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tivesse o redator assim escrito:
b) Penso que o descaso com o bem público é prejudicial à comunidade.
Comparando os tópicos "a" e "b", verifica-se que o verbo resultar estabelece
a relação causa/efeito, dando ênfase ao aspecto resultativo.
Os verbos devem, também, realçar o ponto de vista do redator.
Veja o exemplo:
a) É preciso que o governo busque soluções de baixo custo no combate à
fome.
Pretendendo dar um tom mais incisivo ao ponto de vista, boa seria a estrutura
frásica:
b) Cumpre ao governo viabilizar soluções de baixo custo no combate à
fome.
Bom de lembrar que a estrutura dissertativajá está a exigir a exposição de um
ponto de vista. Portanto, dispensáveis são expressões que esclarecem ser a opinião
do redator, salvo se o contexto exigir.
Explique-se. Ao colocar um ponto de vista, não há necessidade de dizê-lo
seu:
A sociedade brasileira sofre os reflexos da recessão econômica.
e não
Na minha opinião, a sociedade brasileira sofre os reflexos da recessão econô-
mica.
Casos há, porém, expostas algumas opiniões sobre um mesmo assunto polê-
mico, tenha o redator de explicitamente dizer seu ponto de vista. Caberão aí, pois,
, expressões do tipo a meu parecer, a meu entender, a meu ver. Também, situações
há em que a opinião indica o consenso, podendo usar-se expressões do tipo: todos
reconhecemos que, tornou-se comum dizer, tem-se dito que, entre outras.
Por derradeiro, lembre-se o redator que a dissertação deverá defender uma
opinião, um ponto de vista ou uma tese; há, assim, uma idéia principal a que se
subordinam os argumentos secundados, estes utilizados com o fito de realçar a
ai
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idéia-chave. Há, por isso, predominância de períodos subordinativos, diferente-
mente da descrição que, por apontar impressões percebidas de forma simultânea
ou concomitante, se vale mais da coordenação.
Advirta-se que o período subordinado não deve ser entendido como aquele
formado de orações longas, em esquema labiríntico. O efeito seria tão desastroso
quanto o de uma dissertação construída com frases entrecortadas, vale lembrar,
excessivamente curtas. De igual sorte, o texto final deve ser não só inteligível, mas
também gramatical, com harmonia de concordância e regência - nominal e verbal
- em parágrafos bem pontuados e adequadamente organizados.
5.7.1 Tipos de dissertação
Dois são os tipos: expositiva e argumentativa.
5.7.1.1 Dissertação expositiva
É a discussão de uma idéia, de um assunto ou doutrina. A intenção do redator
é a de expor um assunto, comentando-o.
Não há a defesa de um ponto de vista, embora, inegavelmente, se encontre ele
implícito no texto porque a seleção das idéias em tomo de um assunto se constitui,
ela própria, em postura dissertativa.
A dissertação expositiva exige do redator um conhecimento bastante robusto
do a,ssunto, e, assim, o processo de levantamento de idéias por meio das relações
paradigmáticas, como se viu anteriormente, deve ser o mais completo possível.
Não se conclua, porém, que robustez seja sinônimo de prolixidade. Na pre-
sença imperativa de um ponto de vista, delimitado é o tema e as idéias são a ele
vinculadas por meio do critério (ou critérios) de organização de parágrafos sele-
cionados (ou escolhidos).
Como já foi dito, cada parágrafo gráfico deve conter uma idéia e todas as
idéias devem manter, entre si, relação semântica assecuratória da unidade tex-
tual.
A dissertação expositiva é bem elaborada quando se discute um assunto com
profundidade, .de forma clara, estando as idéias "amarradas" a um tópico frasal
que apresente, com segurança, a idéia central.
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5.7.1.2 Dissertação argumentativa
A dissertação argumentativa é aquela em que o redator se mune das técnicas
de persuasão com o objetivo de convencer o leitor a partilhar de sua opinião ou
mudar de ponto de vista.
