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- nem todos os nordestinos chegam a São Paulo sem instrução e sem bens (si-
multaneamente). Definir uma meta profissional não é argumento lógico, faltando
propriedade à idéia e, por fim, a causa é equivocada.
Outras vezes, a inadequação ocorre pelo preconceito à pessoa e não à idéia
por ela partilhada. Ataca-se um ponto de vista, em razão de quem o apregoa.
Assim, tudo o que é dito por ela não tem valor. A recíproca também é falácia argu-
mentativa.
A Redação 167
o líquido corre argumentação
de ti
para os meus goles
Já se falou que existe a possibilidade dissertativa na descrição. Também aparece
nas narrativas. Sirva de modelo a fábula do lobo e do cordeiro (SILVEIRA,1948,
p. 20-21), na qual se encontram, também, perfeitamente definidas as partes da
estrutura da dissertação:
argumentação
narração
argumentação do
protagonista
narração
narração
apresentação
[Eu] na verdade
não era nascido
o cordeiro respondeu:
'Há seis meses
disseste mal de mim.'
Aquele (o lobo) rebatido
pela força da verdade
diz:
o lanígero tremendo (cheio de medo)
em resposta [diz]:
'Corno posso,
dize
fazer isso-de-que te queixas.,
ó lobo?'
Então o salteador (o lobo)
incitado pela goela voraz
trouxe um motivo de briga
'Porque, diz ele,
fizeste turva (turvaste)
a água
a mim que estou bebendo?'
"Um lobo e um cordeiro
compelidos pela sede
tinham vindo
a um mesmo ribeiro;
o lobo estava mais alto (mais acima)
e o cordeiro
muito mais baixo (muito mais abaixo).
","''''
Por fim, entre os diversos tipos de argumentação inadequada, bom é lembrar
a confusão que muitas pessoas fazem entre fato e opinião. Aquele é um só e não
precisa ser demonstrado (apesar de não ter o homem plena aptidão para percebê-
lo integralmente como ele na verdade é). A opinião, porém, é variável e precisa
ser, por isso, justificada. Acreditar que sua opinião é fato prejudica o redator em
razão de afrouxar sua observação crítica, não apresentando provas eficientes
para sustentar seu ponto de vista, tornando seu texto inexpressivo e sem força
persuasiva.
5.7.2 Estrutura da dissertação
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A dissertação, como todo plano redacional, tem começo, meio e fim. Aristóte-
les, em sua Arte retórica, estrutura a dissertação em três partes bem definidas:
a) Exórdio: É a parte introdutória; sua competência é a enunciação da
idéia-chave, indicando a tese a ser postulada, chamada pelos esco-
lásticos de status quaestionis, vale explicar, anúncio do tema. Tal amos-
tra deve ser proposta com engenho e arte, pois seu objetivo é captar a
benevolência e a atenção do leitor.
De forma esquemática, o exórdio propõe:
1. Estabelecer a idéia geral.
2. Situar o assunto no contexto.
3. Motivar o destinatário.
4. Apresentar a proposta temática.
b) Desenvolvimento: Compreende dois momentos: a explanação das
idéias e as provas comprobatórias de sua veracidade (demonstração, na
dissertação expositiva).
É a fase da reflexão, da fundamentação do trabalho.
No discurso jurídico, a matéria probante é mola mestra da dissertação
argumentativa. Faz-se mister, neste passo, distinguir entre o verdadeiro
e o que é apenas verossímil.
c) Peroração: É o fecho, o coroamento discursivo. Demonstradas as pro-
vas, cumpre ao redator retomar o tópico frasal para mostrar ter sido ele
exposto, com eficácia, no desenvolvimento.
A conclusão é a derradeira oportunidade de convencer; daí sua impor-
tância; daí por que se falar em "chave de ouro". No discurso jurídico, é
na conclusão de uma sentença, p. ex., que o juiz absolve ou condena. A
sentença absolutória ou condenatória pode até ser vislumbrada na parte
da argumentação chamada defundamentos, mas é na parte da conclusão,
chamada dispositivo, que resolve as situações a serem decididas.
