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História das ideias políticas no Brasil

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que “a
saúde das almas e a liberdade natural e real nos vassalos são os fundamentos com que sua
Majestade (como Católico Monarca) manda que se proceda em suas conquistas” (texto atualizado
do Livro que dá Razão do Estado do Brasil - 1612, ed. crítica por Hélio Viana, ed. do Arquivo
Público, Recife, 1955, pág. 109). Observem-se, voltando ao fraseado das ordenações, as seguintes
características: a idéia do “bom Rei”, traçada diante da idéia de “espelho”, que é a justiça e ante
a qual o rei deve mirar (o tema do espelho de príncipes constante na literatura política européia
de então); e acepção de “república” como Estado, não como forma de governo; a fórmula leis-
armas, meio equívoca e manejável, embora muito expressiva, por conter em embrião o binômino
direito-poder, que perfaz o Estado. - Sobre o pensamento político luso nos séculos XVI e XVII,
v. a História das Idéias Políticas, de PEDRO CALMON, ed. Freitas Bastos, 1952, cap. XVI.
6 Sobre esses problemas há a excelente análise de SÉRGIO BAGÚ, em Estrutura Social de la
Colonia - ensayo de Historia comparada de América Latina (Buenos Aires 1952); para ele, o
conceito espanhol de império se projetou inteiramente sobre as terras descobertas, com uma
dimensão legalista muito característica. Cf. também RICHARD KONETZE. Collección de
Documentos para la Historia de la Formación Social de Hispano-américa, 1493-1810, vol. I (Madri,
1953), Introdução. Sobre o legalismo português, uma apreciação, rápida e elogiosa mas bastante
lúcida, no artigo de LUÍS DELGADO: Lições Portuguesas: a legalidade” em Jornal do Comércio,
Recife, 11 de julho de 1965. Mais sobre o assunto no vol. II da História do Direito Brasileiro de
VALDEMAR FERREIRA, ed. Freitas Bastos, 1952.
História das Idéias Políticas no Brasil 47
Essas fundações institucionais influíram certamente na conso-
lidação da primeira mentalidade social nossa. Uma mentalidade dominada
pelo nobilismo da classe dominante, fidalga ou afidalgada, que tentava re-
petir aqui o estilo de vida dos grandes senhores feudais (quando já, aliás, na
Europa a tendência era o Estado absoluto ensejar a decadência deles). Para
certos autores o fidalguismo se revelava como aversão ao trabalho, e só o
advento do burguês venceria esta situação.7
* * *
Há um problema pendente, dentre os referentes aos primórdios
de nossa experiência política, que é o de aproveitar-se ou não,
historiograficamente, o que há sobre as “concepções” dos índios encontrados
pelos lusos no Brasil. Efetivamente, foram eles os ocupantes originários da
terra, e, se bem atrasadíssimos em cultura e técnica, tinham obviamente idéias
e crenças, organização social, práticas bélicas, divisão do trabalho, escala de
valores de comportamento, chefia política, ritos de participação grupal, mi-
tos, tudo o que, com boa vontade, pode ser recolhido para considerar como
interessante ao menos por um prisma genético ou comparativo.8
7 GLÁUCIO VEIGA, “Notas para um estudo sobre o desenvolvimento econômico de Pernambuco”
(no volume – que as “notas” ocupam quase todo – Pernambuco, sua história, sua economia, Recife,
1956), págs. 13 e 69.
8 Para a análise do “pensamento” do brasilíndio, veja-se a excelente síntese crítica de LUÍS
WASHINGTON VITA. “Mundividência Brasilíndia”, em Revista Brasileira de Filosofia , fascículo 57
(janeiro-março 1965), pp. 8 e segs. Existem fontes hoje bastante necessitadas de reexame, como por
exemplo o trabalho de Gonçalves Dias publicado na Revista do Inst. Hist. Geog. e Etnog. do Brasil, 3o
trimestre de 1867, ou a famosa “História da república jesuítica no Paraguai”, do Cônego J. P. Gay, na
mesma Rev., 1o trimestre de 1863. – Um setor paralelo, mas interessado na mesma medida a uma
investigação de ampla escala, é o da organização “política” dos nosss indígenas, na qual se poderiam
detetar, por implicação, valores ou concepções sobre chefias e estruturas. Cf. FLORESTAN
FERNANDES, A Organização Social dos Tupinambás, IPE, São Paulo, s.d., cap. V; EGON SCHADEN,
A Mitologia Heróica de Tribos Indígenas do Brasil, ed. do MEC, Rio, 1959, princ. capítulos V e VII.
