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tade governativa, enquanto permanece o governo, sempre em ação, seja qual for a
forma que revista. Por isso, 'governo', no sentido próprio, não deve ser confundido
com o seu sentido estrito, isto é, entendido como o conjunto de pessoas que agem
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pelo Estado, ou melhor, com os que o governam. O conjunto de meios, escreve
ORLANDO,pelos quais a soberania se traduz em atos, eis como se deve entender
governo. Talconcretização de soberania exigeum conjunto de instituições,deposi-
tárias da potestade governativa (instituiçõesgovernativas),destinadas a exercere a
tomar possível o govemo do Estado. Têmessas instituições, como toda instituição
jurídica, estabilidade e durabilidade. Não são temporárias e nem provisórias,mas
permanentes. Devido a permanência e a estabilidade que desfrutam, as pessoas,
que por elas agem, passam, enquanto elas, ficam. Govemo sem instituições go-
vernativas é impossível no Estado moderno. Governo pessoal, nem nas ditaduras
modernas há."
(GUSMÃO,1965, p. 211)
e) Causa-conseqüência
A relação causa-conseqüência é, por excelência, o encadeamento lógico do
racioCÍnio. A causa é o motivo, a razão, o porquê dos atos humanos. Em relação
à conduta, a conseqüência é o efeito, o resultado.
Importante se faz a camada vocabular (conectivos, substantivos e verbos) para
explicitar a relação causa-conseqüência, como se viu na Parte Iv.
Também, a correlação motivo-efeito, razão-resultado, causa-efeito, pode ser
obtida pela estrutura interna do texto, nos valores semânticos obtidos com idéias
que estabelecem a relação.
Leia-se, atentamente, o fragmento abaixo e verifique-se o efeito das chuvas e
do inverno na vida do homem campesino:
"Vieramas chuvas. Aprincípio grossas e fortes, como chuva de verão e depois
finas e incessantes. Era o inverno que apertava o trabalho e os sofrimentos.Aágua
do céu não é um convitepara o trabalho. É uma ordem. Porissoa labuta era grande.
Ao tempo do sol, pode-se ficar por aí enganando a própria fome. À aproximação
das chuvas, e com elas, abre-se, porém, a terra e planta-se. Mas agüenta-se a luta
contra o mato bravo, na disputa do terreno conquistado."
(DUARTE,1936, p. 59)
Veja-se esta outra cena invernal, com a presença do conector causal "por-
que":
"Porque o sol da tarde, indo embora, fazia subir das matas, da água
quieta do lato, do céu que baixava, cinzento, um friozinho ácido e cortante, fechei
as janelas, desci as cortinas e, afinal, ajoelhei-me diante da lareira, descobri que
havia uns restos de gravetos no cesto de lenha, um montão de jornais e, no quintal,
lá fora, umas raízes desentocadas na reforma do jardim."
(LESSA,1963,p. 155)
Nota: não perca de vista o leitor a relação de contraste oferecida pela com-
paração do inverno no campo com o inverno citadino.
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f) Resposta à interrogação
Uma pergunta inicial é o recurso, para um desenvolvimento que tem por ob-
jetivo desdobrar o parágrafo. Sirva o exemplo:
"Ora, diante destas premissas, que devemos entender por interpretação? Dis-
semos que a fala se refere ao uso atual da língua. Falar é dar a entender alguma
coisa a alguém mediante símbolos lingüísticos. A fala, portanto, é um fenômeno
comunicativo.Exigeum emissor, um receptor e a troca de mensagens. Até o discur-
so solitário e monológico pressupõe o auditório universal e presumido de todos e
qualquer um, ao qual nos dirigimos, por exemplo, quando escrevemos um texto ou
quando articulamos, em silêncio, um discurso, ao pensar. Sem o receptor, portanto,
não há fala. Alémdisso, exige-se que o receptor entenda a mensagem, isto é, seja
capaz de repeti-la."
(FERRAZJR. 1991, p. 235)
g) Tempo e espaço
As idéias não estão soltas no tempo e no espaço, mas são datadas e situadas.
Não só no gênero narrativo, mas também na descrição e na dissertação, os indicado-
res de tempo e espaço oferecem referenciais para a compreensão da mensagem.
