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caminha em seqüência cronológica, ampliando as
informações textuais.
3. "Ai,palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai palavras,
sois de vento, ides ao vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e se transforma" (MEIRELLES,1958, p. 793).
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Nota: As informações sobre a "palavra" vão sendo acrescidas para dar-lhe
uma visão conceitual mais ampla. Reforça a progressão a aliteração
da sibilante s que leva o movimento para frente de forma dinâmica.
4. "Doação é contrato pelo qual uma pessoa (doador), por liberalidade, transfere
um bem de seu patrimônio para o de outra (donatário), que o aceita (Código
Civil, art. 1.165). Écontrato civil, e não administrativo, fundado na liberalidade
do doador, embora possa ser com encargos para o donatário". (Hely Lopes Mei-
relles. Direito administrativo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1991. p. 439.)
Nota: Verifique o movimento progressivo da adição de elementos informa-
tivos, centrados na palavra contrato: (a) é contrato; (b) é contrato
civil (não é contrato administrativo); (c) é fundado na liberalidade;
(d) pode estabelecer encargos.
4.4.2 Coerência
A coerência é a adequação dos elementos textuais em busca de uma unidade,
em que as idéias se compatibilizem.
Veja:
"O réu foi condenado a 5 anos e 3 meses, não lhe sendo concedido, por isso,
o beneplácito de um regime mais brando, devendo cumprir a pena em regime
fechado.
As penitenciárias de São Paulo não são adequadas e não oferecem condi-
ções satisfatórias, representando em análise última, a falência do sistema car-
cerário."
O enunciado contido no parágrafo gráfico cria uma expectativa semântica para
o desenvolvimento do discurso não havendo nexo entre esta idéia e a subseqüente,
em razão de não estar presente a unidade redacional. O fato de o sistema carcerário
de S&o Paulo ser precário não tem relação com a pena infligida ao condenado.
Observe também:
"Fui ao cinema hoje, mas estou feliz."
Verifique: a conjunção "mas" cria uma expectativa semântica de oposição,
inadequada à idéia, por não haver relação lógica entre ir ao cinema/oposição
a estar feliz. Mais próprio seria, para compreender a enunciação, o emprego da
explicativa "por isso", relação semântica compreensível e pertinente.
À unidade semântica do exemplo 1 e à adequação de elementos textuais para
transmissão de uma idéia dá-se o nome de coerência, ou seja, a rede que promove
a sintonia entre as partes e o todo de um texto.
Considerações Gerais 123
Atribuem-se a conhecido cartola do futebol paulista frases coesas mas nem
tanto coerentes, como "Quem entra na chuva é para se queimar" ou '1\gradeço à
Antarctica pelas Brahmas que nos mandou".
Bom é de lembrar que o uso sancionou formas, a rigor incoerentes: ferradura
de prata, quarentena de dez dias, bela caligrafia. Vale o mesmo para a regência de
alguns verbos, v. g., convir com, conviver com, intervir em, interpor entre etc.
Verifica-se, pois, que coerência e coesão são expressões lingüísticas bastante
próximas mas com marcas distintas, formando o que se chama de espécie de par
opositivo/ distintivo.
A coesão é sempre explícita, ligando o texto por meio de elementos superficiais
que expressamente costuram as idéias, dando-lhe uma organização seqüenciaL
A coerência, por sua vez, é resultado da estrutura lógica do texto. Indepen-
dentemente dos elementos ligativos presentes no texto, a continuidade de senti-
dos percebida pela organização de estruturas subjacentes, assegura a unidade e
adequação de idéias.
Ilustrando o assunto, serão apresentados dois excelentes textos do culto jurista
Walter Ceneviva, publicados em sua coluna "Letras jurídicas", no jornal Folha de
S. Paulo.
O primeiro deles, de 2-2-92, é exemplo modelar para um texto coerente,
cuja unidade é estabelecida pelas relações subjacentes, formando um elo indis-
sociável entre as idéias, assegurando a continuidade textual.
Leia atentamente a interessante reflexão "Capitu pegaria até seis meses de
cadeia".
