A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
371 pág.
História das ideias políticas no Brasil

Pré-visualização | Página 8 de 50

aparecer em esquemas expositores de diferentes tipos.
É importante, porém, ter-se em conta presença das condições
(melhor talvez do que dizer: fatores), que, por todos os lados, cercam e mar-
cam o pensamento, em sua elaboração e em sua exposição. Ora, no caso do
Brasil a pluralidade de ingredientes – já o lembrei na Introdução – sempre foi
característica. Por isso nem sempre tem êxito o esforço do historiador que
quer comportar sua matéria em três ou quatro coordenadas simétricas.
Na fixação de nossas origens, de nossa proto-história e de nossa
“herança” cultural (pois que nesse sentido a idéia de herança é a de uma relação
permanente ante um modelo), interferem várias tendências. Na verdade, tal
fixação é o primeiro momento na tarefa de reconhecer o elenco de modelos
que influirão sobre nosso comportamento cultural e doutrinário por todo o
tempo. Pois em muito a história das- idéias vai ser isso: identificar
determinantes e modelos, motivos, padrões, figurinos. E como historiar sem
isso, pois isso é às vezes o que os historiadores mostram ter tido ante os olhos?
Vejamos a proveniência de nossa herança intelectual.
2 GILBERTO FREYRE, Casa Grande & Senzala, formação da família brasileira sob o regime de
economia patriarcal (6o vol., J. Olympio, 1950), caps. I e III; O Luso e o Trópico. Lisboa, 1951,
princ. caps. I, IV, XIV e XVI; SÉRGIO BUARQUE, Raízes do Brasil, ed. José Olímpio, Rio,
1936, caps. I e II; RAIMUNDO FAORO, Os donos do poder – formação do patronato brasileiro,
ed. Globo. Porto Alegre, 1958; PAULO MERCADANTE, A Consciência Conservadora no Brasil
– contribuição ao estudo da formação brasileira, ed. Saga, Rio, 1965.
44 Nelson Nogueira Saldanha
No pensamento ibérico, havia por um lado a permanência me-
dieval da ecolástica, mantida pela Igreja e apesar das efervescências renascentistas;
por outro lado, experiências políticas aptas a ensejar conceituações novas. Por
exemplo, a idéia de “Império” que na Espanha de Carlos V se reelaborava sob
condições singulares (veja-se o famoso estudo de Menéndez Pidal a respeito);
as lutas contra os mouros, dando à noção de cristandade um cimento políti-
co-militar agônico, inconfundíavel; o esforço de Portugal para se manter au-
tônomo, em sua realeza começada como feudo rebelde e depois tranbordada
em potência marítima e desbravadora de orbes.
Há, por dentro da temática da “relação da metrópole com a nos-
sa terra”, o lado da migração de certas crenças, como as de que deu conta o
monumental livro de Sérgio Buarque de Holanda, Visão do Paraíso. Nesta
obra o grande historiador, abrindo uma digressão panorâmica na tradicional
narrativa, procura mostrar que a expansão oceânica dos povos ibéricos condu-
zia, nas mentes ainda meio medievias, uma série de mitos, que fizeram que os
navegadores julgassem encontrar, nas terras americanas, lugares e figuras de
que ancestralmene ouviam falar; e que, aliás, os portugueses foram em todo
caso mais realistas, menos embalados por quimeras, por força dum bom sen-
so que, de resto, não os impediu de trazerem para cá um certo “conservantismo
intríseco”, revelado no modo logo arcaizado de administrar terras e coisas.3
Um fundo pedagógico escolástico, uma série de vibrações políti-
cas e aventureiras, um resíduo de miragens e curiosidades. Tudo isso, junto,
correspondendo, naturalmente, a diferentes áreas profissionais e classes sociais.
* * *
Fala-se às vezes no Estado “barroco”, que Portugal teve tal como
a Espanha, e cujos caracteres se deve ter em vista. Um Estado absolutista de
miolo meio teocrático meio oligárquico, servido por um aparato burocrático
ainda relativamente pouco desenvolvido mas altamente rígido, de onde partiam
3 SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA, Visão do Paraíso – Os Motivos Edênicos no descobrimento
e colonização do Brasil, ed. José Olímpio, Rio, 1959, caps. I. VII e XII; sobre o conservantismo,
págs. 350 ss. Para a tipologia dos povoadores do Brasil, JOSÉ HONÓRIO RODRIGUES,
Conciliação e Reforma no Brasil. Um desafio histórico-cultural. Ed. Civilização Brasileira, Rio,
1965, pág. 24.
