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que um
amigo cachorro". Cite-se, ainda, um exemplo de Noronha (1969, p. 8):
"O maior vulto é, então, Cesare Beccaria, com seu 'pequeno grande livro'
Dei delitti e delle peni".
\u2022 Realce de função com fórmulas estereotipadas, como Meritíssimo Juiz,
Colendo Tribunal, Egrégio Tribunal, Egrégia Corte, Magnífico Reitor,
Reverendíssimo Padre e outras. Observe-se que tais fórmulas aparecem
com maiúsculas e com idéia ou forma superlativas.
\u2022 O uso de figuras literárias pode alterar o posicionamento de palavras
na frase para efeito de clareza, elegância ou ênfase. Vejam-se alguns
casos:
\u2022 Vocativo: não tem cadeira cativa na frase, mas, normalmente, encabeça
a frase em função de seu caráter apelativo; sobejam exemplos:
"Teodomiro, tu hoje és Duque de Córduba ..." (A. Herculano)
"ó Bruno! Não se esqueça do varal da lanterna do portão!" (A. Azevedo)
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vítima sofreu nas mãos de seu algoz não é o mesmo que dizer de seu padecimento.
Sofrer é dinâmico, consegue liberar reações próprias do estado negativo. Padecer,
no entanto, é estático; é sofrimento silente, por conseguinte, mais doloroso.
Na construção frasal, a configuração módica dos vocábulos acentua sua ex-
pressividade. Assim, até os prefixos e sufixos encontram-se carregados de intenção
significativa, impondo às palavras a cunhagem de efeitos estilísticos. Na linguagem
jurídica, aumenta a responsabilidade do bom desempenho frasal, por ser o período
simples ou composto - o veÍCulo comunicativo por excelência.
3.4.1 A frase completa simples
Como se viu anteriormente, o elemento sintático estabelece a intencio-
nalidade da idéia, sendo a frase completa simples, desta sorte, um recurso estilís-
tico para a expressão do pensamento.
Já foi dito que na significação nominal o fator direção intencional prende uma
caracterização à existência real ou ideal de determinado objeto, dando-lhe um
aspecto estático e valorativo.
Vejam-se as frases:
Aquele homem é medroso.
O céu está escuro.
O campo está verde.
Em todos os enunciados acima há uma relação íntima e estática entre homem/
medroso; céu/escuro; campo/verde.
Todavia, o conteúdo do verbo nocional da predicação verbal dá à frase uma
intenção dinâmica, separando o que antes era inerente a um objeto, de modo a
transformar atributos em ações, e. g.:
Aquele homem tem medo.
O céu escureceu.
O campo verdejou.
Considerando o fator de intencionalidade, é de se notar:
a) Pela sentença, o réu é culpado.
b) A sentença condenou o réu.
Na estrutura "a", o atributo culpado prende-se de forma íntima ao sujeito
"réu", dando ao substantivo uma idéia com tal aderência que o leitor se convence
da culpa do acusado. Verifique-se, ainda, que o complemento circunstancial deslo-
cado para o inÍCio da frase persegue dupla carga intencional. De um lado, parece
restringir o efeito de aderência do atributo culpa ao réu, colocando em destaque
Frase 91
o instrumento de formação da culpa. Por outro lado, porém, sendo a sentença o
ápice de um processo, despertando naturalmente a idéia de aplicação de Justiça,
realça o efeito do atributo.
Na estrutura "b", a condenação perde o caráter de atributo para assumir o papel
de ação. Assim, a culpa não é atributo do réu. Sofreu ele, pelo contrário, a ação
condenatória da sentença. Com isso, a discussão judicial vem carregada de efeito
"autoritário", admitindo uma controvérsia mais acentuada de sua validade.
Veja-se, agora, a frase:
o juiz aplicou pena severa ao homicida.
Na estrutura frásica acima, identificamos um período simples, expresso por
meio de uma frase completa simples.
