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amor igual tesouro!
Graças, Marília bela
graças à minha estrela!
Leve-mea sementeira muito embora
o rio, sobre os campos levantado;
acabe, acabe a peste matadora,
sem deixar uma rês, o nédio gado.
Já destes bens, Marília, não preciso
nem me cega a paixão, que o mundo arrasta;
para viver feliz, Marília, basta
que os olhos movas, e me dês um riso.
Graças, Marília bela,
graças à minha estrela!
Irás a divertir-te na floresta,
sustentada, Marília, no meu braço;
aqui descansarei a quente sesta,
dormindo um leve sono em teu regaço;
enquanto a luta jogam os pastores,
e emparelhados correm nas campinas,
toucarei teus cabelos de boninas,
nos troncos gravarei os teus louvores.
Graças, Marília bela,
graças à minha estrela!
Depois que nos ferir a mão da morte,
ou seja neste monte, ou noutra serra,
nossos corpos terão, terão a sorte
de consumir os dous a mesma terra.
Na campa, rodeada de ciprestes,
lerão estas palavras os pastores:
"Quem quiser ser feliz nos seus amores,
siga os exemplos, que nos deram estes.
Graças, Marília bela,
graças à minha estrela!
Considerando-se que o texto resulta do entrelaçamento de parágrafos, importa
haja coesão entre eles para se lhe assegurar (ao texto) a tessitura lógica. a en-
A Redação 141
gastamento das idéias principais de cada parágrafo é que estabelece a articulação
do texto.
a exemplo do poeta e jurista Tomás Antonio Gonzaga é um modelo de texto
coeso. Há, do intróito à peroração, perfeita unidade; o assunto é sempre o mesmo;
costura-o uma só e mesma linha que não se rompe em nenhum instante.
Todas as estâncias do poema perseguem um único objetivo, têm a mesma pre-
tensão: conquistar o amor de Marília. Este é o núcleo em torno do qual gravitam
as estrofes. A poesia é, assim, um modelo de argumentação bem ordenada e coesa
que reflete a formação jurídica do autor.
a poeta - nessa época quarentão - aspira ao amor de uma menina-moça; para
tanto, tece vários argumentos:
]Q estrofe: exaltação de seu poder material: é homem de posses, tem pro-
priedades, frisando, em primeiro lugar, que ele tem residência fixa e
conhecida. Trabalha por conta própria, não é assalariado; enfim, não é
sem-terra nem sem-teto.
2Q estrofe: exaltação de tributos pessoais: à boa aparência, somam-se força
física, habilidade física e qualidades intelectuais.
Nas duas primeiras estrofes, o poeta apresenta um retrato de si mesmo.
a texto remete-nos aos chamados argumentos éticos, do grego ethos, em
que o destinador (no caso, o poeta) joga com sua imagem para persuadir
o destinatário (no caso, Marília).
3Q estrofe: é uma estância de transição, pois, a seguir, parte para outro ar-
gumento extremamente sensível à vaidade feminina.
4Q estrofe: galanteios a Marília: homem experimentado na ars amandi, apela
o poeta para a vaidade da menina de quinze anos e tece loas à beleza da
namorada; procura, assim, compensar a disparidade cronológica entre
os dois.
SQ estrofe: continua a argumentação da estrofe anterior. Até o momento, o
poeta procura induzir Marília a, com ele, convolar núpcias. É a fase da
manipulação em que se lançam mãos de alguns expedientes para provocar
uma tomada de decisão; no caso, o expediente é a sedução.
6Q e 7Q estrofes: o poeta mostra a recompensa em vida e além-túmulo. A
sanção será positiva.
5.1.3 Ênfase
É indispensável dar ênfase à idéia-núcleo, quer pela posição dos termos nas
orações e das frases no texto, quer pela expressividade dada ao pensamento-chave,
ou seja, a proposta temática.
AESPADA
142 Curso de Português Jurídico \u2022 Damião/Henriques
Alguns auxiliares da ênfase merecem destaque:
Além dessas qualidades básicas, não há olvidar-se a necessidade da clareza
e da concisão; a primeira prende-se, principalmente, à seleção de vocabulário
agradável, concorrendo para a agradável leitura do parágrafo; a concisão, por sua
vez, facilita o ato de ler, inibindo o cansaço dos textos longos.
