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vez de lhe
darem a Raquel, deram-lhe a Lia.Ah enganado pastor e mais enganado amante! Se
perguntarmos à imaginação de Jacó por quem servia, responderá que por Raquel.
Mas se fizermos a mesma pergunta a Labão, que sabe o que é, e o que há de ser,
dirá com toda a certeza que serve por Lia. E assim foi. Servis por quem servis, não
servis por quem cuidais. Cuidais que vossos trabalhos e os vossos desvelos são por
Raquel, a amada, e trabalhais e desvelai-vos por Lia, a aborrecida. Se Jacó soubera
que servia por Lia, não servira sete anos nem sete dias. Serviu logo ao engano e
não ao amor, porque serviu para quem não amava. Oh, quantas vezes se representa
esta história no teatro do coração humano, e não com diversas figuras, se não na
mesma! A mesma que na imaginação é Raquel, na realidade é Lia; e não é Labão
o que engana a Jacó, senão Jacó o que se engana a si mesmo. Não assim o divino
amante, Cristo. Não serviu por Lia debaixo da imaginação de Raquel, mas amava
a Lia conhecida como Lia. Nem a ignorância lhe roubou o merecimento ao amor,
nem o engano lhe trocou o objeto ao trabalho. Amou e padeceu por todos, e por
cada um, não como era bem que eles fossem, senão assim como eram. Pelo inimigo,
sabendo que era inimigo; pelo ingrato, sabendo que era ingrato; e pelo traidor,
"sabendo que era traidor": "Sciebat enim quisnam esset, qui traderet eum".
Deste discurso se segue uma conclusão tão certa como ignorada; é que os ho-
mens não amam aquilo que cuidam que amam. Por quê? Ou porque o que amam
não é o que cuidam; ou porque amam o que verdadeiramente não há. Quem es-
tima vidros, cuidando que são diamantes, diamantes estima e não vidros; quem
ama defeitos, cuidando que são perfeições, perfeições ama e não defeitos. Cuidais
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que amais diamantes de firmeza, e amais vidros de fragilidade; cuidais que amais
perfeições angélicas, e amais imperfeições humanas. Logo,os homens não amam
o que cuidam que amam.
Donde também se segue que amam o que verdadeiramente não há; porque
amam as coisas, não como são, senão como as imaginam; e o que se imagina, e
não é, não há no Mundo. Não assim o amor de Cristo, sábio sem engano: Cum
dilexisset suos, qui erant in Mundo.
Pe.Vieira
Merece apreciada a linha argumentativa de texto de Vieira, conduzindo com
mestria o ponto de referência retomado, o amor de Jacó por Raquel, para uma
conclusão carregada de inspiração cristã, reconhecendo no amor de Cristo, o único
sábio, sem engano. Veja-se, ainda, o uso antigo da palavra amante.
4.3 TIPOS DE TEXTO
Como já foi dito anteriormente, texto é a atividade comunicativa entre emis-
sor/receptor, em diálogo Íntimo, repleto de emoções ou de reflexões, levando o
pensamento humano a infinitas direções. Em sentido estrito, texto é conhecido
como a mensagem escrita (inclui a leitura), expressão articulada por meio de
palavras.
Ao dialogar com o leitor, o texto vale-se de inúmeras formas, sendo os gêneros
mais conhecidos a descrição, a narração e a dissertação, que, a bem da verdade,
não existem de modo isolado; o que ocorre é a presença dominante de um tipo.
Veja-se o exemplo colhido em Severino Antonio Barbosa, em seu excelente
trabalho Redação, escrever é desvendar o mundo (1989, p. 42), lembrando Guima-
rães Rosa:
"Era um burrinho pedrês, miúdo, resignado, vindo de Passa-Tempo,Conceição
do Serro ou não sei onde no sertão. Chamava-se Sete-de-Ouros, e já fora tão bom,
como outro não existia nem pode haver igual.
Agora, porém, estava idoso, muito idoso. Tanto, que nem seria preciso abai-
xar-lhe a maxila teimosa para espiar os cantos dos dentes. Era decrépito mesmo à
distância: no algodão bruto do pêlo - sementinhas escuras em rama rala e encar-
dida; nos olhos remelentos, cor de bismuto, com pálpebras rosadas, quase sempre
oclusas, em constante semi-sono; e na linha, fustigada e respeitável- um horizontal
pêndulo amplo, para cá, para lá, tangendo as moscas."
