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mostrando-lhe a falta de
cabimento ao contrariar a evidência. No exemplo da fábula do lobo e do cordeiro,
absurdo foi o argumento do primeiro ao dizer que o cordeiro lhe turvava a água,
porque este (o cordeiro) estava muito mais abaixo.
3. De autoridade (ex auctoritate ou ab auctoritate)
A intenção é mais confirmatória do que comprobatória. O argumento apóia-
se na validade das declarações de um especialista da questão (que partilha da
opinião do redator).
É largamente explorado no discurso jurídico com o emprego de fórmulas
estereotipadas como "estribando-se na autoridade de ..."
Segundo Tercio Ferraz Jr. (1991, p. 309), tal argumento domina a argumen-
tação jurídica. Na esfera religiosa, a palavra de Deus é o argumento mais forte.
Outras formas há de argumentação: (a) contra o homem (ad hominem) cujo
ataque é frontal e específico ao adversário, em situação concreta, portanto; (b)
experimental (a posteriori) - o redator parte do resultado ou efeito para conhecer
as origens ou causas; (c) pelo silogismo do tipo sorites - o redator indica um atri-
buto do objeto que é sujeito de outra proposição, sendo este da terceira e assim
sucessivamente, a fim de concluir que todas elas são igualmente verdadeiras, ou
seja, os argumentos são todos fortes ou fracos, sem distinção.
FALÁCIASDAARGUMENTAÇÃO
Muito já se falou sobre os defeitos da argumentação, mas bom é reiterar
algumas falhas a serem evitadas a fim de não comprometer o êxito do objetivo
redacional.
Em primeiro plano, advirta-se a confusão entre fato e argumento. Não se há
de narrar um acontecimento, esperando que tire o leitor conclusões argumen-
tativas da situação concreta.
cJ
A Redação 171
Em segundo lanço, não faça o redator da abstração um raciocínio inve-
rossímil, melhor dizendo, que não possa ressoar na concretude, pois inviável é
sua aplicação.
Também, não hão de ser os argumentos tão específicos que não se estendam a
outros casos, ou tão genéricos que se tornem vagos e imprecisos.
Ao enumerar as falhas argumentativas, não há olvidar-se a contradição que
afirma e nega a mesma coisa sobre determinado objeto. De igual sorte é a falsa
analogia, em que o raciocínio conclui apressadamente algumas particularidades
de uma idéia, dando-lhe uma extensão que não lhe é cabível.
Falha bastante comum, em especial no discurso jurídico, é a petição de prin-
cípio.
Como bem ministra Othon Garcia (1975, p. 292), é "argumento de quem ... não
tem argumentos, pois apresenta a própria declaração como prova dela, tomando
como coisa demonstrada o que lhe cabe demonstrar". Seria o caso do acusador
(improvável no caso do Ministério Público, pela excelência que vem marcando
seu quadro, particularmente no Estado de São Paulo) que dissesse: O réu cometeu
homicídio porque matou a vítima.
Outra falácia é a da falsa causa, motivada pela observação inexata, inter-
pretando fatos por meros indícios, como se fossem evidências. É comum haver
argumentação equivocada por erro de julgamento pelo descuido de verificação
do nexo causal na demonstração dos fatos.
Por fim, sem esgotar a matéria, diz-se falho o argumento que toma o acidental
pelo essencial, generalizando de forma equivocada. Seria o caso de o juiz condenar
um réu não pela prova carreada aos autos da certeza de autoria, mas tão-somente
porque o acusado de ter praticado o delito tipificado no art. 155 CP já ter sido
anteriormente condenado por furto.
5.7.4 O parágrafo dissertativo na redação jurídica
Inegável é a importância da dissertação na comunicação jurídica: há sempre
um conflito a ser solucionado, colocando versões antagônicas em pólos opostos.
Em todas as áreas do Direito, é a argumentação o recurso persuasivo, por
excelência, porque objetiva o convencimento da tese postulada.