Nada obsta, é bom esclarecer, aliar-se a dissertação argumentativa à expo-
sitiva: neste caso, além de expor a idéia, objetiva o redator influenciar a opinião
do leitor.
Na atividade jurídica, imprescindível é a dissertação argumentativa, por cor-
responder à própria natureza persuasiva do discurso forense.
Para obter seu desiderato, não basta ao redator realizar criteriosa seleção das
associações paradigmáticas: mais do que isso, deverá assessorar-se dos recursos
da lógica, a fim de fazer prova segura da eficácia de seu raciocínio.
Realmente, toda idéia só tem força persuasiva se as razões que a fundamentam
estiverem claras e bem sustentadas. Somente a prova pode robustecer o plano
argumentativo.
Veja-se a ilustração:
o advogado de defesa planeja centrar sua tese na legítima defesa. Ao levantar
os dados probantes dos autos, encontra:
a) três testemunhas que afirmam ter visto seu cliente provocando a vítima;
b) declaração dos policiais que efetuaram a prisão em flagrante - logo após
o homicídio - afirmando estar a vítima desarmada;
c) o laudo médico informa que a vítima foi atacada de inopino e pelas costas,
em face da trajetória das duas balas contra ela disparadas.
Percebe o causídico que terá de reformular seu plano de defesa, porque as
evidências processuais militam pela culpa do cliente e não autorizam a tese pre-
tendida.
Assim, ou muda ele sua linha defensiva, ou busca nos autos evidências mais
fortes do que as acusatórias, ou que desacreditem aquelas contrárias a seu ponto
de vista.
As provas funcionam como o termo médio da fórmula silogística.
Verifique as duas idéias a seguir:
a) O homem moderno desgasta seu físico e sua mente na agitação de uma vida
competitiva.
b) Portanto, melhor será ao homem a serenidade de espírito, fonte inesgotável da
sabedoria.
Veja o leitor que ausente se encontra o item "b" que é exatamente a parte
argumentativa, por excelência, em que as idéias são revestidas de provas.
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Outras vezes, é a relação de causa/efeito que está a exigir a demonstração
da idéia.
Atente-se para o exemplo a seguir:
a) A construção civil encontra-se ameaçada.
b) Há grande carência de mão-de-obra.
Observe o leitor que explícitas se encontram as idéias de causa (carência de
mão-de-obra) e efeito (construção civil ameaçada).
Todavia, a causa não pode ser "jogada" como uma opinião única, encerrando
uma verdade absoluta. Mister se faz perscrutar-lhe as razões, comentando-as,
convencendo o leitor de que elas são legítimas.
As provas que não apóiam a conclusão mostram-se inoperantes, pois são fa-
laciosas e inadequadas.
Gustavo Krause et aI., no livro Laboratório de redação (1982, p. 143), ilustra
o assunto com o seguinte exemplo de provas que não sustentam a conclusão:
"Meritíssimo, senhores jurados, senhor promotor: meu cliente não pode ser
acusado deste crime. Meu cliente é um pai extremoso, marido exemplar, trabalhador
honesto, cidadão cumpridor dos seus deveres. Acredito nos seus bons sentimentos
e na sua consciência comunitária; justamente por isso, ser-me-á surpreendente ver
este pobre coitado não ser absolvido. Creio que entenderão a armadilha pregada
pelo destino, e a caridade de cada um falará mais alto."
Não é preciso muito esforço mental para o leitor compreender que, assim
como os maus antecedentes não são prova definitiva de autoria criminosa, a vida
pregressa do acusado não é prova de inocência em si mesma.
Também, ainda que o acontecimento fosse aceito como armadilha do destino
- o que não é argumento lógico - não seria crível deslocar a finalidade da Justiça
para a prática da caridade.
Em outros mo"mentos, prejudicada fica a argumentação do redator por emitir
opiniões apressadas, apoiadas na generalização, e. g.:
Os nordestinos são a principal causa dos problemas sociais de São Paulo,
porque chegam à metrópole sem instrução e sem bens, não conseguindo, assim,
definir uma meta profissional.
Veja o leitor que a visão preconceituosa esbarra na verossimilhança razoável