É possível escrever usando isoladamente um ou outro critério.
O exemplo que se apresenta abaixo foi colhido do excelente trabalho de Magda
Soares e Edson Campos (1992, p. 92), demonstrando a ordenação de idéias pelo
critério temporal.
"O livro foi sempre considerado o baluarte em que poderiam confiar os pes-
simistas da cultura de massa no momento em que tivessem de salvar do incêndio
a cultura autêntica. Todavia, agora, e cada vez mais, esses pessimistas têm razões
de sobra para se desesperar. O livro, ao qual tinham acesso apenas as minorias
privilegiadas, passa a figura,r no cardápio da classe média e do proletariado. Os
últimos anos marcaram o aparecimento em grande estilo dos livros de bolso, os-
tensivamente concorrendo comjornais e revistas nas bancas e na disputa das horas
de ócio dos leitores. As edições de livros de bolso se multiplicaram. O livro, antes
privilégio da gente de espírito e sensibilidade, de repente é elevado à categoria de
produto de consumo para a massa, tratado no mesmo nível do sabão de coco e do
sabonete. O livro penetra na drugstore e a cultura é equiparada a um comprimido
que se compra para dor de cabeça. A cultura veiculada pelo livro adquire então
o aspecto vulgar que faz a ira dos inimigos da cultura de massa: o de tratar com
simplicidade coisas por natureza complicadas."
(Charles R.Wright. Comunicação de massa - parágrafo modificado.)
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5.2.3 Conclusão
A conclusão é o fecho redacional. Uma boa redação termina de forma inci-
siva, dando ao leitor a sensação de ter sido esgotado o plano do autor, logrando
o emissor obter o objetivo pretendido. Há, assim, correlação entre introdução e
conclusão, porque esta última resolve a proposta do texto.
Não há, alerte-se, necessidade de uma conclusão explícita, auxiliada de expres-
sões do tipo "concluindo", "finalmente", "em suma" e outras anteriormente indica-
das no tópico elementos de coesão. Tal recurso é mais encontradiço nas dissertações
e com grande freqüência no discurso jurídico, porque prepara o espírito do leitor
para assimilar as conclusões do autor sobre determinado assunto, constituindo-se,
desta sorte, no tema propriamente dito. Já nos textos de descrição e narração, o
final do texto atinge um clímax que se constitui na conclusão.
Leia-se o exemplo abaixo, quando Lígia Fagundes Telles apresenta o desengano
do pequeno Alonso, ao perder o travesso cãozinho Biruta, que foi solto na rua pela
mãe do menino, cansada das peraltices do animal de estimação:
"- Biruta - chamou baixinho. - Biruta ... - repetiu. E desta vez só os lábios
se moveram e não saiu som algum.
Muito tempo ele ficou ali ajoelhado, imóvel, segurando a bola. Depois apertou-a
fortemente contra o peito como se quisesse enterrá-la no coração."
(Histórias do desencontro, 1958, p. 36)
Veja-se, agora, a conclusão de um tópico de texto jurídico, anotando o leitor
a presença do elemento de coesão, ao falar da responsabilidade civil:
"Em face disso, não se pode deixar de reconhecer, no campo em análise, a
existência de duas categorias autônomas (a subjetiva e a objetiva), em que cada
qual explica e exerce uma função própria da responsabilidade, manifestando-se,
de há muito, tendência a um crescente alargamento do sistema objetivo, em face
das razões já apontadas."
(BITTAR,1991, p. 176)
A conclusão é, pois, o remate das idéias desenvolvidas, podendo ser um
resumo delas (síntese), apresentar uma proposta e até mesmo constituir-se em
conclusão-surpresa.
Silveira Bueno, em sua Arte de escrever (1961, p. 68), colhe precioso exemplo
que pode ilustrar a conclusão-proposta, em discurso proferido por Olavo Bilac,
no Rio Grande do Sul. Comemorava-se ~ construção do porto do Rio Grande.
Dizia o "Príncipe dos Poetas", em ardente oratória, da necessidade da construção
de uma alma brasileira fincada em valores morais, diante do quadro lúgubre da
Educação de seu tempo:
"Que fazer, contra a possibilidade do desastre e da