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ao profissional do Direito, estar atento aos verbetes
do dicionário de terminologia jurídica para empregar as palavras de acordo com
as idéias do contexto.
2.5 SINONÍMIA E PARONÍMIA
2.5.1 Sinônimos
A busca, no Dicionário de Sinônimos, de uma palavra com o mesmo sentido
atende ao objetivo de eliminar-se a repetição e a conseqüente monotonia. Louve-
se o esforço, mas a asserção de que não há sinônimos perfeitos é, hoje, comum.
Por isso é que Mario Quintana diz haver apenas dois sinônimos perfeitos: nunca
e hoje.
De acordo com a Lingüística moderna, seria sinônimo perfeito aquele per-
mutável em todos os contextos. No caso de uma série sinonímica- é possível pro-
ceder à substituição de um termo por outro, em determinados contextos. Tal fato
pode verificar-se numa série sinonÍmica como:
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2.5.2 Parônimos
"Se a virgem abandonou ao guerreiro branco afior de seu corpo, ela morrerá" e
"Se a virgem de Tupã abandonar ao estrangeiro afior de seu corpo, ela morrerá."
Enfim, um termo com sentido rigorosamente fixado seria um entrave ao jogo
rico e caprichado do estilo e sufocaria a densa vegetação de significados.
Vocabulário 55
2.5.3 Usos da linguagem jurídica (sinonímia e
paronímia)
"Não confundir capitão de fragata com cafetão de gravata" ou "Carolina
de Sá Leitão com caçarolinha de assar leitão."
Não se confunda: "Habeas Corpus" e "Habeas Copos", nome de um bar.
As palavras podem ser agrupadas pelo sentido, compondo as chamadas famílias
ideológicas. Bom é esclarecer, porém: não há falar-se em sinonímia perfeita. Se é
certo inexistir tal possibilidade na linguagem usual, mais ainda o é na linguagem
jurídica.
Ilustrando a assertiva, verifiquem-se os empregos dos verbos prolatar, proferir,
exarar e pronunciar. Referem-se todos eles à decisão judicial; não representam, no
entanto, exatamente a mesma idéia. O verbo prolatar é utilizado em sua acepção
ampla: tanto significa declarar oralmente a sentença, quanto dá-la por escrito.
Proferir ajunta-se à idéia da sentença oral, enquanto exarar corresponde a lavrar,
consignar por escrito a decisão judicial. O verbo pronunciar, por sua vez, a des-
peito de significar, sentido lato, despachar, declarar, decretar a sentença, encontra
seu sentido preso ao Direito antigo que o recomenda para a decisão anunciada
em voz alta. Este uso não é seguido com rigor pela linguagem legislativa, sempre
repleta de imperfeição semântica, que elege o verbo pronunciar para referir-se ao
ato de o juiz decidir sobre a interdição de deficientes mentais, ébrios habituais e
viciados em tóxicos (art. 1.767, IH, do CC) e sobre os excepcionais sem completo
desenvolvimento mental (art. 1.767, IV;do CC), determinando que o juiz esteja
assistido por especialistas, mas examinando, ele próprio, a situação do interditando
(art. 1.771, CC).
Aliás, considerando ser seu antônimo impronunciar, palavra unÍvoca da ter-
minologia criminal para indicar decisão absolutória no homicídio doloso, escoi-
mando o acusado da incriminação e livrando-o do julgamento popular, houvesse
o rigor técnico, mais exato seria reservar o verbo pronunciar para seu sentido do
Direito Penal, ou seja, decisão condenatória nos crimes contra a vida na presença
do animus necandi, indicando que o juiz determina seja colocado o nome do de-
nunciado no rol dos culpados, sem especificação de pena, encaminhando o réu
ao Tribunal de Júri.
