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os amantes num só corpo e numa só
pessoa; esta idéia é que levou, por certo, ClarÍCe Lispector a se afastar das normas
gramaticais para ressaltar a idéia de plena unidade no seguinte passo: "Eu sou
tua, e tu és meu, e nós é um."
Percebe-se, pois, que há razões que transcendem a gramática e justificam esta
ou aquela concordância.
Sousa da Silveira (1948, p. 34) cita um texto interessante do Pe. Bernardes
relacionado com a concordância do substantivo:
"Saiu um religioso com este arbítrio: que eles, revestindo-se daquele espírito de
humildade e simplicidade com que seu seráfico patriarca a todas as criaturas cha-
mava irmãs: irmão sol, irmão lobo, irmã andorinha etc., pusessem demanda àquelas
irmãs formigas, perante o tribunal da DivinaProvidência, e sinalassem procuradores,
assim por parte deles autores como delas RÉUS." .
-
Frase 87
Carlos."
"Advogado sou há cinqüenta anos..." (Rui Barbosa)
Como é que pode? Abraçosmil do
carga conotativa
pobre preso
distinto causídico
grande juiz
simples advogado
ou\u2022 carga denotativa
preso pobre
causídico distinto
juiz grande
advogado simples
A mesma quebra de tratamento pessoal vê-se no trecho abaixo de Frei Tomé
de Jesus, escritor de pura cepa clássica e de reconhecida autoridade:
''l\.doro-te, Verbo divino encarnado, adoro-te, Filho de Deus vivo huma-
nado, adoro-te, Deusmeu verdadeiro, vestido de minha mísera carne, e mortalida-
de. Chegastes, desejado dos Santos Padres: chegastes, saúde das almas, verdadeira
vida, e bem-aventurança dos errados pecadores. Já se não gabará o Céu de ser ele
só vossa casa, pois já aqui vos tenho unido a minha humanidade, morador do meu
degredo, e companheiro destas terrenas moradas."
(Apud SILVEIRA,1955, p. 377)
3.3.3 Colocação
Ditam-se algumas normas para a distribuição das palavras na frase ao se ela-
borar uma oração, a saber, em primeiro lugar o sujeito e seus agregados; a seguir,
o predicado e complementos. A esta disposição dos vocábulos na oração dá-se o
nome de colocação.
Fala-se em ordem direta ou natural quando se dispõem os elementos na ordem:
sujeito + predicado + complementos.
Há, também, a ordem indireta ou inversa, caracterizada mais pela ênfase, pela
carga afetiva, pela influência e ritmo das palavras e pela criatividade dos bons
autores. O estilo, pois, dita a ordem indireta que se contrapõe à ordem direta e
que a esta deve sobrepor-se.
A ordem das idéias deve corresponder à ordem das palavras na frase; a inversão
concorre para realçar determinado elemento da oração. Exemplos:
Falando aos advogados, Rui quis frisar sua profissão; quisesse frisar o tempo
de trabalho diria: Há cinqüenta anos, sou advogado.
Enfim, pode-se jogar com a colocação das palavras na frase desde que a es-
trutura frasal não seja ferida.
A distribuição dos elementos numa oração depende de alguns fatores:
1. Regência nominal: estabelece-se entre o nome e seus dependentes.
Exemplos:
''l\.pessoa obrigada a suprir alimentos ..." (CC, art. 403)
2. Regência verbal: constituída entre o verbo e seu complemento ou ad-
junto. Regência verbal acontece com verbos intransitivos, transitivos diretos ou
indiretos. Há de se registrar que verbos intransitivos se usam como transitivos;
em tais casos, o leitor atento perceberá que o objeto direto é cognato do verbo e
se faz acompanhar de um elemento especificador. Exemplos:
a) Vivia uma vida faraônica. (radicais idênticos)
b) Dormiu um sono agradável. (objeto direto interno reforça o conceito
verbal)
Leia-se, a propósito, Almeida Tôrres (1959, p. 20-23):
"Em latim, dava-se a mesma regência e o exemplo mais em voga era 'mirum
somniavi somnium'."; Almeida Tôrres (1959, p. 22) cita outro exemplo de Plauto:
"modice et modestius est vitam vivere".
Por seu turno, verbos transitivos aparecem intransitivos elidindo-se o objeto
direto, complemento obrigatório. É o que Mário Barreto chama de "acusativo
tácito".
A sanção do uso é que estabelece a transitividade ou intransitividade dos
verbos.
