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des aujourd'hui les rases de la vie!"
Retomam, por certo, o carpe diem do velho Horácio.
Costuma-se falar em quatro tipos de intertextualidade:
J
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4.2.3.1 Paráfrase
Nesta, um autor caminha de mãos dadas com outro autor; não há, pratica-
mente, desvio nenhum ou o desvio é mínimo, irrelevante.
As formas mais correntes da paráfrase talvez sejam as citações e transcrições,
em que se nota a sua característica mais acentuada, a conformação de textos.
Amolda-se bem a paráfrase à linguagem jurídica mais adequada ao ritual;
neste, a participação individual aparece tolhida pelas formas lingüísticas prees-
tabelecidas: são estruturas mais ou menos rígidas para atuar na esfera jurídica.
A propósito de citações, vem a pêlo lembrar José Frederico Marques (Suple-
mento literário de O Estado de S. Paulo, 2-4-66): "É do 'usus fori', o emprego de
citações".
Exemplo de paráfrase, conforme se tem ministrado nas universidades alemãs,
é a Divina comédia de Dante, quase tradução de obra moura muçulmana, dizendo-
se ter havido uma cristianização do pagão.
Raimundo Correia, ensina a teoria literária, imitou com tal precisão autores
franceses, e também latinos, que a paráfrase quase atinge a tênue fronteira do
plágio.
Aliás, os poemas épicos em geral constituíam-se em verdadeiras paráfrases,
imitando-se o texto-paradigma de forma tal que o texto imitado resultava num
discurso próprio. Exemplos desse comportamento são as obras epigonais, aque-
las pertencentes à geração seguinte à do modelo, as do discípulo de um grande
mestre.
A paráfrase é também recurso empregado para aprendizagem de construções
frásicas com correção gramatical e adequação estilísticas, valendo-se dos processos
de desmontagem e recriação do enunciado, elaborando novas frases a partir de
"modelos", conforme a gramática gerativa de Chomsky.
Assim, é possível realizar paráfrases ideológicas e estruturais como variações
de um enunciado discurso-matriz.
Vejam-se os exemplos:
a) Paráfrase ideológica:
a.l. texto-matriz:
"Entre os muitos méritos de nossos livros nem sempre figura o da
pureza da linguagem. Não é raro ver intercalado em bom estilo os sole-
cismas da linguagem comum, defeito grave, a que se junta o da excessiva
influência da língua francesa. Este ponto é objeto de divergência entre os
nossos escritores. Divergência, digo, porque, se alguns caem naqueles de-
feitos por ignorância ou preguiça, outros há que os adotam por princípio,
ou antes por uma exageração de princípio."
(ASSIS, 1959, v. IlI, p. 822)
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a.2. texto parafraseado:
O ensino da língua portuguesa esbarra em inúmeras dificuldades.
De um lado, a escassez de escolas, restringindo o acesso à linguagem
adquirida, a que se vai ali buscar. Por outro lado, o modismo de de-
formar a língua, mesmo entre bons autores que, muitas vezes, inter-
calam solecismos de linguagem ao bom estilo, além de rechearem o
discurso com estrangeirismos. O pior de tudo isso é que nem sempre tais
usos, que enfeiam e deformam a língua portuguesa padrão, são reali-
zados por ignorância: muitas são as ocasiões em que expressam princí-
pios ideológicos, e por que não dizer, uma exageração desses princí-
pios.
(adaptação livre)
Verifica-se que o conteúdo do fragmento a.2 tomou como modelo as
idéias-chaves do texto-matriz-a.1, realizando variações sintáticas com o mesmo
tema, verdadeira recriação do modelo.
Um leitor atento colhe informações deste ou daquele texto, desvendando-lhes
as significações e acabando por fazer deles paradigmas semânticos, pois a criação
humana, como já ensinou Montesquieu, é imitativa - consciente ou inconscien-
temente.
Importante se faz realçar ser o ato de imitar, parafrasear idéias, uma forma de
incrementar o pensamento, porque a idéia de um emissor encontra eco no leitor
que, assimilando-a, faz dela seu próprio pensamento, enriquecendo-a, muitas
vezes, pelo novo refletir.
