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de Assis, tomado por
matriz em muitas recriações, em especial, por meio de sua estrutura discursiva:
reticências, ambigüidades, categorias verbais de tempo inter-relacionadas com
espaço. Nesse sentido, a estrutura do diálogo entre Conceição e Nogueira, no tom
ambíguo, reticente, sugestivo e pouco claro de fatos reais, é revivido em contos de
Osman Lins, Lygia Fagundes Telles, Autran Dourado e outros renomados autores
que recriam a "conversação" da "Missa do Galo", ora com monólogos em 1ª pessoa,
ora com silêncios vivos de uma comunicação não-verbal.
A tragédia de Inês de Castro, imortalizada no Canto IH de Os lusíadas, é revi-
vida no conto de Herberto Helder, "Teorema", publicado em Os passos em volta,
1963, narrado pela perspectiva de um dos seus assassinos.
Exemplo de estilização é o soneto de Camões que reconta a história bíblica
de Jacó e Raquel, narrada no Antigo Testamento, 29, 16-30.
Veja-se:
a) texto bl'blico
"E Labão tinha duas filhas; o nome da mais velha era Léia (ou Lia, em outras
traduções) e o nome da menor, Raquel.
Léia porém tinha olhos tenros, mas Raquel era de formoso semblante e for-
mosa à vista.
E Jacó amava a Raquel, e disse: Sete anos te servirei por Raquel, tua filha
menor.
Então disse Labão: Melhor é que ta dê, do que a dê a outro varão; fica comi-
go.
Assim serviu Jacó sete anos Pl?rRaquel; e foram aos seus olhos como poucos
dias, pelo muito que a amava.
E disse Jacó a Labão: Dá-me minha mulher porque meus dias são cumpridos,
para que eu entre a ela.
Então ajuntou Labão a todos os varões daquele lugar e fez um banquete.
E aconteceu, à tarde, que tomou Léia, sua filha e trouxe-lha. E entrou a ela.
E Labão deu sua serva Zilpa a Léia, sua filha, por serva.
E aconteceu pela manhã ver que era Léia, pelo que disse a Labão: Por que me
fizeste isso? Não te tenho servido por Raquel? Por que pois me enganaste?
E disse Labão: Não se fez assim no nosso lugar, que a menor se dê antes da
primogênita. *
Considerações Gerais 115
Cumpre a semana desta; então te daremos também a outra, pelo serviçoque
ainda outros sete anos servires comigo.
EJacó fez assim: e cumpriu a semana desta; então lhe deu por mulher Raquel
sua filha.
E Labão deu sua serva Bilha por serva a Raquel, sua filha.
E entrou também a Raquel e amou também a Raquel mais do que a Léia; e
serviu com ele ainda outros sete anos."
b) soneto de Camões:
Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
que a ela só por prêmio pretendia.
Os dias na esperança de um só dia
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe deu a Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
assim lhe era negada a sua pastora
como se a não tivera merecida,
começou a servir outros sete anos,
dizendo: - Mais servira, se não fora
para tão longo amor, tão curta a vida.
No tribunal da minha consciência,
O teu crime não tem apelação.
Debalde tu alegas inocência,
E não terás minha absolvição.
Os autos do processo da agonia,
Que me causaste em troca ao bem que eu fiz,
Chegaram lá daquela pretoria
Na qual o coração foi o juiz.
Os compositores escreveram habeas-corpus, com uso irregular de hífen.
4.2.3.3 Paródia
JACÓERAQUEL
E ante os pastores escandalizados,
Jacó raptou Raquel e, em doce arrulho,
foram viver os dois... "como casados".
Porém Jacó, que percebera o logro,
gritou ao pai Labão: - Não vou no embrulho!
E ao demônio mandou a Lia e o sogro.
Considerações Gerais 117
SUNETTOCRÁSSICO
Sette anno di pastore, Giacó servia Labó,
padre da Raffaela, serrana belIa,
ma non servia o pai, che illo non era troxa nó!
Servia a Raffaela p'ra si gazá co'elIa.
I os dias, na esperanza di um dia só,
apassava spiáno na gianella;
ma o páio, fugino da gumbinaçó,
deu a Lia inveiz da Raffaela.
Quano o Giacó adiscobri o ingano,
e che tigna gaído na sparrelIa,
ficô c'un brutto d'un garó di arara.
