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horror a cães desconhecidos. Quase igual pelos cães conhecidos, ou
de conhecidos, cuja lambida fria, na intimidade que lhes tenho sido obrigado a
conceder, tantas vezes, me provoca incontrolável repugnância."
(LESSA, 1960, p. 124)
Comentários: o fragmento narrativo revela o tom irônico do jornalista que
narra instantâneos de sua própria vida, em ritmo dinâmico, com frases incisivas,
ao estilo do autor contemporâneo. Verifica-se que o exemplo colhido terminou no
momento em que se iniciava a trama da narrativa, com a presença do antagonista:
o cão de pisadinhas leves, tão familiares e repugnantes para o autor.
3. "Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a
invenção de se permanecer naqueles espaçosdo rio, de meio a meio, sempre dentro
da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para
estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Osparentes, vizinhos
e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho."
(ROSA,1962, p. 32)
Comentários: a narrativa em 1ª pessoa revela a visão do autor em relação ao
fato contado. Os verbos no perfeito (consummatum est) trazem a dor da situação
real, acontecida. O verbo acontecia (no imperfeito) indica a continuidade da si-
tuação no espírito do narrador, porque as horas devem ter-lhe sido penosas e o
fato difícil de se aceitá-lo verdadeiro. O momento do texto é o do início do clímax,
havendo mais intensidade na seqüência dos fatos, prenunciando o desfecho.
Se compararmos os fragmentos, verificaremos que todos eles têm uma ação,
um acontecimento a ser contado, real ou fictício, sendo a realidade marcada prin-
cipalmente pelos verbos no perfeito; o tempo imperfeito indica a continuidade da
ação ou o imaginário. Pode haver, ainda, ação no presente, trazendo para o agora
as sensações de fatos passados. Em todas as situações, a presença de elementos
descritivos traz o ponto de vista, com tom dissertativo, portanto. As circunstâncias
de tempo e de espaço fazem-se necessárias e acompanham a narrativa da ação
rumo ao clímax que irá estabelecer o ápice da tensão da trama a ser desenvolvida
no desfecho.
As frases podem ser curtas ou de extensão média, não sendo adequados os pe-
ríodos muito longos porque dariam eles um ritmo lento e monótono à narrativa.
A Redação 161
"Configura-se a qualificadora de surpresa quando a morte da vítima se ve-
rificou, estando ela a barbear-se deitada, na cadeira do barbeiro, sem ter visto
o réu que a apunhalou por trás; aí existe a surpresa. Porque ele pegou a vítima
inopinadamente e realmente de surpresa. E não é o primeiro caso, que aqui eles ha-
viam se desentendido, estavam há quinze dias emfranco desentendimento; então
ele poderia, como elemesmo admite, como afamaia mesmo admite, que eles tinham
medo do próprio acusado (g. n.)."
logicamente a uma conclusão, resultado ou conseqüência do fato vivenciado pelas
partes envolvidas.
No relatório das sentenças, a narrativa deve contar os acontecimentos proces-
suais com precisão e objetividade, sob pena de nulidade, porque não há existir,
neste momento, expressões ou adjetivações que precipitem o decisório.
Já nas Alegações Finais do Processo Penal e, principalmente, no Tribunal do
Júri, a narrativa vale-se de atributos e circunstâncias com intenção dissertativa,
como atesta o exemplo abaixo, colhido em Valda O. Fagundes (1987, p. 87):
O advogado procura indicar circunstâncias narrativas com intenção argu-
mentativa. Diz a autora que o orador não colocou lingüisticamente os fatos - perce-
bem-se no trecho erronias gramaticais - mas a entonação procurou dar a seqüência
dos fatos, evidenciando os elementos importantes do processo narrativo.
Em qualquer situação, porém, o fato é o centro da narrativa e, para contá-lo,
imprescindíveis as informações que possam especificá-lo.