A afetividade e a linguagem familiar podem alterar a regência verbal e explicar
o desvio de tratamento pessoal; é o que se pode verificar numa carta de C. D. A.
a Hilda Hilst, estampada na Folha de S. Paulo (6-4-91):
Diz-se regência a dependência de palavras com relação a outras na oração. A
forma regente é a que governa; a forma regida é a que sofre dependência.
Fala-se, no caso, em:
3.3.2 Regência
"Hilda: merci pelo telegrama.
Claro que também te desejo todas as coisas boas em 53 e pelo tempo adiante.
Visua carta ao Cyro. Jamais estive zangado contigo. V. é uma boba.
''l\.instituição do 'habeas corpus', portanto, significa um avanço ético..." (Adauto
Suannes)
Réus (masculino) refere-se a formigas (feminino); é que o substantivo réus
está em sentido amplo, abrangendo também o feminino. O mesmo acontece na
expressão in dubio pro reo.
86 Curso de Ponuguês Jurídico \u2022 Damião/Henriques
Curso de Português Jurídico \u2022 Damião/Henriques
abrasa
lampeja
"Miguel, Miguel! Não tens abelhas e vendes meL"
Frase 89
\u2022 Eufonia: tem importância capital na disposição das palavras na frase; a
colocação pronominal, v. g., é, essencialmente, questão de eufonia.
Cumpre lembrar que, hoje, a praxe estabeleceu a ordem inversa em orações de
caráter imperativo, como "execute-se a sentença", "cumpra-se a lei", "revoguem-se
as disposições em contrário".
Vale atentar-se para a boa colocação das palavras para que se evitem frases
obscuras ou, mesmo, ambíguas. Vejam-se os exemplos apontados por Mário Bar-
reto:
Tem uma nódoa no seu casaco de gordura.
Pôs o chapéu na cabeça de três bicos.
Houve uma efusão de sangue inútil.
Mando-te uma cadelinha pela minha criada que tem as orelhas cortadas.
3.4 ASPECTOS ESTILÍSTICOS DA ESTRUTURA
ORACIONAL
"Fabiano, meu filho, tem coragem. Tem vergonha, Fabiano."
(ANDRADE; HENRIQUES, 1992b, p. 69)
Um enunciado, simples ou composto, como se viu, possui ênfase quando a
posição dos termos oracionais dá realce à idéia principal.
A energia frasal depende, pois, do lugar - começo ou fim - em que se encontra
a palavra de valor.
Ao lado disso, a tonalidade afetiva da combinação de sons será responsável
pela linguagem expressiva: a sonoridade evoca na mente cargas semióticas posi-
tivas ou negativas, funcionando como um reforço do significado.
Em uma frase, portanto, não basta a escolha de palavras para traduzir de
maneira firme o pensamento; a frase estilística requer, ainda, uma seleção voca-
bular cuidadosa e paciente para obtenção de um sistema fonológico capaz de
trazer em si um estado afetivo.
Não é suficiente, porém, o efeito semântico dos sons. É imperativo reconhecer
que há palavras fortes e fracas; simpáticas e antipáticas; enérgicas e apáticas, até
em nível de sociolingüística, vale explicar, o valor a elas atribuído nas relações
socioculturais.
Também, no repertório de uma língua são encontrados termos literários e
coloquiais, sendo exigível a seu usuário usá-los consoante o tipo de comunicação
que está sendo realizado. Neste passo, a escolha do termo exato para traduzir a
idéia é ponto fundamental da boa linguagem. É preciso observar, ainda, que a
situação lingüística indica o sinônimo pertinente à tonalidade afetiva. Dizer que a
"r-'
(Rui Barbosa)
brame
Então a palavra se eletriza
fulmina I
b) Gradação: parte do menor para o maior à busca do clímax. Exem-
plo:
Graciliano Ramos joga com o vocativo no início e fim do período, for-
mando um quiasmo:
a) Pleonasmo enfático: promove a antecipação do objeto direto, objeto
indireto, predicativo. Exemplos:
''A anulação do casamento, nos casos do artigo precedente, só a poderá
demandar o cônjuge enganado." (Apud KASPARY,1990, p. 122)
''Aopobre, não lhe devo." (R. Lobo)
"Opiniático, egoísta e algo contemplador dos homens, isso fui." (M. de
Assis)
Todos conhecem o ditado "mais vale um cachorro amigo do