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e regimes, da qual serão extraídos alguns exemplos
para ilustrar a importância da matéria, sem, no entanto, agrilhoá-los ao brilhante
estudo do dedicado jurista.
1. Argüir
a) A defesa argüiu a sentença de injusta em suas razões de Apela-
ção.
b) A Contestação argüiu a incompetência do juiz para conhecer do
pedido.
c) O juiz argüiu, exaustivamente, a testemunha.
Nos exemplos, o verbo argüir assume diferentes significados. No item "a",
tem o sentido de acusar, tachar de, construindo-se como objeto direto e
indireto (emprego da preposição de). Já o item "b" cuida das acepções
alegar, apresentar como defesa alguma coisa (o sentido sempre guarda a
idéia de oposição, podendo ser empregado quer como transitivo direto,
quer como transitivo direto e indireto). Finalmente, o item "c" aponta o
sentido de interrogar, inquirir, que aparece com a construção transitiva
direta, podendo, ainda, representar a idéia de indagar alguém sobre
alguma coisa.
2. Carecer
a) O autor carece de interesse para agir.
b) A acusação carece de provas mais contundentes.
No item "a", carecer significa ter falta de, enquanto o item "b" emprega
o verbo para indicar a idéia de necessitar de, precisar de.
Quanto ao emprego do verbo carecer, vale citar os Comentários à polêmica
entre Rui Barbosa e Carneiro Ribeiro do preclaro mestre Artur de Almeida
Tôrres (1959, p. 45) que registram as controvérsias em torno do verbo,
em razão de Rui, no art. 18 do Projeto, ter proposto a substituição do
verbo carecer, que assim figurava:
"Carecem de aprovação do Governo Federal os estatutos ou compromissos
de sociedades etc."
Advertia o "Águia de Haia", que o verbo carecer só poderia ser usado em
seu sentido originário, ou seja, não ter alguma coisa, ou dela ter falta.
Vocabulário 61
Por sua vez, Carneiro Ribeiro, em suas Ligeiras observações, lembrou que
o sentido do verbo carecer não se limitava ao que lhe fora dado pelos
clássicos antigos, admitindo o sentido de precisar ou de necessitar, abo-
nando-se em exemplos de Vieira e Castilho Antônio.
O implacável Rui, no entanto, vociferou em sua Réplica que não ignora-
va a existência deste sentido, "mas - acrescenta - são casos ainda mal
abonados pelo uso geral da língua, desde os seus primeiros tempos até
hoje".
3. Implicar
a) A inércia da defesa implica a revelia do réu.
b) Em suas Alegações Finais, a defesa alegou que a vítima sempre
implicou com o réu.
c) Conforme sobejamente demonstrado nos autos, o réu implicou-se
em tráfico de entorpecentes.
Atente-se às diferentes regências e sentidos do verbo implicar. No item
"a", implicar, v.t., significa acarretar, devendo ser repelida a preposição
em virtude da transitividade direta do verbo nesta acepção. O item "b"
exemplifica o sentido de "ter implicância", v. rel., que é regido pela
preposição com, não devendo ser empregado como pronominal, forma
exclusiva do sentido constante do item "c", usado na acepção de envol-
ver-se em.
4. Preferir
a) Na concorrência de vários pretendentes à remição, o que pode
oferecer o maior preço preferirá.
b) O credor cuja condição deriva de documento ou título de garantia
prefere entre os quirografários.
c) O crédito real prefere ao pessoal em qualquer espécie.
d) A defesa preferiu alegar a legítima defesa a negar a autoria do
crime.
O verbo preferir é intransitivo no sentido de ter primazia, como se vê
no item "a", emprego encontrado no art. 789 CPC, admitindo, ainda, as
construções preferir entre e preferir a, itens "b" e "c", no mesmo sentido.
Já o item "d" cuida do sentido de dar preferência, querer antes. Neste
caso, há sempre a obrigatoriedade de colocar os elementos comparados
sendo errônea a construção do tipo "Prefiro Direito Tributário", porque é
preciso esclarecer em relação a que ocorre tal preferência. Vale lembrar
ainda, que o sentido do verbo preferir "querer antes" repele advérbio de
intensidade do tipo muito mais, porque seria um pleonasmo indesejável;
também a forma a que é preferível à construção do que, cada vez mais
freqüente na linguagem jurídica.