I incominció di servi otros sette anno
dizeno: Si o Labó non fossi o pai delIa
io pigava elIi i lí quibrava a gara.
OSMEUSOTTOANNO
O chi sodades che io tegno
O'aquele gustoso tempigno
Ch'io stava o tempo intirigno
Brincando c'oas mulecada.
Che brutta insgugliambaçó
Che troça, che bringadera
Imbaxo das bananera
Na sombra dus bambuzá.
Che sbornia, che pagodera,
Che pandiga, che arrelia,
A genti sempre afazia
No largo d'Abaxo o Piques
Passava os dia i as notte
Brincando di scondi-scondi,
I atrepáno nus bondi,
Bulino c'os conduttore.
Outro exemplo de paródia, agora total, é a versão Jacó e Raquel, construída
de forma caricatural por Alexandre Marcondes Machado, o ':Juó Bananere" que,
em português macarrônico, diz com irreverência:
Não apenas os clássicos foram vítimas da pena satírica de ':Juó Bananere", que
tinha suas paródias divulgadas pelo semanário humorístico O Pirralho, de Oswald
de Andrade e Emílio de Menezes, fundado em agosto de 1911. Ria-se da "recupe-
ração poética" que o humor de ':Juó Bananere" fez de Casimiro de Abreu:
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J \u2022\u2022\u2022
Tu tens as agravantes da surpresa
E também as da premeditação
Mas na minh'alma tu não ficas presa
Porque o teu caso é caso de expulsão.
Tuvais ser deportada do meu peito
Porque teu crime encheu-me de pavor.
Talvezo habeas-corpus da saudade
Consinta o teu regresso ao meu amor.
Curso de Português Jurídico \u2022 Damião/Henriques116
Quando entretanto, foi chegando o dia
de, no contrato, apor a assinatura,
mestre Labão quis impingir-lhe a Lia,
que era feia, zarolha e já madura.
Agora, o desvio se faz total e chega-se à perversão do texto em sua estrutura
ou sentido de tal forma que o texto sofre ruptura total e se deforma.
O grupo teatral francês Royal de Luxe mostrou, no Vale do Anhangabaú, uma
versão anárquica dos grandes momentos da história da França, caracterizando a
deformação.
O filme O jovem Frankestein retoma o clássico dos anos trinta, Frankestein,
cobrindo o monstro de ridículo e levando-o ao deboche.
Dentro do mesmo registro parodístico, vale citar o filme Cliente morto não
paga, deformação deliciosa do assim chamado film noir, marca principal do cinema
americano dos anos quarenta.
O soneto de Bastos Tigre, Jacó e Raquel, retoma o soneto camoniano, mas o
desvio acentua-se mais profundamente, ao se usar, por exemplo, de termos de
conotação jurídica: "contrato", "apor assinatura", "impingir", ao lado de termos e
expressões populares: "zarolha", "não vou no embrulho", "mandar ao demônio",
que, por certo, causariam arrepios a Camões. Veja-se:
"Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel", gentil criatura,
porém, servindo ao pai, Jacó queria
a filha desposar, conta a Escritura.
118 Curso de Português Jurídico \u2022 Damião/Henriques
A paródia, viu-se, é forma bastante criadora no diálogo intertextual. O segun-
do discurso repete o primeiro, imprimindo, no entanto, direções contrárias ao do
texto-matriz.
Atente-se que a paródia pode manifestar-se em expressões, v.g., o filme Planeta
dos macacos, no programa humorístico Planeta dos homens; aparece em relação a
valores, v. g., D. Quixote em paródia aos livros de cavalaria, enfim, sempre uma
inversão que exige do autor profundo conhecimento da obra-matriz e com criati-
vidade tal que há, até, paródia da paródia.
4.2.3.4 Recriaçãopolêmica
O autor polemiza o texto-matriz, retomando-lhe o ponto de referência para
questionar diversos temas ou para defender seu ponto de vista sobre algum as-
sunto.
Exemplo interessante desta espécie de intertextualidade é o "Sermão do man-
dato", do Pe. Vieira:
SERMÃODOMANDATO
A segunda ignorância que tira o merecimento ao amor, é não conhecer quem
ama a quem ama. Quantas coisas há no mundo muito amadas, que, se as conhecera
quem as ama, haviam de ser muito aborrecidas! Graças logo ao engano e não ao
amor. Serviu Jacó os primeiros sete anos a Labão, e ao cabo deles, em