Para um levantamento da literatura etnográfica clássica, v. ALMIR DE ANDRADE, Os primeiros
estudos sociais no Brasil, séculos XVI, XVII e XVIII, ed. J. Olímpio, Rio, 1941; e também ESTÊVÃO
PINTO, “Introdução à história da antropologia no Brasil (séc. XVI)”, em Muxarabis e Balcões e outros
ensaios (Brasiliana, CEN, S. Paulo, 1958), págs. 179 e seguintes.
História das Idéias Políticas no Brasil 49
 análise dos componentes da mentalidade política do Brasil
em seus começos (o que se teria a tentação de chamar a “pré-história” do pensa-
mento social brasileiro) supõe, desde logo, que se tome como base hipótese de
ter havido, em suas manifestações, uma coerência suficiente. Quer dizer: que se
considere como uma unidade o número de expressões que, por toda a diferen-
ciada vastidão de terras e gentes que eram então o Brasil, refletiam crenças polí-
ticas, valores organizatórios ou tendências institucionais. Supõe, também, por
certo, que se levem em conta certas circunstâncias (e aqui a idéia de circunstância
significa mesmo um “estar em torno”, dada a amplidão dos fatores naturais e a
difusão das formas demográficas): circunstâncias particulares sociais e culturais,
com seus ingredientes econômicos e psicológicos.
O pressuposto na unidade é inclusive uma exigência
metodológica, e é ao mesmo tempo um dado assente pelo modo de pôr o
problema, como perspectiva “nacional”. O pressuposto das circunstâncias
ou de sua consideração corresponde à necessidade de dar fundações socioló-
gicas aos registros a fazer: faz-se história de idéias como verificação de um
processo remissível à sociologia da cultura e do conhecimento.
A alusão à situação social do Brasil colonial significa entre ou-
tras coisas isto: situação em relação a Portugal. O que equivale a dizer que a
SITUAÇÃO SOCIAL E CULTURAL
Sumário: Instalação do homem na colônia. O Estado português.
 O trópico. Estrutura social: feudalismo? Situação econômica e
padrão barroco. Outras coisas.
Capítulo II
.......................................
A
50 Nelson Nogueira Saldanha
vinculação efetiva, que a Portugal nos prendia, pede que a descrição das
nossas vigências sociais de então seja feita em conexão com o conhecimento
da situação portuguesa. Já se disse que os dominadores daqui buscavam re-
petir – ou ampliar – os estilos de vida que por condição social teriam lá. E
o Portugal de então apresentava um processo de transformação em que, por
um lado, o Estado cada vez mais assumia problemas (religiosos, econômi-
cos, pedagógicos), e por outro as réstias do racionalismo europeu começa-
vam malgré tout a enfiar-se pelo plano cultural.
Tanto a circunstância da infiltração do racionalismo como a da
consolidação do Estado, burocratizado e mercantilizado, faziam do status
da nobreza portuguesa algo precário: possivelmente esta sentiu que estabe-
lecer-se nas imensas terras novas seria interessante – embora em muitos
casos tal ilusão se desvanecesse logo (como se deu com os donatários) e, em
muitos outros, o vir para o trópico fosse propósito provisório.
De qualquer sorte, a etapa colonial constituiu o primeiro ato de
algo que, discutível como bom ou como mau, foi uma conquista hoje
olhada como impressionante: a da precoce unidade de nossa vida nacional.
Uma unidade que os historiadores e os sociólogos têm registrado com bas-
tante ênfase, e que constitui efetivamente um dado empírico indispensável no
equacionamento dos problemas de interpretação social que se queiram pôr.
Um problema básico seria obviamente o de perguntar-se até que
ponto isso decorreu de determinados fatores. Na verdade, o que se tem por
unidade nacional é algo que precisa ser reentendido: o perfil do nosso corpo
geopolítico não corresponde ao que poderia ter sido, com idêntica “unidade”,
se se respeitasse o traço de Tordesilhas;