5.7 O PARÁGRAFO DISSERTATIVO
~ \u2022\u2022\u2022\u2022\u2022\u2022\u2022\u2022\u2022\u2022\u2022\u2022\u2022'.\u2022\u2022\u2022\u2022\u2022\u2022\u2022\u2022\u2022De todos os gêneros redacionais, a dissertação é, por certo, o mais complexo: \u2022
exige do redator um posicionamento diante de determinado assunto, quer expres-
sando sua opinião, quer postulando uma tese. \u2022
Para tanto, há de se desenvolver um raciocínio lógico bem estruturado, adu- \u2022
zindo razões, exemplos, definições e contrastes - sempre que necessários tais \u2022 I
recursos - relacionando-os com a idéia central.
Não há, desta sorte, possibilidades de alguém dissertar sobre determinado \u2022
assunto, sem conhecimento do mesmo e, ainda, sem uma tomada de posição, que \u2022
outra coisa não é senão o tema, apoiado e~ argumentos. \u2022
Em razão disso, mais do que em qualquer outro, o texto dissertativo desen-
volve a capacidade crítico-reflexiva, pela qual o redator explana com logicidade \u2022
sua idéia. \u2022
Importante se faz ressaltar que há na dissertação o predomínio de palavras \u2022
abstratas, diferentemente do que ocorre no texto descritivo-narrativo.
, .
I \u2022
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5.6.1 O parágrafo narrativo na redação jurídica
1. Nodia 15 de maio do corrente ano, o Autor, tendo vendido ao Réu o imóvel
constituído do apartamento nº 56, do prédio denominado "MonteCastelo", na Rua
José do Patrocínio, 603, confiou a este o telefone de número 813-4672, que ali se
encontrava instalado, e do qual o autor é assinante, conforme recibo da TELESP
(doc. 2).
2. Talfato se deveu à única e exclusiva circunstância de que, tendo de proceder
à entrega do imóvel vendido, nos termos da escritura de compra e venda, lavrada
em notas do Tabelião do 26º Ofício, Livro nº 2, fls. 56, não conseguia o Autor a
retirada do referido aparelho telefônico, embora tenha pedido, por escrito, tal
retirada, desde o dia 16 de maio (doc. 3).
Ilustrando, veja-se pequeno trecho de Rebelo da Silva, de frases curtas e incisi-
vas buscando a concentração do leitor. O uso do presente histórico ou psicológico
traz a narrativa à presença do leitor e fá-lo participar mais densamente do fato.
"O toiro arremete contra ele... Uma e muitas vezes o investe cego e irado, mas
a destreza do marquês esquiva sempre a pancada.
Os ilhais da fera arfam de fadiga, a espuma franja-lhe a boca, as pernas ver-
gam e resvalam, e os olhos amortecem de cansaço. O ancião zomba da sua fúria.
Calculando as distâncias, frustra-lhe todos os golpes.
O combate demora-se.
Avida dos espectadores resume-se nos olhos.
Nenhum ousa desviar a vista de cima da praça.
A imensidade da catástrofe imobiliza todos."
o leitor poderá conciliar a leitura deste tópico com a Parte VI, antecipando
informações ali contidas sobre a presença da narrativa nas peças jurídicas, visto
ser a divisão de capítulos mero expediente didático por ser a língua portuguesa
um sistema morfo-semântico e sintático indivisível em sua estrutura, de natureza
globalizante. A narrativa está presente em todas as peças judiciárias.
Nas vestibulares - Petição Inicial, Denúncia, Reclamação Trabalhista, os ver-
bos estão no perfeito, por tratar-se de ações reais, com rara (se não totalmente
ausente) adjetivação, porque a narrativa deve ser objetiva, apresentando um fato
como retrato da verdade fática.
Veja-se o exemplo da narrativa articulada de uma Inicial, registrando, tão-
somente os fatos ali descritos.
o pequeno trecho de um modelo de Petição Inicial mostra ao leitor como
se processa a narrativa: períodos curtos, no perfeito do indicativo, indicando no
início o tempo dos acontecimentos e demais circunstâncias que permitam revelar
como aconteceram os fatos e o porquê deles, para que desta narrativa se chegue
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Os verbos assumem papel destacado na dissertação, devendo o redator evitar
formas do tipo podemos dizer;pode ser;penso, entre outras. Ao contrário disso, deve
dar preferência a verbos de valor semântico preciso, representando de maneira
clara a idéia.
Veja o leitor o exemplo:
a) O descaso com o bem público resulta graves prejuízos à comunidade.
Diferente seria,