Curso de Português Jurídico.pdf
150 pág.

Curso de Português Jurídico.pdf


DisciplinaEst Sup Lin Portuguesa I5 materiais30 seguidores
Pré-visualização50 páginas
crescente aprimoramento
dos mecanismos da linguagem e, em particular, para o uso correto das expressões
constantes do repertório de uma língua. Limitamo-nos, pois, à indicação de alguns
problemas:
Vocabulário 71
a) Afim de: muita confusão se faz entre as expressões afim de e afim de,
substantivo e locução conjuntiva, respectivamente.
Assim, grafa-se separado em frases do tipo:
O advogado solicitou diligências a fim de verificar a saúde mental do
acusado.
Verifica-se, ainda, a forma afim (afins), adjetivo designativo de seme-
lhança.
b) A final: na linguagem jurídica, é bastante comum a expressão a final
com a significação de por último, finalmente, no término da demanda, e.
g.:
Solicita, a final, seja considerado improcedente o pedido, condenando-se
o autor às custas processuais e honorários advocatícios.
Tal emprego, porém, há de ser evitado, não só pela natural confusão
com o advérbio afinal (sentido de enfim), quanto por requerer, nesta
construção, a presença do artigo "o", em razão de a intenção semântica
ser entendida assim:
Solicita, ao final (ao término do processo), seja considerado improce-
dente ...
Correto é o emprego da expressão final, se acompanhada da preposição
até:
Requer a citação do réu para contestar, querendo, sob pena de revelia, pros-
seguindo-se até final do julgamento, quando deverá ser condenado ao pagamen-
to do pedido, das custas, dos honorários advocatícios e demais cominações.
c) Ao invés: comum é a troca entre as expressões parônimas. Todavia, ao
invés só deve ser usada quando presente estiver a idéia de oposição, de
ser contrário a. Exemplificando: Ao invés de confessar a autoria do delito,
como todos esperavam, o réu negou qualquer participação no crime.
A expressão em vez de não exige o sentido de situação antônima; basta a
idéia de mera substituição: O advogado, em vez de dirigir-se ao cartório,
despachou diretamente com o juiz.
d) Ao par: inconveniente é o emprego com significação de estar ciente,
situação em que a expressão corr~ta é a par, e. g.: O advogado disse a
seu cliente estar a par de todas as providências solicitadas pelo juiz.
A expressão ao par de é própria da linguagem das operações de câmbio,
além de seus usos mais comuns, vale esclarecer, conjunto de duas coisas
semelhantes, indicativo de macho e fêmea, entre outros.
72 Curso de Português Jurídico \u2022 Damião/Henriques
e) A partir de: significa a começar de. Portanto, não se diz "começará a
partir da próxima semana (referindo-se às aulas), e, sim, começará na
próxima semana.
Correto é o emprego da expressão a partir de se, na condição circunstan-
cial de tempo, estiver deslocada para antes do verbo começar: A partir
da próxima semana, começarão as inscrições do concurso vestibular.
t) Através: a expressão refere-se a "de lado a lado, por meio de alguma
coisa".
Considerando seu valor semântico, ainda que largo o uso, não deve ser
empregada com valor de por meio de, mediante, em frases do tipo:
A parte sucumbente recorreu da sentença que lhe era adversa, mediante o
remédio cabível, ou seja, apelação.
g) De encontro a: é muito comum a troca das expressões ir de encontro
a (contra) por ir ao encontro de (a favor).
Assim, não há confundir-se:
As provas da defesa foram de encontro à tese da acusação, destruindo-a
por completo.
A tese da defesa vai ao encontro dos repoimentos das testemunhas.
h) Estada: não raro, bons profissionais,do Direito referem-se ao ato de
estar em algum lugar por certo tempo como "estadia". Ora, estadia é a
permanência de veículos em garagem ou estacionamento, ou de navio
no porto. Em referência a pessoas (e também a animais) o correto é
"estada".
Para o advogado, a estada de seu cliente na prisão, ainda que temporária,
trouxe-lhe prejuízos irreparáveis.
i) Haja visto: é correta esta expressão quando se referir ao perfeito do
subjuntivo do verbo ver: Duvido que a testemunha haja visto o acidente
da maneira como o descreveu.