Perceba-se que o plano descritivo guarda um sabor narrativo, contando a
história de um burrinho pedrês, não lhe faltando traços dissertativos.
Bom é de esclarecer ainda que texto não é sinônimo de literatura. Muitas são
as espécies de textos, consoante o fim a que se destinam. O texto que objetiva
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mensagem para o ensino é chamado didático, dividindo-se em diversos tipos (texto
didático de língua portuguesa, texto didático jurídico, entre outros). Por outro
lado, o texto jurídico pode ter intenção doutrinária ou fim legiferante. Há textos
para o lazer e para o refletir filosófico. Em suma, de acordo com o fim perseguido,
haverá um tipo de texto, incluindo os subtextos.
4.4 COESÃO E COERÊNCIA TEXTUAL
Como se disse, o texto é um entrelaçamento de palavras que formam um
enunciado, por sua vez, associado a outros enunciados com o objetivo de trans-
mitir uma mensagem.
Deste conceito, duas conseqüências são resultantes: a necessidade de coesão
ou unidade, ou seja, um nexo seqüencial de idéias entrelaçadas e, também, a obri-
gatoriedade de coerência, vale ressaltar, uma seqüência de idéias deve dirigir-se a
outras a ela pertinentes, com adequada relação semântica.
4.4.1 Coesão
o texto, já se afirmou mais de uma vez, não é um amontoado de palavras
desconexas. Ao contrário disso, é a escolha de relações paradigmáticas (associa-
ções livres de uma idéia-tema) e sua distribuição sintático-semântica, ou seja, a
combinação horizontal ou sintagmática de seus elementos, com seqüência. Mais
do que isso, é a urdidura de diferentes relações sintagmáticas em torno de uma
mesma relação paradigmática, com perfeita integração horizontal-vertical:
Veja-se:
1. Era um dia claro e animado. Todos queriam desfrutá-lo ao lado dos pássaros e
flores em festa. Eu só queria isolar-me do mundo, fechada no escuro da decep-
ção.
Observe-se, agora:
2. Era um dia claro e animado. Parecia que todos queriam desfrutá-lo ao lado dos
pássaros e flores em festa, ou melhor, quase todos, porque eu não conseguia
participar daquele entusiasmo. Eu só queria isolar-me do mundo, fechada no
escuro da decepção.
Comparando-se os dois textos, inegável é perceber que o texto 2 possui um
entrelaçamento de idéias mais vigoroso que o texto 1, pela preocupação com a
unidade textual.
Não é o texto, portanto, uma seqüência de termos desunidos, soltos, cada qual
atirado num canto. Chapéus e vestidos soltos numa loja pouco servem; só adqui-
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rem valor quando ajustados num corpo feminino que lhes dá graça e harmonia.
Assim também funcionam os elos coesivos, caminhando para trás (regressão) e
para frente (progressão) costurando perfeitamente o texto nestes movimentos de
vaivém, em conexão seqüencial a que se chama coesão.
Exemplos de regressão (re (para trás) + gressus-us-passo):
1. Leio com prazer as obras de Caio Mário porque ele é um ótimo jurista e possui
estilo prazeroso.
Nota: No caso em tela, o pronome "ele" é elo coesivo entre a idéia da 1ª
oração (Caio Mário) e (ótimo jurista), unindo o atributo a seu pos-
suidor. Também os conectivos "porque" (explicativo) e a aditiva "e"
cooperam para o entrelaçamento do texto, todos com movimento
para trás.
2. Houve carnificina na Casa de Detenção. A coisa ficou feia.
Nota: No caso supra, houve a regressão por meio do indeterminado "coisa"
que retoma o determinado "carnificina".
Obs.: Vê-se que os elos coesivos de natureza regressiva podem estar presentes
em um período composto ou em vários períodos simples.
Exemplos de progressão:
1. "Falta-lhe o solo aos pés: recua e corre,
Vacila e grita, luta e se ensangüenta,
E rola e tomba, e se despedaça e morre ..." (Olavo Bilac)
Nota: O polissíndeto (repetição da conjunção coordenativa aditiva) car-
rega o movimento para frente, numa caminhada angustiante rumo
à morte.
2. "Primeiro me pediu desculpas. Depois, assim sem mais nem menos, voltou a me
agredir."
Nota: A enumeração