O estudante de Direito, por certo, aprende, desde as primeiras lições, a para-
frasear professores e autores, dando sua contribuição pessoal de sorte tal a criar
formas de expressão vigorosas e renovadas e não apenas meras réplicas de seus
paradigmas.
b) Paráfrase estrutural
b.1. texto-matriz:
"Nem só os olhos, mas as restantes feições, a cara, o corpo, a pessoa
inteira, iam-se aprimorando com o tempo. Eram como um debuxo primitivo
que o artista vai enchendo e colorindo aos poucos, e a figura entra a ver,
sorrir, palpitar, falar quase, até que a família pendura o quadro na parede
em memória do que foi e já não pode ser e era."
(Machado de Assis.Dom Casmurro. Apud CARRETER,1963, p. 138)
b.2. texto parafraseado:
Nem só a confissão, mas as restantes provas, os documentos, as tes-
temunhas, o laudo pericial, foram-se apurando com o curso do processo.
Revelaram-se como uma trama novelesca em que o autor vai delineando
e colorindo aos poucos, e ela entra a fazer planos, executá-los, até que os
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autos do processo retratam o quadro de um crime, registrando o que foi e
já não pode ser. Aqui, nos autos, a versão colhida contra o acusado, podia
ser, e é a verdade dos fatos.
(adaptação livre)
Em que pese ao pitoresco da situação jurídica, pode-se perceber que a paráfrase
estrutural recria um contexto em cima de uma estrutura frásica matriz, apoiando-
se em seus referentes sintáticos para construir um texto expressivo.
Verifiquem-se outros exemplos, a fim de revitalizar a importância que a pará-
frase imprime à busca de uma evolução no plano redacional:
1. "O Direito é, por excelência, entre as que mais o sejam, a ciência da
palavra." (Ronaldo Caldeira Xavier)
1.a. A Analogia é, por excelência, entre as que mais o sejam, a base da
jurisprudência.
1.b. A Eqüidade é, por excelência, a prática do ideal da Justiça.
2. "O sertanejo é antes de tudo um forte." (Euclides da Cunha)
2.a. O advogado é antes de tudo um obstinado.
2.b. O advogado é antes de tudo um paladino da Justiça.
2.c. O advogado é, antes de tudo, um defensor da lei.
3. "Alíngua é um conjunto de sinais que exprimem idéias, sistema de ações
e meio pelo qual uma dada sociedade concebe e expressa o mundo que
a cerca." (Celso Cunha)
3.a. O Direito é um conjunto de regras que exprimem idéias, valores e
meio pelo qual uma sociedade concebe e expressa as relações que
têm efeitos jurídicos.
4. f'O repórter policial, tal como o locutor esportivo, é um camarada que
fala uma língua especial, imposta pela contingência." (Stanislaw Ponte
Preta)
4.a. O Promotor de Justiça, tal como (ou tal qual) o carrasco, é um algoz
que tem uma conduta implacável imposta pela contingência.
4.2.3.2 Estilização
Aqui, o desvio se alarga; há uma reformulação do texto; há um remake do
texto sem, porém, traí-lo ou pervertê-lo. É o caso, v. g., da adaptação do romance
de Erich Maria Remarque (A oeste nada de novo) para o cinema, em 1930, com o
título All quiet on the westernfront (em português: Sem novidades no front). Man-
teve-se a idéia fundamental do livro: a monstruosidade da guerra. O filme, como
Verifica-se no exemplo acima a estilização, pois a função poética da linguagem
tende a valorizar a forma da mensagem. Há desvio pronunciado do original, o que
afasta o texto da paráfrase.
Orestes Barbosa e Noel Rosa levaram o Judiciário - quem diria! - ao samba
com Habeas-Corpus. * Não houve, porém, conotação pejorativa ou deformação. É
o caso de estilização; eles poetizaram a linguagem jurídica.
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o livro, é um libelo contra a guerra, mas lhe dá um novo tratamento, ao envolver
a morte do soldado numa atmosfera de dolorida poesia.
Na estilização temos, ainda, o emprego dos procedimentos e estilo. Assim,
podem-se reutilizar instrumentos retóricos em variação sobre o mesmo tema. É
o que tem ocorrido com "AMissa do Galo", de Machado