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fechada, tudo
anunciava abandono. Certamente o gado se finara e os moradores tinham fu-
gido.
Fabiano procurou em vão perceber um toque de chocalho. Avizinhou-se da
casa, bateu, tentou forçar a porta. Encontrando resistência, penetrou num cer-
cadinho cheio de plantas mortas, rodeou a tapera, alcançou o terreiro do fundo,
viu um barreiro vazio, um bosque de catingueiras murchas, um pé de turco e o
prolongamento da cerca do curral. Trepou-se no mourão do canto, examinou a
caatinga, onde avultavam as ossadas e o negrume dos urubus. Desceu, empurrou
a porta da cozinha. Voltou desanimado, ficou um instante no copiar, fazendo ten-
ção de hospedar ali a família. Mas chegando aos juazeiros, encontrou os meninos
adormecidos e não quis acordá-los."
(Graciliano Ramos, apud CARRETERet aI., 1963, p. 29)
3. "Comprida, tortuosa, ora larga, ora estreita, a Rua do Siriri se estende desde
o Alto de São Cristóvão até a AvenidaBarão de Maroim. Mas o seu trecho principal,
porque mais habitado, vai da Rua das Laranjeiras até a da Estância.
Aí, não há mais casas de palha. São de taipa ou de tijolo, cobertas de telha.
Àsvezes pequeninas, porta e janela apenas, sem reboco, pouco mais altas que um
homem. Outras melhores, são largas, acaçapadas, com grandes beirais. Aqui e ali,
uma construção mais nova, de platibanda e enfeitada de comijas, dá ao local um
tom mais elegante e mais alegre."
(Armando Fontes, apud GARCIA,1975: 459)
4. "O gaúcho, o pealador valente, é, certo, inimitável, numa carga guerreira;
precipitando-se, ao ressoar estrídulo dos clarins vibrantes, pelos pampas, com o
conto da lança enristada, firme no estribo; atufando-se loucamente nos entreveros;
desaparecendo, com um grito triunfal, na voragem do combate, onde, espadanam
cintilações de espadas; transmudando o cavalo em projétil e varando quadrados e
levando de rojo o adversário no rompão das ferraduras ou tombando, prestes na
luta, em que entra com despreocupação soberana pela vida."
(CUNHA,1956, p. 106)
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5. "O jagunço é o homem que, sem abandonar o seu roçado ou o seu curral
de bois de cria, participa de lutas armadas ao lado de amigos ricos ou pobres.
Observadores apressados costumam ver o jagunço como um tipo à parte, na so-
ciedade do vale, trajando-se diferente dos outros, vivendo uma vida à margem das
outras vidas. Mas não há engano maior, pois o jagunço é um homem como os ou-
tros. O seu chapéu de couro é o mesmo que o vaqueiro usa. O mesmo homem que
campeia, perseguindo os bois nas vaquejadas, quando necessário, despe o gibão e o
jaleco, tira as perneiras e solta o gado, troca a vara-de-ferrão por um fuzil, quebra
o chapéu de couro na frente e vai brigar como um guerreiro antigo. Não é preciso
tirar carta de valente para ser jagunço. Jagunço todo mundo é, pois no sertão os
covardes nascem mortos."
(LINS, 1952, p. 136)
6. "Há, desde a entrada, um sentimento de tempo na casa materna. Asgrades
do portão têm uma velha ferrugem e o trinco se oculta num lugar que só a mão
filial conhece. O jardim pequeno parece mais verde e úmido que os demais, com
suas palmas, tinhorões e samambaias que a mão filial, fiel a um gesto de infância,
desfolha ao longo da haste.
É sempre quieta a casa materna, mesmo aos domingos, quando as mãos filiais
se pousam sobre a mesa farta do almoço, repetindo uma antiga imagem. Há um
tradicional silêncio em suas salas e um dorido repouso em suas poltronas. O assoalho
encerado, sobre o qual ainda escorrega o fantasma da cachorrinha preta, guarda
as mesmas manchas e o mesmo taco solto de outras primaveras."
(MORAES, 1962, p. 99)
Multiplicam-se os exemplos, mas as características básicas da estrutura des-
critiva permanecem. Coteje o leitor os fragmentos textuais acima e encontre os
traços comuns da descrição, a saber:
1. Frases curtas, com muitas elipses verbais, dando mais impressões do que
dizendo ações.
