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autos todos os argumentos que demonstrem a
veracidade de seu raciocínio, o mesmo fazendo o Réu. No vértice do triângulo, o
Juiz apreciará os argumentos e resolverá a demanda em favor daquele que melhor
empreendeu as técnicas do discurso persuasivo.
5.8.2 Posturas psicológicas
A escolha da postura psicológica não é a atividade exclusiva do plano disser-
tativo; importante se faz, também, na descrição e narração.
Entende-se por postura psicológica a posição do observador, do ponto de vista
participativo, ou seja, se apresenta maior ou menor envolvimento afetivo com o
assunto.
Diz-se, então, que o observador pode ter duas posições:
observador
3. observação centrada na percepção, procurando perceber a estrutura global
a partir dos elementos sensoriais;
4. ênfase para adjetivos e elementos circunstanciais: a especificação atri-
butiva impõe-se.
Algumas considerações sobre as posturas psicológicas em tela merecem ser
enunciadas:
a) Behaviorismo (behavior = comportamento)
A postura behaviorista é aquela que tem uma visão racional e objetiva do
mundo circundante, a partir da fórmula I s = r I, ou seja, Estímulo> Resposta.
O observador não interfere na realidade observada, procurando deduzir os
fatos relação de causa/efeito.
Interessante se faz ressaltar que a objetividade behaviorista, neutralizando
o "bias" e colocando com naturalidade os aspectos observados como se estivesse
fora do sistema que observa, tem valor dramático em razão de os impulsos serem
lançados de forma imparcial- muitas vezes irritantes - sobre o receptor-leitor, ca-
bendo a este último a explosão afetiva diante da realidade que lhe é retratada.
O exercício behaviorista exige uma escolha criteriosa dos vocábulos, pro-
curando dar-lhes a significação precisa, de valor denotativo, buscando sempre a
generalização: dadas as mesmas condições, uma pessoa que conhece apenas sua
experiência denotará as mesmas características, objetos e ocorrências que outra
pessoa encontra em situação análoga. Daí a possibilidade de comportamentos
estereotipados e antagônicos do tipo bom/mau.
A previsibilidade é, assim, fator importante na postura behaviorista que adota
a descrição objetiva da realidade e o comportamento condicionado a certos estí-
mulos, mesmo nos casos em que estes não produzam comportamento registrado
externamente: a presunção e as inferências criam, também, relação de causa/efeito
acolhidas pelo raciocínio, admitindo a repetição dos argumentos em situações
semelhantes.
Veja o leitor a técnica utilizada por Aluísio Azevedo em suas descrições (de
valor dissertativo) do cortiço, da casa de pensão, e de outras ambiências moral e
socialmente enfermas. Coloca-se ele neutro e impassível diante dos dados regis-
trados: não há adjetivos afetivos ou comentários apreciativos.
As palavras são secas; os verbos incisivos e os estímulos produzem respostas
previsíveis não apenas no comportamento'linear das personagens, mas também
reações esperadas dos leitores.
Chico Buarque de Holanda, em um exame intertextual, é um dos mestres
behavioristas da canção brasileira e alicerça sua ideologia no esquema de estímulo/
resposta, esta última é a formação de opinião que se instala na massa popular .
ARedação 175
campo observado
observador
Em face da posição do observador, encontram-se:
1. maior neutralidade: o observador não se envolve com a realidade obser-
vada;
2. mais objetividade: o não-envolvimento do observador resulta em obser-
vação mais objetiva;
3. observação centrada no comportamento, realizando relações de causal
efeito entre estímulos e respostas ocorridos dentro do campo obser-
vado;
4. ênfase para substantivos e verbos - agente da ação e ação (e, ainda objetos
sobre os quais ela recai).
Em face da posição do observador, encontram-se:
1. menos controle do "bias": o observador envolve-se afetivamente com a
realidade observada;
2. mais subjetividade: o envolvimento do observador resulta em observação
mais subjetiva;
174 Curso de Português Jurídico \u2022 Damião/Henriques
a) fora do campo observado: Behaviorismo
b) dentro do campo observado: Gestalt
\u2022\u2022L
A Redação 177
"No meio do caminho tem uma pedra,
Tem uma pedra no meio do caminho."
