constitui
um modo de figurar “origens” num sentido que já ficou altamente formalizado.
Mas de que sentido e de que modo dispõe o historiador lati-
no-americano para situar origens? Antes de tudo, comparte as origens dos
outros, pois “também” bebeu nas fontes clássicas, quer pela mão dos que
lhe ensinaram humanidades, quer pela própria, depois, diretamente. Por ou-
Capítulo I
ORIGENS EUROPÉIAS, MATRIZES PORTUGUESAS
Sumário: A idéia de “origem” para a historiografia latino-americana.
Herança européia e versão ibérica. A monarquia lusa.
 Nossas funções políticas.
O
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42 Nelson Nogueira Saldanha
tro lado, esses “outros”, são para os latino-americanos sua origem: os povos
europeus que nos descobriram e nos recobriram. Mas, enquanto para estes,
em seus tempos de crescimento, as origens ficavam lá, quietas como padrões,
e não se metiam com eles na vida concreta (nem os povos bíblicos nem os
antigos gregos vinham mais à tona), para os latino-americanos os mesmos
povos que foram fontes e seguiram sendo modelos continuam a entrar-lhes
pela vida a dentro, concretamente, o que às vezes cria graves problemas.
O que podemos ter como “origens” é portanto uma série de
realidades que, talvez por não terem ficado quietas e distantes como uns
padrões, não adquiram o encanto formal das dos europeus.
Para estes, sempre ficou havendo uma “Idade Média” como
larga faixa extremamente histórica, posta entre o longínquo horizonte cro-
nológico da “antiguidade” e a ainda por completar-se etapa posterior, que se
alonga em modernidades e contemporaneidades renovadas.
No nosso caso, são instituições, tendências e crenças dos povos
que nos plasmaram. São processos de instauração, num solo então selva-
gem (o que, como evocação, cria certa dubiedade, pois para nós que hoje,
que o lembramos, ele aparece tão selvagem quanto o foi para os que aqui
aportaram), de aparatos de dominação, e de concepções; tudo rígido e en-
tretanto destinado a flexionar-se de vários modos.
* * *
Quanto ao modo de registrar e relacionar essas origens, pode
variar bastante. Num autor como Martins Júnior, que estudou nossa vida
jurídica em seus inícios, o ponto de vista evolucionista fazia pôr o problema
a partir da experiência romana e germânica, vindo daí para a análise do
direito português em sua formação toda, e para as projeções deste sobre
nossas tropicais plagas. Preliminar idêntico pratica José Câmara, embora
detendo-se menos; o mesmo se diga de César Trípoli, que entretanto
esquematiza as coisas de modo diferente, situando também, dentro do
enfoque introdutório a indagação sobre a organização dos índios.1 A preo-
1 MARTINS JÚNIOR, História do Direito Nacional, 2a edição, Pernambuco, 1941; JOSÉ CÂMARA,
Subsídios para a história do direito pátrio, vol. I, Rio, 1954; CÉSAR TRÍPOLI, História do Direito
Brasileiro (ensaio), vol. I, São Paulo, 1936.
História das Idéias Políticas no Brasil 43
cupação com o arrolamento da situação institucional lusa (que é como uma
parte proto-histórica da nossa) ao tempo da descoberta e ocupação, se acha
presente do mesmo modo em escritores de outro feitio, como alguns auto-
res que, sob mira sociológica, têm levantado a gênese de nosso ser histórico
ou de nossas estruturas. É o caso já paradigmático de Gilberto Freire e de
Sérgio Buarque de Holanda, bem como, mais para perto no tempo, o de
Raimundo Faoro ou Paulo Mercadante;2 nestes dois últimos as alusões ao
Estado português e às suas condicionantes sociais se acham bem frisadas.
Nem sempre, advirta-se, o modo de inventariar as origens se
prende inteiramente a tema substancial dos “fatores” que teriam moldado as
nossas feições iniciais; às vezes, traduz antes um esquema intelectual, um
estilo, uma moda metodológica. Assim, a atenção ao fator econômico pode