2. Verbos predominantemente no presente e no imperfeito do indicativo (o
imperfeito é o tempo da fantasia, da ação continuada e repetida).
3. Abundância de adjetivação - denotativos ou conotativos -, os adjetivos
funcionam como atributos do ser ou da coisa descritos.
4. Vigor nas especificações, procurando captar a essência do objeto des-
crito.
Diferentes são os tipos de descrição, no tocante à postura do redator e do
objeto descrito.
Lendo os exemplos, perceberá o leitor as diferenças de estilos. No texto 1,
Rubem Braga mergulha nas cataratas do Iguaçu, descrevendo-as das sensações de
seu espírito diante do quadro majestoso, para as impressões e registros externos
do objeto descrito. Daí a riqueza metafórica, envolvendo o leitor em um mundo
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de sensações até a descoberta das cataratas em sua representação simbólica na
mente de quem lê a descrição. Os verbos no gerúndio dão vida e movimento à
descrição, a mesma vida e movimento do objeto descrito.
No texto 2, Graciliano abusa dos verbos no perfeito (consummatum est), por
ser o tempo da narrativa. Trata-se de uma descrição narrativa. Os elementos são
desprovidos de sensações subjetivas porque ele pinta os pormenores significati-
vos com uma quase indiferença que choca, como chocante é o abandono trazido
pela seca. Os adjetivos "deserto", "arruinado", "mortas", "vazio", "murchas", dão
um toque de realidade crudelíssima pelo clima de fatalidade que pesa sobre o
nordestino.
No texto 3, Armando Fontes faz uma descrição objetiva, tendo os adjetivos
força denotativa e de especificação. É como se o observador estivesse fora do
campo de observação, registrando a cena sem a interferência de suas emoções.
Predomina a linguagem rápida, com muitas elipses, pintando os dados essenciais
do objeto descrito.
No texto 4, Euclides da Cunha dá à descrição um tom vigoroso, direto, conciso,
repleto de símbolos, imagens e metáforas. A linguagem é bonita e rica, permitindo
ao leitor "sentir" certo ufanismo pelo tipo regionalista, sem entender, no entanto,
muitas vezes, o sentido dos vocábulos, de pouco uso. A descrição tem um tom de
realidade objetiva, permeada de atributos grandiloqüentes, guardando neles uma
proposta dissertativa da descrição.
No texto 5, Wilson Lins tece uma descrição dissertativa, em tom quase didá-
tico. O autor, jornalista, traz à descrição o seu jargão: descreve objetivamente o
quadro, permeando-o de comentários, mas permitindo ao leitor compor o retrato
em sua mente.
No texto 6, o espírito poético de Vinicius esboça uma narração descritiva car-
regada de lirismo, trazendo certo misticismo que a imagem da casa materna lhe
transmite. A descrição emprega uma linguagem aparentemente objetiva: o quadro
é pintado sem emoções visíveis. No entanto, cada pormenor denuncia, na estrutura
de profundidade, a sensação filial. Vinicius retrata o sentimento-coletivo do filho
quando visita a casa materna vazia, dando à morte uma impressão de vida, pela
presença da saudade.
Variegadas são, pois, as formas descritivas e as atitudes do observador. Estática
ou dinâmica, realista ou idealista, histórica ou topográfica, psicológica ou social,
o que importa na descrição é captar os elementos essenciais do objeto descrito,
descrevendo-o em parágrafos curtos, rápidos, em linguagem direta e concisa,
pontificando os verbos ligativos, e na presença da predicação verbal contém-se
a ação para fincar a impressão obtida pelos verbos no presente e no imperfeito,
nos quais os atributos são mais importantes do que as circunstâncias adver-
biais.
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5.5.1 O parágrafo descritivo na redação jurídica
A descrição é empregada largamente na redação jurídica porque a narrativa
dos fatos é tecida por meio da descrição desses fatos, buscando os elementos e
pormenores que pintem o quadro, segundo a versão da parte processual.
Leia-se a jurisprudência abaixo:
"Adefesa do esbofeteado, injustamente, em público, não reclama