,LI
TIPOS DE RACIOCÍNIO
Sem pretender esgotar as espécies codificadas pela retórica, veja o leitor
alguns tipos:
a) Apodítico (apodeiktós)
É o que se estrutura com tom de verdade absoluta: a argumentação
"fecha" as possibilidades contestatórias, sendo inteiramente impossível
ilidi-la.
Exemplo:
"Quem crer e for batizado será salvo", dizem as Escrituras.
Todo círculo é redondo. (premissa maior)
Ora, nenhum triângulo é redondo. (premissa menor)
Logo, nenhum triângulo é círculo. (conclusão)
Magalhães Noronha (1969, p. 140) estrutura um silogismo para explicar
o que é indício, expediente bastante salutar porque o leitor acompanha
o raciocínio do autor.
A Redação 169
Observe-se no tipo apodítico a presença da idéia jussiva: é categórica e
não deixa "brechas" para discussão.
b) Dialético
O racioCÍnio é aberto a discussões, permitindo controvérsias e contesta-
ção, apesar de o emissor trabalhar as hipóteses de forma a convencer o
leitor daquela que pretende seja mais aceitável.
Veja-se o caso de C. Moreno na propaganda do detergente "LimpoI", da
Bombril: enumera a qualidade de outros produtos, mas exalta as virtudes
do "LimpoI" com ênfase tal, que o consumidor se convence estar adqui-
rindo o melhor produto, ao fazer a escolha mais acertada.
c) Retórico
Concilia dados racionais e emocionais; é variante do racioCÍnio dialético,
diferindo-se dele por ampliar o envolvimento do ouvinte-alvo (leitor a
que se destina a argumentação). É o racioCÍnio preferido de políticos e
advogados.
d) Silogístico
É aquele que segue a estrutura do silogismo: duas proposições (premissas)
encadeiam-se e delas se chega a uma conclusão.
a) Premissas afirmativas - conclusão afirmativa.
b) Premissas negativas - não se tira conclusão.
c) A conclusão não pode ser maior que as premissas.
d) Premissa afirmativa + premissa negativa - conclusão negativa.
e) Duas premissas particulares - não há conclusão.
Os compêndios de Filosofia trazem algumas regras, das quais se destacam,
entre outras:
ARGUMENTAÇÃO
Argumentação, como já se disse, é a expressão verbal do racioCÍnio. Os prin-
cipais tipos são:
narração
argumentação do
antagonista
conclusão
'Teu pai,
por Hércules,
disse mal de mim.'
E assim
dilacera
o agarrado (o cordeiro que ele agarrou)
com morte injusta (matando-o injustamente)
Esta fábula foi escrita
por causa daqueles homens
que oprimem os inocentes
por motivos fingidos."
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5.7.3 Raciocínio e argumentação
Bastante feliz é a definição de Ch. Lahr (apud ALVIM, 1964, p. 55) para o
vocábulo raciocínio: é "a operação do espírito que, de uma ou de várias relações
conhecidas, conclui, logicamente, uma outra relação".
Da definição encontramos seus elementos:
a) abstração: opera-se no espírito;
b) estrutura sistêmica: relaciona idéias e juízos (matéria do racioCÍnio);
c) estrutura silogística: das partes, chega-se à conclusão (o nexo lógico da
ordenação de idéias e juízos constitui a forma do raciocínio);
d) atuação de inferências: é a operação que faz deduções: sai do conhecido
para o desconhecido (a parte conhecida chama-se antecedente; a desco-
nhecida, conseqüente).
Existe íntima relação entre os vocábulos raciocínio e argumentação porque a
expressão verbal do raciocínio chama-se argumento.
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1. Por exclusão (per exclusionem)
O redator propõe várias hipóteses e vai eliminando uma por uma, para se fixar
em seu objetivo. Pode o estudante (e mesmo o profissional) do Direito apreciar este
tipo de raciocínio em grande parte dos artigos do Prof. Dr. Damásio Evangelista
de Jesus, uma quase marca registrada do respeitado e ilustre jurista.
É bastante oportuno tal recurso argumentativo porque o leitor vai superando
as hipóteses não aceitas pelo autor para com ele abraçar a disjuntiva defendida.
No mundo literário, é o raciocínio freqüentemente encontradiço no Pe. Vieira,
célebre por sua força argumentativa.
2. Pelo absurdo (ab absurdo)
Consiste, de modo geral, em se refutar uma asserção,