Todavia, indicando "que sirva de modelo", "que mereça exame", a ex-
pressão é haja vista:
o sistema carcerário brasileiro está falido, haja vista as últimas rebeliões
dos presídios.
Considera-se construção erudita a regência com a preposição "a":
o Brasil viveu momentos de intranqüilidade econômica, haja vista aos
acontecimentos que movimentaram o mercado nos últimos dias.
Vocabulário 73
É correta, apesar do pouco uso, a construção hajam vista os aconteci-
mentos, embora se vá fixando como a mais aceita a expressão invariável
haja vista.
j) Inclusive: não é bom o empregd da expressão antes da idéia que se
diz incluída, e. g.:
Todos estavam ansiosos com o resultado, inclusive os próprios jurados.
Mas:
Todos estavam ansiosos com o resultado; os próprios jurados, inclusive.
É correto, porém, o emprego da forma incluindo antes da idéia a que se
refere:
Todos estavam ansiosos com o resultado, incluindo os próprios jurados.
1) Meio/meia: importa dificuldade sintática a troca do advérbio meio pelo
adjetivo meio em razão de só este último admitir a flexão de gênero.
Erronias crassas da espécie: "Ela andava meia preocupada" podem ser
facilmente superadas se a escolha morfológica se der pelo significado.
Desta sorte, indicando a idéia de "um pouco", temos o advérbio: "Ela
andava meio (um pouco) preocupada."
No sentido de "metade", empregamos o adjetivo:
Ele tomou meia (metade) garrafa de vinho para comemorar a vitória.
ou:
A audiência começará a meio-dia e meia (metade da hora).
m) Quite: a expressão é, muitas vezes, tomada por invariável, o que repre-
senta falácia sintática por tratar-se de adjetivo, portanto, variável:
Aquele jovem está quite com o serviço militar.
Aqueles jovens estão quites com o serviço militar.
Inúmeros outros exemplos poderiam perfilhar aos aqui elencados. De resto,
espera-se o interesse pela pesquisa nas gramáticas e a leitura atenta dos usos da
linguagem dos bons autores.
2.13 REPERTÓRIO VOCABULAR JURÍDICO
Cada língua técnica possui seu inventário vocabular próprio o que permite
linguagem mais precisa.
74 Curso de Ponuguês Jurídico \u2022 Damião/Henriques
Indispensável é a consulta em dicionários especializados, com terminologia
técnico-jurídica que precisa ser incorporada, ao longo da vida, pelos profissionais
jurídicos.
Vejam-se alguns exemplos:
\u2022 Abandono: palavra equívoca, com diversas variações semânticas: em
Direito das Coisas, área cível, significa desistência do proprietário pela
coisa possuída, sendo, assim, forma de perda de propriedade por atitude
e gestos.
Na esfera processual, há abandono da causa, quando a parte deixa de
praticar atos processuais por período em lei determinado.
Há, no âmbito trabalhista, abandono do emprego pela ausência injusti-
ficada do empregado, conforme previsão legal.
Se no abandono da coisa (derrelito) não há traço semântico negativo,
via de regra há sentido recriminatório, e até mesmo de ilícito penal, em
alguns tipos de abandono, e. g., abandono do incapaz, abandono inte-
lectual.
\u2022 Achádego: significa a recompensa a que tem direito quem encontra
coisa perdida.
\u2022 Aprazar: fixar prazo para que se cumpra uma obrigação negociaI.
\u2022 Arbitramento: tem a mesma origem de arbitragem, que significa pro-
cedimento extrajudicial para solucionar litígio.
O arbitramento, na linguagem jurídica, diz respeito ao valor, ou à apre-
ciação econômica, elemento da avaliação.
\u2022 Aval: é garantia prestada por terceiro estranho ao negócio, na esfera
empresarial, constando de título de crédito (letra de câmbio, nota pro-
missória, duplicata, cheque) não se confundindo com fiança, ato pelo
qual alguém (fiador) garante (no todo ou em parte) o cumprimento de
obrigação contratual assumida pela parte da qual ele é fiador.
\u2022 Avença: forma arcaica que significa ajuste contratual. É comum seu
uso para completar o nome de um contrato, e. g., Contrato de Compra
e Venda e outras avenças.