Como se verá na Parte VI, não só as partes, mas também o julgador precisa
fundamentar seu posicionamento. Assim, a motivação da sentença outra técnica
não utiliza senão a dissertativa, permeada, como há de ser, de elementos descri-
tivos e narrativos, nunca fazendo do "contar" o fato o interesse central, e sim,
descrevendo o fato para fazer dele "leituras" que demonstrem a aceitabilidade do
ponto de vista do redator.
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A consciência da natureza persuasiva do discurso jurídico contribui para o
emprego mais preciso dos vocábulos - material ideológico - e de suas relações
formais e materiais na enunciação silogística.
Já se falou que o Direito não é Lógica Formal, mas os recursos da Lógica são
técnicas dissertativas de alto efeito persuasivo.
Em análise última, não há discurso sem o elemento dissertativo porque a
neutralidade absoluta não é encontrada sequer nas ciências sociais que a exigem,
como no saber sociológico. Como é natural a presença de diferentes opiniões
para um só fato, a prevalência desta ou daquela se dá pela força argumentativa
obrigatória no discurso jurídico.
5.8 POSTURAS DO EMISSOR NA ELABORAÇÃO DO
PARÁGRAFO
5.8.1 Posturas filosóficas
Duas são as posturas básicas na elaboração do parágrafo de natureza disser-
tativa: a dialética e a disputa.
a) Dialética de Platão
É o exame da questão polêmica, com reflexão dos pólos opostos: tese e antitese
(não é antítese, que é a figura de linguagem).
Pela dialética, o redator deve refletir sobre os prós e contras, fatores favoráveis
e desfavoráveis, antes de tomar uma posição diante de assunto controvertido.
Em primeiro plano, ele analisa a questão "N.' em todos seus aspectos, valendo-
se de recursos argumentativos apropriados a seu objetivo temático.
Em seguida, coloca ele a questão "B", vale lembrar, arregimenta os argumentos
do pólo oposto.
Finalmente, na conclusão ele decide seu posicionamento: opta por "N.' ou "B"
(postura disjuntiva ou de exclusão) ou, então, promove a conciliação - ')\B".
Adialética, mesmo não explícita no discurso como técnica redacional, é impe-
rativa na reflexão. Ninguém pode formar opinião sobre determinado assunto, sem
antes conhecê-lo em sua integridade, avaliando-o por inteiro. Dizem os filósofos
- com propriedade, aliás - que o sim envolve o não e o não envolve o sim.
Exemplificando: Se "N.' decide passear em lugar de estudar, diz "sim" ao
passeio e, ao mesmo tempo, diz "não" ao estudo. Inversamente o faz na situação
contrária.
A Redação 173
Nas dissertações de Mestrado, o pós-graduando faz um estudo crítico de de-
terminado assunto, argüido sobre as diversas posições em face dele, rumo a uma
conclusão.
Na dissertação dialética, impõe-se a concisão. Os enfoques antagônicos devem
ser colocados de forma concisa, sempre que possível empregando o recurso con-
trastivo, cotejando as idéias em seus elementos essenciais, procurando enfatizar
os aspectos distintivos.
A conclusão deve ser clara e apoiar-se em fundamentos adequados, convidan-
do, assim, o leitor para abraçar o mesmo ponto de vista do redator.
b) Disputa de Santo Tomás de Aquino
Por esta postura filosófica, conhecer bem um assunto não requer a expli-
citação dos pólos antagônicos: pode o redator abraçar de início um ponto de vista
e argumentá-lo com o fito de persuadir o leitor a comungar com sua postura.
A disputa pressupõe a defesa de tese, sendo a técnica do Doutoramento.
O redator irá ter um ponto de vista (sim ou não) sobre determinada questão e
apresentará os argumentos que motivaram sua eleição por esta ou aquela pos-
tura.
Na disputa, os argumentos (não mais do que três, recomenda-se) devem ser
distribuídos em gradação crescente, cada qual reforçando o anterior e todos relacio-
nados entre si, rumo à conclusão, fecho redacional que demonstra ter sido provada
a postura do redator como a mais adequada diante do assunto em discussão.
O processo jurídico é, em sua totalidade, de natureza dialética, mas nas partes
(mesmo quando a dialética se dilui no plano redacional) há predomínio da dispu-
ta, ou seja, o Autor deve trazer aos