"Nem só os olhos, mas as restantes feições, a cara, o corpo, a pessoa inteira,
iam-se apurando com o tempo."
A(NE3 \u2022\u2022\u2022 )
LT
A(NE2)
LT
A(NEl)
1. Equil{brio - inércia - ponto de partida
2. Tensão - indica movimento
3. Locomoção - toda tensão (alegre ou triste) precisa ser deslocada
4. Al{vio - é um novo equilíbrio - a experiência modifica a percepção da
vida.
T
E
Nota: NE = novo equilíbrio
Bom é dizer que a postura gestáltica não só é descritiva e dissertativa, como
também delineia a própria estrutura da narrativa: toda a trama precisa ser deslo-
cada, seja o desfecho favorável ou desfavoráveL Aliás, é esse deslocamento que
encontramos na pedra do caminho de Drummond - e de todos os homens -: há
obstáculos, são superados, surgem outros obstáculos, na fórmula E/T/L/A.
A musicalidade da frase e a sinestesia 9-0 período são recursos gestálticos de
grande expressividade.
Gilberto Gil, em seu "Domingo no Parque", faz uma interessante narrativa
gestáltica. Na introdução, coloca, em tom ameno, dois tipos humanos e vai con-
tando a trajetória de suas vidas, permeando a narrativa de interferência (ô, ei),
sinais de advertência aos acontecimentos. A música cresce no ritmo até alcançar o
(Machado de Assis)
Veja o leitor que não há adjetivos, mas a competência atributiva fica por conta
da virgulação que dá o ritmo monótono, progressivo e trágico da descrição-narra-
tiva, mais acentuada, ainda, pela locução verbal de aspecto durativo, cursivo ou
progressivo, indicando o prolongamento da ação (iam-se apurando).
ALei do Equilíbrio, por sua vez, é a própria lei da vida e desenha o movimento
do eletrocardiograma:
Compõe-se das seguintes partes:
)
li
Exemplifique-se. Na música Cotidiano, o músico-poeta em tom monótono,
quase robotizado, conta que a mulher todo o dia faz as mesmas coisas no relacio-
namento conjugal: do acordar ao dormir, o comportamento é sempre o mesmo.
Poderia ele colocar alguns adjetivos, elevar a tonalidade, mas, ao contrário disso,
mantém-se neutro, fora do campo observado; a reação é previsível: o casamento
está fadado ao insucesso.
Outro exemplo, encontramo-lo em Mulheres de Atenas. Vai o compositor enu-
merando com naturalidade o que se diz atributos da Felicidade, enquanto atestam
eles a desventura da mulher submissa. O grito de rebeldia, escuta-se ele no mundo
exterior, na agitação social perseguida pela postura ideológica de Chico Buarque,
que instiga mudanças comportamentais como reação previsível aos estímulos de
suas músicas.
A redação que adota a postura behaviorista, como já se disse, é comedida
na adjetivação e procura uma musicalidade linear - buscam-se traços comuns
e trabalham-se preconceitos, objetivando reações previsíveis, e. g., o Ministério
Público, dizendo - diante do Tribunal do Júri - que não quer condenar o réu
(apenas fazer justiça) e fica insistindo em condutas sociais do acusado, rejeitadas
pelo consenso da comunidade, para construir a figura de um malfeitor, logrando
sua condenação.
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A Gestalt postula duas teses básicas em sua teoria:
1. O todo é maior do que a soma das partes.
2. A Lei do Equilíbrio.
b) Gestalt (teoria da percepção)
A fórmula matemática, que se contrapõe ao raciocínio aritmético, apóia-se na
percepção sinestésica do global - visão estruturalista da realidade.
A observação é pormenorizada, enfatizando aparentemente as partes. Na ver-
dade, a percepção afetiva de cada uma delas aumenta a emotividade do conjunto,
daí o todo ser maior do que as partes, por ser a soma delas acrescida das impressões
por elas trazidas e sentidas.
A adjetivação exerce papel assaz importante