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em revide
a morte, mas se o indivíduo, sem possibilidade de refletir, no auge da dor moral,
maior que a física,no ato de repulsa, utilizar-se do único meio encontrado e matar
o agressor, não se lhe pode negar a legítima defesa."
(RT, 170:333)
Imagine, agora, o leitor como foi descrito, oralmente e por escrito, o crime
nas diversas fases processuais, para que os julgadores retratassem em suas mentes
uma imagem favorável à conduta do criminoso.
Valda Oliveira Fagundes, em sua preciosa obra O discurso no júri: aspectos lin-
güísticos e retóricos (1987), demonstra que as narrativas da acusação e da defesa
são construídas pela descrição dos fatos e estes elementos descritivos funcionam
como argumentos (elemento dissertativo).
Veja o discurso da acusação (p. 43-45):
"Este é o acusado. Um acusado que vem aqui e mente, se VossasExcelências
observarem, hoje ele diz que é casado, consta no outro interrogatório que ele
estava separado, procura modificar aquilo que já declarou para o próprio juiz,
procurando confundi-lo, procurando inverter pequenos detalhes para se amoldar
a uma possível e imaginária tese de defesa. É um elemento perigoso, mesquinho,
mesquinho porque quando de uma discussão com um funcionário da SAMAE,por
uma questão de água, sacou de um revólver e também atirou."
Nota: a irregularidade da pontuação fica por conta do objetivo do trabalho
da autora, qual seja, analisar os recursos fonéticos e fonológicos, repro-
duzidos na linguagem escrita a partir de gravações em sessão pública
do Tribunal do Júri da Comarca de Blumenau, Santa Catarina.
Os dados descritivos do réu: mesquinho, perigoso, mentiroso, cruel, mau
caráter, violento (presentes não apenas no fragmento acima, mas no conjunto da
narrativa dos fatos apresentada pelo Promotor de Justiça, conforme anota a au-
tora), têm a função dissertativa de criar uma imagem simbólica do acusado como
a de um elemento pernicioso à sociedade, que cÍeve ser punido.
Leia-se, agora, a versão da defesa (p. 81-83).
"Às vezes escapou que, ao invés de justiçar, passa a castigar. É o caso, senhores,
típico do acusado. Hoje pintaram um quadro aqui, que se não houvesse alguém
para rebater, o acusado apodreceria na cadeia. Excelências, nós vamos nos referir ao
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acusado, o cidadão. Honesto, trabalhador, não é vadio, não é malandro. O acusado
foi vítima das circunstâncias. Aconteceu um fato na vida do acusado. O acusado
tem uma vida anterior ao crime, e tem uma vida posterior como vou mostrar a
VossasExcelências. Não é como disse a nobre promotoria que o acusado só praticou
crimes. É o primeiro. Ele é primário. É o primeiro delito do acusado. O outro, ele
já pagou, Excelências."
Observe a versão da defesa, que procura descrever características positivas do
acusado, criando-lhe uma imagem benigna, refutando, assim, o retrato oferecido
pela acusação. Com os elementos descritivos, a defesa espera convencer o Conse-
lho de Sentença a aceitar a nova imagem do acusado: trabalhador, honesto, não
é vadio, não é malandro, argumentando-se, implicitamente, ser ele um cidadão
e, como tal, não deve ser injustiçado.
Interessante se torna ao leitor refletir sobre o conceito de primariedade que a
defesa quis passar, quase risível, mas reflexo, talvez, do jus sperneandi.
A descrição não é, conclui-se, uma técnica empregada com exclusividade no
mundo jurídico, mas que assenta os juízos dissertativos, robustecendo a narrativa
dos fatos.
Procure o leitor traços descritivos nas diferentes peças jurídicas: na denúncia,
em alegações finais, em sentenças (cíveis, trabalhistas ou criminais), enfim, sem-
pre que houver a necessidade de descrever um fato ou um ato. É a hora de dar à
linguagem um tom animado, usando os recursos técnicos da descrição.
5.6 O PARÁGRAFONARRATIVO
Toda narrativa é a exposição de fatos (reais ou fictícios) que se passam em
determinado lugar e com certa duração, em atmosfera carregada de elementos
circunstanciais.