Verifique-se que cada uma das palavras, isoladamente, apresenta um conteúdo
material, vale dizer, uma significação interna ao objeto de sua qualidade:
juiz é autoridade provida de credibilidade;
pena é castigo para o que pratica conduta em lei proibida;
homicida é palavra carregada de afetividade negativa para designar o que será
punido em razão de conduta criminosa.
Observa-se que a ação sígnica é interpretada por um código ideológico parti-
lhado por todos os membros de um mesmo grupo social, constituindo um sistema
semântico de valores socialmente qualificados, que os indivíduos de um grupo
cultural recebem prontos. Em conseqüência disso, a palavra severa perde o valor
de injustiça para representar idéia contrária, no caso, justiça, por ser aplicada não
a um aCl,lsado qualquer, mas a um homicida. Se o grupo sociocultural entende que
a conduta de um homicida é altamente repulsiva, aceitará a idéia de o Estado,
defendendo o bem comum, ampliar sua ação de apenar os que não se ajustarem
às legitimações do grupo.
O leitor (interpretante ideológico) irá guiar-se pelos sentidos valorativos das
ações sígnicas, entranhado que está num persuadere retórico que é tanto mais
eficaz quanto mais estimuladas as associações significativas.
Como se verifica, cabe ao emissor selecionar e combinar as palavras em um
texto, de forma a provocar a apreensão d,a direção intencional do pensamento.
Por essa via, irá ele acionar uma interpretação pretendida da frase, exibindo ela,
desta sorte, a petição do princípio que a intenção argumentativa dos vocábulos
estimula na decodificação da frase. No mundo jurídico, esta instância de manifes-
tação (frase com intenção semântica direcionada) é de grande importância, em
razão do caráter persuasivo de seu discurso.
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3.4.2 O fator psicológico da estrutura frásica
A linguagem, como se viu, é suporte de manifestações significativas, percebidas
pelas relações combinatórias de palavras carregadas de direcionalidade.
Para Robert F. Terwilliger (1984, p. 11), em sua valiosa obra Psicologia da
linguagem, "encara-se a linguagem como atividade ou processo mental, que é, por
essência, consciente, significativo e orientado para o social".
Assim, uma simples frase, pela qual se quer expressar uma idéia ou impressão,
requer um intrincado processo mental para a transmissão do pensamento.
Os períodos curtos, nesta concepção psicológica da frase, denotam uma es-
pécie de humanidade fragmentada e intranqüila. São ótima opção para o autor
contemporâneo que busca retratar um século em crise existencial.
Também, escritores há que intercalam períodos curtos e longos; estes últimos,
de natureza labiríntica - as orações subdividem-se em segmentos carregados de
informações, dificultando a apreensão do pensamento.
Os períodos excessiva ou seguidamente curtos (frases entrecortadas) e os muito
longos (frases centopéicas) não são recomendados para o efeito psicológico da
frase jurídica, porque dela se espera usuários equilibrados, de lucidez disciplinada,
porque é por meio dela que o profissional do Direito defende interesses, acusa
criminosos, absolve ou condena.
O processo frasal equilibrado faz uso inteligente dos pormenores.
Observe-se o exemplo adiante:
"Diz-se pura a doação, que se celebra sob a inspiração do ânimo liberal ex-
clusivamente, isto é, que envolve a mutação do bem no propósito de favorecer o
donatário, sem nada lhe ser exigido e sem subordinar-se a qualquer condição, ou
motivação extraordinária." (Caio Mário da Silva Pereira, Instituições de direito civil,
1992, p. 174)
A definição encontra-se concentrada na idéia:
"Diz-sepura a doação que se celebra sob a inspiração do ânimo liberal exclu-
sivamente."
O leitor-interpretante sabe que doar é dispor gratuitamente de bens ou
vantagens de seu patrimônio por liberalidade. Na definição em tela, portanto, a
palavra-chave é "exclusivamente".
Assim, os pormenores que se alinham à idéia têm função explicativa da ex-
pressão "exclusivamente", perfilhando as orações com elegância e clareza.
Do ponto de vista psicológico, a linguagem é, ainda, um organizador de cogni-
ção, explicando as idéias por meio de comparações e contrastes, provas e razões,
causas