Leia-se o precioso exemplo abaixo:
O planejamento obedece aos requisitos essenciais na composição reda-
cional: o quê? (delimitação do tema) e para quê? (fixação do objetivo).
O assunto é introduzido em (01); no desenvolvimento (02) justifica-se a afir-
mação inicial; a conclusão (03 - Portanto ...) está intimamente relacionada com
as partes anteriores.
A Redação 143
"IdentificouHegel o pensamento como 'ser'. (01) Daíver o real comoracional.
Aproximando-se de Heráclito, reconheceu que a idéia e o pensamento estão em
devenir. Como a realidade é a objetivação da idéia, encontra-se, também, em de-
venir que, em Hegel, se caracteriza pelo processo dialético entre idéias contrárias .
À idéia (tese) segue-se sua antítese; da luta entre tese e antítese, surge a síntese,
que é sempre mais real e completa, passando, por sua vez, a ser nova tese contra a
qual se erguerá outra antítese, e assim até ser atingida a idéia absoluta. (02)
Portanto, em Hegel, negação tem valor construtivo." (03)
Nota: o exemplo extraído da obra A arte de escrever (BUENO, 1961, p. 69),
atualizou a acentuação das palavras, consoante as normas hoje vigen-
tes.
Como todo e qualquer texto, o parágrafo há de conter introdução, desenvol-
vimento e conclusão, como se pode verificar no exemplo de Gusmão (1965, p .
270):
(RuiBarbosa)
5.2 ESTRUTURA DO PARÁGRAFO
necessariamente o governo da irresponsabilidade, o jubileu dos estados de sítio, a
extinção da ordem jurídica, a subalternização da justiça à força."
Verifica-se no eloqüente fragmento do fecundo representante dos clássicos
que o período longo ou, mesmo, quilométrico, próprio da época, não comprome-
teu a concisão da idéia nuclear: a inteligência, o direito e a religião são os três
poderes legítimos do mundo. A precisão vocabular, verifica-se, ajusta as idéias ao
tópico central. A propriedade semântica contribui, assim, para que o eminente
jurista teça um quadro expressivo com apenas dois parágrafos descritivo-disser-
tativos, apresentando os argumentos necessários para o perfeito desenvolvimento
do tema por ele perseguido. Além disso, veja-se no texto a unidade, a coerên-
cia e a ênfase, manipulados com esmero pelo grande cultor da língua portu-
guesa.
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a) A técnica de intercalar aos parágrafos curtos os de média extensão. Dis-
põem-se assim, v. g., duas alentadas obras: Filosofia do direito (Miguel
Reale) e Curso de direito processual penal. (Magalhães Noronha)
b) A voz ativa, porque realça a ação do agente, conforme já se comentou.
c) As repetições intencionais, como se vê na diácope ilustrativa: ':Justiça,
somente Justiça, é o que se pede aos senhores". (Leia-se mais atentamente
a Parte VII - "Estilística jurídica".)
d) O aspecto verbal para marcar o momento do processo verbal, v. g.: "A
violência do réu acabou por ofender a integridade física da vítima." Não
é à toa que José de Alencar abre o capítulo "APrece" de O guarani com
as palavras "Atarde ia morrendo". A locução verbal de gerúndio indica o
lento cair da noite e o verbo auxiliar ir no imperfeito (forma do infectum)
acentua o processo do pôr-do-sol.
e) A pontuação: funciona como condutor do pensamento do autor e marco
de expressividade das idéias. Há uma linguagem literária e uma lingua-
gem corrente; da mesma forma há uma pontuação literária e uma pon-
tuação corrente. A pontuação de um escritor dotado de personalidade
marcante será também pessoal.
"Ainteligência, o direito, a religião, são os três poderes legítimos do mundo.
Eles representam, cada um de per si, o eu humano, a sociedade humana, o destino
humano e, associados, as três expressões da humanidade: a sua evolução, a sua
existência na superfície da terra, o misterioso fim de seu desenvolvimento. Diante
deles a força, nas eras não bárbaras, se reduz a uma entidade subalterna, cuja in-
tervenção não valerá nunca senão pelos serviços de que a sua obediência for capaz.
Para a constituinte numa organização geral, a civilização adotou, como