Desta sorte, são elementos estruturais da narrativa:
a) o quê: o fato que se pretende contar;
b) quem: as partes envolvidas;
c) como: o modo como o fato aconteceu;
d) quando: a época, o momento, o tempo do fato;
e) onde: o registro espacial do fato;
f) porquê: a causa ou motivo do fato;
g) por isso: resultado ou conseqüência do fato.
De acordo com o tipo de narrativa, encontram-se presentes estes ou aqueles
elementos, podendo estar, assim, todos ou alguns deles, mas sempre há a neces-
sidade de permitir ao leitor ter um registro da cena. Também, é de se notar a
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presença do ponto de vista. Dependendo da postura temática do narrador, irá ele
evidenciar certos acontecimentos em detrimento de outros, sendo a seleção dos
dados, portanto, uma tarefa dissertativa.
A característica básica da narrativa real é o consummatum est, vale ressaltar, o
verbo no perfeito do indicativo, que indica ter ocorrido e consumado o fato narrado.
Nos contos de fada, o imperfeito cria a sensação da fantasia, do imaginário.
Também, é imprescindível na narrativa o clímax, o momento de ápice da ex-
posição do fato, que irá desembocar no desfecho ou solução (benigna ou não).
Lembre-se, ainda, que não há uma narrativa eficaz sem uma trama (o inci-
dente, a complicação, o interesse temático), que será a justificativa do próprio ato
narrativo e seu objetivo redacional.
Importante é a unidade, porque todos os fatos narrados devem inter-relacioc
nar-se em íntima conexão, sendo a disposição dos elementos responsável pela
coerência textual.
Veja o leitor alguns exemplos de narrativas:
1. ''Aosseis anos de idade partia, em cima de meu cavalo, para o que, naquele
tempo, era longe, viagem comprida, de Itaporanga à Bahia.
Tinham-me botado cedo na cama, pois sairíamos de madrugada. Meu pai
tinha essa mania ... viajar de noite. O que ele chamava madrugada era uma hora
da manhã, escuro como breu. Às vezes, nem galo cantava. Grilo só. E o esparso
rumor múrmuro da noite. Estrelas. Ruas de vaga-lumes nos pés dos cavalos. Não
sei como agüentei. Meu pai, tão cuidadoso, não via no entanto inconveniente em
criança passar noites assim em claro. Ah, quanto cochilo eu dava em cima da sela,
até sonhava. Quantas vezes não fui acordado por uma chamada brusca, um arranco
súbito nas rédeas do cavalo. 'Quem quer dormir, fica na cama'. E toca o galope, para
me despertar. E eu galopava, abria os olhos, procurava ver... não via nada."
(AMADO,1958, p. 134)
Comentários: há uma narrativa porque o autor conta um fato (mutilado no
exemplo fragmentado), ocorrido em certo tempo e espaço, tendo uma trama
como centro de interesse (a lembrança de fato do passado). Como a narrativa é
o retorno aos tempos da infância para reviver situações, o verbo no imperfeito
denuncia o imaginário das recordações que traçam dados descritivos. O diálogo,
raro e embutido na narrativa, mostra o antagonista - o pai - revelando o ponto
de vista do autor: mais do que narrar o fato, pretende apontar o autoritarismo da
educação de seu tempo.
2. "Duas da madrugada. Às sete, devia estar no aeroporto. Foi quando me
lembrei de que, na pressa daquela manhã, ao sair do hotel, deixara no banheiro
o meu creme dental. Examinei a rua. Nenhuma farmácia aberta. Dei meia volta,
nimei por uma avenida qualquer, o passo mole e sem pressa, no silêncio da noite.
Alguma haveria de plantão ... Rua deserta. Dois ou três quarteirões mais além, um
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guarda. Eleme daria indicação. Deu. FarmáciaMetrópole, em rua cujo nome não
guardei.
- O senhor vai por aqui, quebra ali, segue em frente.
Dezou doze quarteirões. Anoite era minha. Láfui.Poucoalém, dois tiposcam-
baleavam. Palavrasvazias no espaço cansado.Atravessei,cauteloso, para a calçada
fronteira. Ejá me esquecera dos companheiroseventuais da noite sem importância,
quando estremeci ao perceber, pelas pisadinhas leves, um cachorro atrás de mim.
Tenho velho