CAPITUPEGARIAATÉSEISMESESDECADEIA
Walter Ceneviva
Se a discussão estabelecida depois do vestibular da Fuvest sobre o livroDom
Casmurro houvesse dado atenção ao lado jurídico da vida, teria ficado mais claro
o adultério da heroína Capitu. A prova do adultério, aceita pelo direito, e o curso
jurídico feito por Bentinho, personagem-autor da obra, em São Paulo, durante cinco
anos justificam a minha opinião, ao lado da do Otto Lara Rezende.
O livro de Machado de Assis começa sua narrativa em 1857, quando Capitu
tinha verdes 14 anos. Dedica três quartas partes ao período que foiaté 1865, quando
ela se casou com Bentinho. Tiveram um filho que era a cara, o corpo, o jeito e o
modo de falar de Escobar, amigo dileto e companheiro do marido.
Naquele tempo, apenas a esposa cometia o crime de adultério, condenado com
reclusão de três anos. Em geral não havia julgamento, porque o marido matava
a mulher (e era absolvido). O homem só incidia na injúria contra os deveres do
casamento se mantivesse concubina permanente. A lei brasileira repetia regras
milenares, que, sob desculpa de protegerem a família, tratavam diferentemente
os cônjuges. Hoje o tratamento é igual para os dois sexos, com pena máxima de
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seis meses. Ainda é um erro, pois é ridículo punir criminalmente uma pessoa pela
culpa moral da infidelidade.
A prova direta do adultério é problemática, pela dificuldade de pegar os
adúlteros nus e na mesma cama (naquilo que os juristas, doidos por um latinó-
rio, chamam de "solum cum sola, nudum cum nuda in eodem lecto"). Valem as
circunstâncias. A obra machadiana indica circunstâncias muito claras quanto à
personalidade de Capitu e de seu pai. José Dias, agregado da família de Bentinho,
dizia que "a pequena é urna desmiolada; o pai faz que não vê; tomara ele que as
coisas corressem de maneira que..."
José Dias teria sido mais severo, na experiência de seus 55 anos, se tivesse
sabido da boca oferecida por Capitu, ao primeiro beijo, e nos que vieram depois,
dando de vontade o que fingia recusar à força, sempre dissimuladíssima, nos seus
olhos de ressaca. Tanto que, perguntada sobre um rapaz que olhara, ao passar,
respondeu que o olhar era prova exatamente de que nada havia entre ambos,
acrescentando que seria natural dissimular se houvesse algo. Bentinho, lembrando
a dissimulação de Capitu adulta, recorda-a quando criança e diz que "uma estava
dentro da outra, como a fruta dentro da casca".
Nos cinco anos que Bentinho estudou direito em São Paulo, no largo de São
Francisco,dos 18 aos 22 anos, Capitu continuou no Rio, em encontros freqüentes
com Escobar (a quem Machado atribuiu olhos claros e dulcíssimos). Escobar era
experiente e desenvolto a ponto de afagar a idéia de convidar a mãe do amigo,
bela viúva, a casar-se com ele, apesar da diferença de idades.
Aconvicçãodo adultério tornou impossívela vida comum. Capitu se foipara a
Europa, como filho, Ezequiel.Anosmais tarde este, já moço, voltou para encontrar
Bentinho.Eranemmaisnem menos, o retrato vivodo antigo ejovem companheiro e
salvoas cores, mais fortes, tinha o mesmo rosto do amigo. Avoz era a mesma. "Era
o próprio, o exato, o verdadeiro Escobar".Bentinho usa a linguagem de seus estudos
jurídicos ao dizer de Ezequiel: "era o meu comborço; era o filho de seu pai..."
Ao tempo, não havendo provas excludentes, a semelhança entre o amante e
o filho era acolhida como importante elemento de prova circunstancial da relação
sexual extramatrimonial da mulher. O fato de ser amante permanente seria con-
siderado agravante do delito. Mas, há 140 anos, como agora, só haveria processo
se o marido desse queixa. Bentinho, porém, era um homem avesso a processos,
tranqüilo, civilizado,manso.
Verifique: o texto trata, do começo ao fim, de um só e mesmo assunto, enca-