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ruína? - armar o Brasil,
e defendê-lo: e, no campo moral, em maravilhosas proporções de vontade, em
)
150 Curso de Português Jurídico \u2022 Darnião/Henriques
prodigiosas progressões de intensidade de coragem e de paciência, reproduzir, em
favor da pátria, este mesmo trabalho que, no campo físico, foi lançado e acabado
na foz do nosso grande rio: a construção de uma imensa e gloriosa muralha cir-
cular, guardando o sagrado páramo, em que circula a nossa história, - o passado
com as nossas tradições, o presente com as nossas incertezas, o futuro com as
nossas esperanças: muralha inexpugnável, plantada no patriotismo, argamassada
de instrução, cimentada de disciplina, inabalavelmente firmada na glória de crer
e na honra de querer!"
(Discurso ao Rio Grande do Sul)
5.3 O ENCADEAMENTO DOS PARÁGRAFOS
Muito já se comentou sobre a coesão e a coerência; nunca é demais, porém,
reiterar-lhes a importância. Um texto só terá unidade se da introdução caminharem
as idéias rumo à conclusão, havendo, entre os parágrafos, uma passagem lógica
e natural.
A articulação das idéias, reafirme-se, é a condição indispensável para a ob-
tenção de um texto harmonioso.
5.4 ELABORAÇÃODO PARÁGRAFO: REQUISITOS E
QUALIDADES
Redigir, como já se viu, requer planejamento com o propósito de fixar o ob-
jetivo a ser atingido. Para que o redator não se afaste do alvo proposto, requisito
impenhorável é a feitura de um esquema preliminar. Alguns passos devem ser
seguidos:
1. De plano, deverá o redator escolher o assunto a ser enfocado (a menos
que não lhe caiba fazê-lo).
2. Em seguida, fará associações livres, pensando, vigorosamente, nas possi-
bilidades paradigmáticas. Quanto mais idéias tiver sobre o objeto, maior
a reflexão e, por conseguinte, mais rico o material a ser trabalhado.
3. O próximo passo será delimitar o assunto, traçando um objetivo: o que
pretende transmitir (proposta temática).
4. Escolher o critério para desenvolvimento do pensamento é a tarefa se-
guinte. O farto material obtido irá permitir ao redator uma escolha mais
oportuna: cumpre-lhe estabelecer se irá enumerar aspectos do objeto,
compará-lo com outro, declarar-lhe fatores positivos ou negativos, posi-
cionar-se a favor ou contra sua situação, enfim, estabelecerá ele a forma
de desenvolvimento do tema.
A Redação 151
5. Na seqüência, irá o redator fixar as idéias a serem desenvolvidas, em umas
três ou quatro frases sucintas. Quando necessário, elabora subdivisões
- não muitas - com frases também curtas.
6. Agora o redator pode estabelecer o tópico frasal, elaborando uma frase
genérica, que possa, de forma abrangente, apresentar as idéias a serem
desenvolvidas, sem indicar, no entanto, elementos conclusivos. As cir-
cunstâncias e os pormenores não serão colocados nesta etapa; tão-so-
mente a idéia a ser trabalhada.
7. Pensará agora o redator na conclusão a que pretende chegar, elaborando
uma frase concisa que a contenha. Está pronto para começar o trabalho
redacional.
Fixado o esquema, o redator iniciará seu trabalho sem descuidar-se das qua-
lidades essenciais já comentadas anteriormente.
Desenvolverá a introdução, permitindo que a idéia-chave esteja em evidên-
cia: a ampliação da frase introdutória deverá ser realizada com bastante ênfase,
firmando no leitor a idéia central.
No desenvolvimento, tomará o cuidado de costurar as idéias, valendo-se, sem-
pre que necessário, dos elementos de coesão. Usará apenas o material indispensável
(não perderá, no entanto, aquele não utilizado, porque as idéias pensadas sobre
o assunto serão, para o redator, acervo precioso a ser empregado em outras reda-
ções). Neste segmento, não poderá ele olvidar a importância da ênfase, colocando
sempre em evidência a idéia central.
Na conclusão, não perderá de vista o objetivo da introdução, demonstrando
ter conseguido desenvolvê-lo de maneira completa.