~
62 Curso de Português Jurídico \u2022 Damião/Henriques
2.7 ARCAÍSMOS
De uma forma ou de outra, os autores sempre têm assinalado o perpétuo estado
de mudança da linguagem. Já Horácio no-lo diz naArs poetica (vv. 70 e segs.):
"Multa renascentur quae iam cecidere, cadentque
Quae nunc in honore vocabula si volet usus,
Quem penes arbitrium est et ius et norma loquendi."
"Muitos vocábulos que já morreram terão um segundo nascimento e cairão
muitos daqueles que gozam agora das honras se assim o quiser o uso em cujas mãos
está o arbítrio, o direito e a lei da fala" (Apud Ulmann, s. d., p. 10).
bem-estar
carne (viande, no francês)
vigilante da conduta dos cidadãos
mundo - imundo dita - desdita
honestar - coonestar victo - invicto, evicto
dene - indene voluto - devo luto
mentado - comentado astre - desastre
pune - impune solente - insolente
concusso - inconcusso audito - inaudito
forme - disforme nupto - inupto
grenha - desgrenhado sone - insone
diabro - diabrura consútil - inconsútil
leixado - desleixado scio - Ínscio
saúde (salvação)
vianda (alimento)
censor (magistrado que avaliava
os bens dos cidadãos)
formidável (terrível) excelente
parvo (pequeno de estatura) pequeno de cabeça
Em determinadas palavras houve arcaização da forma primitiva e permanência
delas nos compostos, como:
Vocabulário 63
O estilo pode justificar o uso de arcaísmos.
Alexandre Herculano projeta-se no passado histórico com seus romances e,
para conservar a cor local, socorre-se de termos já sepultados como defensão (proi-
bição); gardingo (nobre); donzel (rapaz); refusar (proibir) e inúmeros outros.
Cecília Meirelles, em Romanceiro da inconfidência, com o fito de recriar o
ambiente colonial, lança mão de palavras agora aposentadas: meirinho (funcio-
nário judicial); terçados (espada); dobla (moeda); palude (pântano) etc. A redon-
dilha menor, própria do período arcaico, reponta na mesma obra de Cecília:
"(Salvai-o, Senhora,
com o vosso poder,
do triste destino
que vai padecer!)"
Quem vai a Ouro Preto volta ao passado e aspira o ar dos tempos idos. Não é
de admirar que o Juiz de Direito e poeta Alphonsus de Guimaraens vivesse preso
ao passado e o deixasse transparecer em suas poesias: giolhos Uoelhos); landas
(terras); resplandor (resplendor) etc.
A linguagem jurídica, de acentuado caráter conservador, agasalha vários ele-
mentos arcaicos. Algumas amostras:
r
I
I
I
I
I
Hoje
~
embusteiro, malandro
Ontem
~
tratante (que trata, cuida)
5. Ter
Consoante a gramática clássica, há diferença semântica do verbo ter se
modificado pelas expressões de/que.
Assim, ter que significa uma ação pretendida, mas não absolutamente
necessária - O advogado tem que visitar seu cliente na prisão.
Há um compromisso que não é absolutamente necessário.
Todavia, ter de implica necessidade imperativa - O advogado tem de
visitar seu cliente na prisão.
Nessa frase, há necessidade absoluta, entendendo-se imperativa essa
visita.
Cherry (1974, p. 129) fala que se tem comparado a linguagem à mutável
superfície do mar e ao cintilar das ondas. Cunha (1975, p. 24) afirma que a lín-
gua, por ser criação da sociedade, não pode ser imutável; antes, deve viver em
perpétua evolução.
Palavras, expressões e tipos de construção sintática caem em desuso, saem
de circulação. A essas formas que cumprem sua missão em determinada fase da
história e, depois, desaparecem na escuridão dos tempos, dá-se o nome de arcaís-
mos. Costumam ser subdivididos em léxicos, morfológicos e sintáticos; o presente
trabalho interessa-se pelos primeiros (arcaísmos léxicos).
Arcaísmos léxicos são as palavras caídas em desuso por desnecessárias ou por
força de substituição, como chus, evolução normal de plus, sobrevivente apenas
na expressão "não dizer chus nem bus"; duana, presente ainda em, v. g., imposto
"aduaneiro";