De igual sorte, a sinonímia dos verbos acordar e pactuar não indica uma mesma
extensão de sentidos. Pactuar, do latim pactum (de pacisci) deveria ser usado para
representar o ajuste, a combinação, a própria manifestação da vontade, enquanto
o termo acordar aplica-se mais à vontade firmada no plano concreto, i. e., estarem
concordes as partes quanto às cláusulas ou condições estabelecidas no ajuste, na
convenção, no contrato. Os romanos, conta a história do Direito, faziam distinção
entre pacta (pactos) e contracti (contratos), sendo que apenas os últimos eram
r
I
I
I
I
I
I
absorver (assimilar)
diferimento (adiamento)
discriminar (diferenciar)
distratar (romper o trato)
ilidir (refutar, anular)
ementa (resumo)
imitir (investir em)
fragrante (perfumado)
incontinente (falto de moderação)
infringir (desobedecer)
lida (trabalho)
mandado (ordem, determinação)
proscrever (banir)
retificar (corrigir)
tráfego (trânsito)
1. O termo incontinenti é encontradiço entre os juristas; Miguel Reale em
seu livro de memórias (v. 2) usa-o, pelo menos, dezessete vezes.
2. A respeito da expressão emflagrante delito, conta-se que Fernando Pessoa
enviou a um amigo uma foto dele (poeta), numa mesa de bar, ao lado
de uma garrafa, com a dedicatória: "Em fragrante delitro".
3. Relacionado à paro nímia, temos a Paronomásia, jogo de palavras com
sons semelhantes e sentido diverso. É o que fez Oswald de Andrade:
absolver (perdoar)
deferimento (concessão)
descriminar (isentar de crime)
destratar (ofender)
elidir (suprimir)
emenda (correção)
emitir (mandar para fora)
flagrante (evidente)
incontinenti (sem demora)
infligir (aplicar pena)
lide (demanda)
mandato (procuração)
prescrever (ordenar)
ratificar (confirmar)
tráfico (comércio ilegal)
Observação:
Denominam-se parônimas as palavras de sentido diverso, mas que se aproxi-
mam pela forma gráfica ou mesmo pelo som. Tal afinidade pode suscitar confusões,
gerar equívocos e levar a situações jocosas ou mesmo embaraçosas. O socorro ao
dicionário é, por certo, a melhor forma para que se evitem situações do tipo. Os
parônimos são inúmeros; citam-se apenas alguns mais relacionados com a área
jurídica:
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garantia de uma ação, porque os contratos tinham uma causa civil, fundada no
caráter sinalagmático (reciprocidade de direitos e obrigações), ao contrário dos
pactos que não importavam na existência de contraprestação, sendo, no mais das
vezes, cláusula acessória do contrato, v. g., pacto comissório (atribuição conferida
para alguém fazer alguma coisa).
Na linguagem usual, pacto guarda o sentido de ajuste de vontades que pode ser
desfeito sem garantia de ação jurisdicional do Estado, v.g., pacto de amor eterno.
Possivelmente, este uso orientou o legislador quando não disciplinou o contrato
antenupcial e sim o pacto antenupcial que, embora solene, portanto objetivado na
escritura pública, desfaz-se naturalmente se o casamento não se realiza.
Conclui-se dos comentários, a pertinência do emprego da palavra pacto nos
casos em lei determinados: pacto compromissório, pacto constituto, pacto de non
alienando, pacto de non petendo, pacto de preferência, pacto de retrovenda, pacto
dotal, pacto sucessório, entre outras espécies, reservando o vocábulo acordo para
indicar o contrato ajustado entre as partes. Este cuidado não resolve, esclareça-se,
o problema da sinonímia por serem estas palavras equívocas. Acordo trabalhista é
o entendimento entre patrão e empregado, tanto no ajuste de serviço a ser execu-
tado, quanto ao acerto realizado nos litígios. Pacto, no Direito Internacional, é o
vocábulo escolhido para designar o ajuste ou tratado celebrado entre os Estados,
chamados, por isso, pactuantes.
Exercício obrigatório ao profissional do Direito é, assim, perscrutar com
zelo os dicionários de palavras análogas e, firmada uma família ideológica, pes-
quisar os dicionários especializados para informar-se sobre os usos das palavras.
Aparentemente penosa, gratificante é a tarefa, porque o profissional, ou mesmo
o estudante, vai aprimorando sua linguagem, de sorte a não realizar trocas impen-
sadas de palavras; ao contrário, vai ajustando com precisão crescente as palavras
às idéias, nomeando o pensamento de maneira lógica e designando corretamente
a idéia na linguagem jurídica.
Se exigente deve ser a tratativa dada aos sinônimos que cuidam de idéias as-
semelhadas, mais criteriosa há de se configurar a seleção