Exemplo:
1. Assunto: estudo sobre o costume no Direito.
2. Delimitação: a importância da preservação dos bons costumes como fontemoral
do Direito.
3. Objétivo: demonstrar que o costume, enquanto forma de expressão do Direito,
requer da sociedade e dos aplicadores da lei atenção especial, sendo o descuido
crime de lesa-pátria.
4. Idéia introdutória: o costume é fruto da valoração social e reflete o comporta-
mento concorde dos membros da comunidade e, como fonte do Direito, reper-
cute na aplicação da lei.
5. Desenvolvimento: critério de enumeração:
S.a) O "psicologismo"enaltece o querer individual, com conseqüente frouxidão
dos mores sociais.
S.b) Os meios de comunicação de massa levantam bandeiras de licenciosidade,
derrubando a tradição fincada nos costumes mais sóbrios.
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5.c) Os magistrados aceitam os comportamentos acolhidos pela comunidade,
alargando a aplicação dos costumes lassos nas decisões judiciais.
5.d) A lei acaba por adotá-los, e. g., o projeto de reforma penal em face do
adultério, da sedução e do aborto.
6. Conclusão: o resultado disso é a penúria moral da nação que vem cometendo
um ignóbil e infamante crime de lesa-pátria.
Viu-se, assim, que o plano contém as idéias básicas a serem trabalhadas.
Caberá, agora, ao redator ampliá-las, ornando-as com excelentes parágrafos,
compostos de frases bem estruturadas e encadeadas, de tal sorte, a tornar coesa
e coerente a redação.
5.5 O PARÁGRAFO DESCRITIVO
Conforme bem define Gélson Clemente dos Santos (1983:183), a "descrição
é a reprodução de uma realidade - é a representação verbal de um aspecto, ou
seqüência de aspectos. Na descrição, o emissor provoca na mente do receptor uma
impressão sensível, procura fazer com que o leitor 'veja' na sua mente um objeto
material ou um processo espiritual".
Do conceito, apreende-se o objetivo da descrição: compor um "retrato" de
uma idéia, fazendo a representação simbólica da imagem por meio de palavras:
seja a pessoa (vista em seu exterior ou perscrutada no campo psicológico), seja
o ambiente (físico ou emotivo), seja a natureza (estética ou espiritual), o redator
vai dando à linguagem impressões que permitam ao receptor "ver" o que está
sendo descrito.
A descrição é, ainda, o processo utilizado nos dicionários.
Veja os exemplos colhidos no Pequeno dicionário brasileiro da língua portu-
guesa:
a) de objeto
abrolho. s.m. "Nome comum a várias plantas rasteiras e espinhosas ..."
b) de processo mental
discurso. s.m. "Conjunto ordenado de frases proferidas em público ou escritas
como se tivessem de o ser"...
A linguagem dos verbetes acima é descrição técnica ou informativa; procura
captar os elementos essenciais do objeto a ser descrito, a fim de permitir ao leitor
representá-los em sua mente. A diferença entre esse tipo descritivo e o literário é
que neste o emissor pode dar ao objeto as suas impressões subjetivas (ou, então,
retratá-lo objetivamente), enquanto o tipo técnico utiliza a linguagem denotativa,
dando ao objeto ou idéia uma representação coletiva e impessoal.
A Redação 153
Leiam-se as amostras:
1. "Chegamos, e então aquilo tudo está acontecendo de maneira urgente,
o mato, a água, as pedras, o ar. Aquilo está havendo naquele momento, como o
movimento de um grande animal bruto e branco morrendo, cheio de uma espan-
tosa vida desencadeada, numa agonia monstruosa, eterna, chorando, clamando.
E até onde a vista alcança, num imenso, há montes de água estrondando nesse
cantochão, árvores tremendo, ilhas dependuradas, insanas, se toucando de arco-
íris, nuvens voando para cima, como o espírito das águas trucidadas remontando
para o sol, fugindo à torrente estreita e funda onde todas essas cachoeiras juntam
absurdamente suas águas esmagadas, ferventes, num atropelo de espumas entre
dois muros altíssimos de rocha." .
(BRAGA,1963, p. 72)
2. "Estavam no pátio de uma fazenda sem vida. O curral deserto, o chiquei-
ro das cabras arruinado e também deserto, a casa do vaqueiro