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de lingüístico-comunicativa. Antes de definição no sentido filosófico da palavra,
busca-se apresentar dados esclarecedores sobre as palavras, a fim de que o leitor
possa ter uma compreensão efetiva da importância da atividade discursiva na
produção e recepção de textos.
4.2 ALGUMASDEFINIÇÕES
4.2.1 Texto
O termo texto é proveniente de textus-us, vinculado ao verbo latino texere
(texo-is-texui-textum), com o sentido de tecer; enlaçar; entrelaçar; lembrando, por
isso, o trabalho do tecelão em urdir os fios para obter uma obra-prima harmô-
nica. Assim também o autor de um texto tece as idéias, enlaça as palavras, e vai
construindo com habilidade um enunciado (oral ou escrito) capaz de transmitir
uma mensagem, por constituir um todo significativo com intenção comunicativa,
colocando o emissor em contato com o receptor.
Texto é, também, qualquer imagem - "charges", "quadrinhos", "figuras" e
"desenhos" que transmitem uma mensagem, v. g., as imagens de abdomens bem
torneados de dois homens e de uma mulher, sem qualquer enunciado escrito, para
veicular publicidade de certo refrigerante diet, merecedora, inclusive, de premia-
ção internacional, porque as imagens falam por elas mesmas: o inconveniente de
"barrigas" indesejáveis à estética masculina ou feminina não se encontra nos con-
sumidores daquela marca de refrigerante, ocasionando um prazer sem culpa.
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Por texto entende-se, assim, a mensagem, a informação, o discurso. É ele
uma série de signos que visam a tomar os signos referentes de si próprios, crian-
do um campo referencial específico. Um quadro, uma dança, uma canção ou um
enunciado constituem textos, resultantes da combinação de formas, cores, sinais,
distribuídos no espaço.
Na produção textual, vários elementos são necessários, entre eles a compe-
tência.
Como já foi dito, a produção textual requer o conhecimento do código, para
a combinação satisfatória de signos de um sistema lingüístico, a que se denomina
competência, que irá permitir o desempenho adequado da atividade lingüística.
4.2.2 Contexto
A formação da palavra denota sua significação, ou seja, com o texto, co-
texto.
Assim entendido, todas as informações que acompanham o texto constituem
o contexto, colaborando para sua compreensão.
O conceito mais atual de contexto remete, aos estudos da visão semiótica
em que os elementos verbais, paralingüísticos (ritmo, entonação, entre outros) e
não-verbais (leituras comportamentais da mensagem, por exemplo) se entrelaçam
para a transmissão da mensagem.
O contexto é percebido em duas dimensões: estrutura de superfície e estrutura
de profundidade.
Veja-se o exemplo:
"Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para
a luta." (Raul Pompéia)
A leitura de superfície é percebida pelos elementos do enunciado, organizados
hierarquicamente. Assim, o ''Ateneu'' é complemento circunstancial de lugar, mas
que, na primeira oração, representa o objeto direto "o mundo", constituindo-se
em referente importantíssimo para o conteúdo textual.
Já a estrutura de profundidade é a interpretação semântica das relações
sintáticas, permitindo vasculhar o ânimo do autor, ou seja: o Ateneu é circunstân-
cia de lugar, mas é elemento principal que se relaciona com o objeto da relação
homem/mundo. A idéia da dificuldade problematiza a organização da oração:
(tenha) coragem para a luta (completou meu pai). Resta uma frase elíptica que
mostra a escola/mundo como luta, a exigir coragem do aluno/ser vivente. Até a
entrada para a escola, a criança está protegida pela instituição primária faml1ia.
Ao sair de seu cuidado exclusivo, relaciona-se com o saber, com o conhecer, com
o desvendar o mundo, com o relacionar-se com outros valores, precisando rees-
truturar-se no momento em que está ainda estruturando sua personalidade.
Considerações Gerais 109
Conclui-se que a produção e recepção do texto se condicionam à situação ou
ambiência, vale esclarecer, ao conhecimento circunstancial ou ambiental que mo-
tivam os signos e a ambiência em que se inserem, gerando um texto cuja coerência
e unidade são suscitados diretamente pelo referente.
Costuma-se falar em vários tipos de contexto:
a) Contexto imediato: refere-se aos elementos que seguem ou prece-
dem o texto imediatamente, incluindo as circunstâncias que o motivam.
Dessarte (para se usar um termo caro aos juristas), o título de uma obra,
v. g., Curso de direito processual penal, já nos pode passar informações
sobre o tipo de texto; o nome de um autor na capa de um livro pode-nos
trazer previsões sobre seu estilo, sua ideologia política, seu ponto de vista
doutrinário. Tais são os assim chamados referentes textuais, ou, então, o
contexto inserido no texto.
b) Contexto situacional: trata-se do contexto estabelecido pelos elemen-
tos fora do texto que lhe abrem possibilidades de maior entendimento. É
um convite hermenêutica para explicar a situação textual, acrescentando-
lhe informações e experiências, quer históricas, geográficas, psíquicas,
entre outras, para que o leitor possa realizar uma "leitura" ativa do tex-
to, partilhado de forma íntima entre emissor e receptor. O texto só cria
sentido com o contexto. A partir do contexto e em função do contexto é
que ocorre o rendimento estilístico do texto. Como entender plenamen-
te o romance de Herculano, Eurico, o presbítero, sem o conhecimento
histórico da invasão árabe na península ibérica e sem estar versado na
Bíblia cujas citações percorrem o romance em toda sua extensão?
O julgamento do palavrão e da cacofonia deve levar em conta a época
e o ambiente mesológico. A linguagem popular de Gil Vicente explica a
presença de palavras chulas e o, por vezes, censurado cacófato de Camões
- "alma minha", era bastante normal naqueles tempos.
No Direito Penal, fala-se em "circunstâncias atenuantes e agravantes" e,
para julgar-se um réu, deve-se pesar-lhe a vida pregressa.
O texto ''A Justiça diz que todos os homens devem pagar pelos seus
crimes. Alguns fazem isto com cheque" pode parecer ofensivo mas o
contexto (VERÍSSIMO, Antologia brasileira de humor, 1976, p. 198),
centrado no animus jocandi, desfaz tal impressão.
4.2.3 Intertexto
Viu-se, pouco atrás, que o texto se engata no contexto: um é caixa de reper-
cussão do outro.
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Há de se considerar, ademais, que pode ocorrer cruzamento de textos; assim, o
texto de um autor pode ser retomado pelo texto de outro autor; pode-se manifestar
a presença de um texto em outros textos. Aliás, houve no movimento modernista
o costume de retomada de textos parnasianos, muitas vezes para despojá-los da
rigidez da forma, dando-lhes contornos mais espontâneos.
Um exemplo, no entanto, não só conservou a plasticidade da linguagem po-
ética, mas também se integrou perfeitamente ao tema retomado, servindo-lhe de
introdução.
Veja-se o famoso poema de Manuel Bandeira:
A Estrela
"Viuma estrela tão alta.
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.
Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.
Por que de sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alto luzia?
E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia."
Perceba-se, agora, que os inspirados versos do autor modernista acabam por
resultar a parte introdutória do brilhante "Via-Láctea", de Olavo Bilac:
"Ora (direis) ouvir estrelas. Certo
Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto ..."
A essa reutilização do texto, a esse jogo entre textos (intertextos) dá-se o
nome de intertextualidade. O fenômeno sempre existiu. Leiam-se os versos de
Ronsard:
"Vivez, si m'en croyez, n'attendez à demain,
Cueillez