História das Idéias Políticas no Brasil 45
as normas solenes das Ordenações. Realmente esse Estado barroco represen-
tou, em Portugal, a convergência de várias condições culturais e políticas, e
a presença de um mundo ultramarino a dominar constituiu, para sua estru-
tura, uma adequada chance de expansão; pois através da imposição de seus
poderes e de suas leis vinham para cá os propósitos econômicos e as impli-
cações culturais. Através das Ordenações, transbordava sobre os novos e
meio desconhecidos súditos tropicais o espírito do Império (aquele da frase
de Camões sobre “a fé e o império”), o qual ainda resplandecia em seu
sentido de grandeza e de majestas.4
Em sua letra, as Ordenações Filipinas não esqueciam de anunci-
ar um propósito elevado: assim, em seu Prólogo se lê que
“necessária é em todo tempo a Justiça, assim na paz como na
guerra, para boa governança e conservação da República e do
Estado Real, a qual aos Reis convém como virtude principal, e
sobre todas outras mais excelente, e em a qual, como em ver-
dadeiro espelho, se devem eles sempre rever e esmerar: porque
assim como a Justiça consiste em igualdade, e com justa balan-
ça dar o seu a cada um, assim o bom Rei deve ser sempre um,
e igual a todos em retribuir e a premiar cada um segundo seus
merecimentos. E assim como a Justiça é virtude não para si,
mas para outrem, por aproveitar somente àqueles, a que se faz,
dando-lhes o seu, e fazendo-os bem viver, aos bons com prê-
mios e aos maus com temor das penas, donde resulta paz e
sossego na República (porque o castigo dos maus é conserva-
ção dos bons); assim deve fazer o bom Rei, pois per Deus foi
dado principalmente não para si, nem para seu particular provei-
4 Sobre o estado barroco português, v. FAORO, cap. III; e também NESTOR DUARTE, A Ordem
privada e a organização política nacional, 2a ed., Brasiliana, São Paulo, 1966, capítulos I e II; para suas
origens, a clássica História de Portugal de ALEXANDRE HERCULANO (3a ed., Lisboa, 1866).
Para uma especial dimensão temática, MIGUEL REALE, “Cristianismo e Razão de Estado no
renascimento lusíada”, em Rev. da Fac. de Direito da Univ. de São Paulo, ano XLVII, 1952, e em
italiano no volume Cristianismo e ragion di stato – L’Umanesimo e il demoniaco nell’arte (F. Bocca,
Roma-Milão, 1953; interessam também nesse volume os ensaios de P. Mensard e de L. W. Vita).
46 Nelson Nogueira Saldanha
to, mas para bem governar seus Povos e aproveitar a seus Súdi-
tos, como a próprios filhos; e como quer que a República con-
sista e se sustente em duas cousas principalmente, em as Ar-
mas, e em as Leis, e uma haja mister a outra, porque assim a
Arte Militar com ajuda das Leis é segura”,
texto cujo casamento com os fatos (e mesmo com o conteúdo das normas
que prologa) seria, porém, discutível.5
Mais implantação do que “recepção” foi, destarte, o processo de
advento das leis lusas entre nós em nosso início, e nesse plano partilharíamos o
destino dos povos ibero-americanos todos, em que a política imperial se valeria
da lei como dum instrumento adequado, pois a solenidade verbal dos textos
marcaria pesadamente o cunho da firmeza governante metropolitana – embora
os guantes de ferro se enferrujassem um tanto nestas terras. Com isso se relacio-
nou o modo de gerar-se a estrutura social ibero-americana, tendo-se criado, ao
lado dos braços do Estado potente, uma aristocracia vinda de além-mar e dis-
posta a viver à fidalga como lá, e uma base demográfica de tipo diverso da
metropolitana mas destinada a servir ao tipo de dominação trazido.6
5 Ordenações e Lei do Reino de Portugal, recopiladas por Mandado d’el Rei D. Filipe o primeiro, 12a
edição, segundo a nona, Coimbra, 1824, tomo I (Coimbra, Imprensa da Universidade, 1858,
pp. XXV-XXVI). Também no início da seiscentista “Razão de Estado do Brasil”, se dizia