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para esta percepção subjetiva,
e a frase ganha valor estilístico por sua pontuação e ritmo: a musicalidade e a
sinestesia caminham de mãos dadas.
É possível, no entanto, obter o mesmo efeito expressivo sem a presença sines-
tésica (impressões sensoriais) da adjetivação.
Prove, o leitor o ressaibo amargo em sua boca ao acompanhar a trajetória de
Bentinho na descoberta dos traços de seu amigo Escobar no filho e sinta em sua
carne a desilusão do marido traído.
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insight (situação-limite) - ou seja, "olha a faca". A música vai então caminhando
para o alívio (no caso, trágico).
Assim, a postura gestáltica inicia pelo equilíbrio e a tensão cria a atmosfera
temática que irá crescendo até um ponto limite (insight), e, com a locomoção,
chega-se ao alívio, ou seja, à conclusão.
No discurso jurídico, a postura gestáltica é preciosa: do exame atento das par-
tes, carregado de percepções sensoriais, desenha-se um todo fenomenológico, no
qual as sensações se integram de forma a provocar no leitor uma visão de mundo
estimulada pelas relações das partes que compõem o sistema discursivo. Sinta o
drama da vítima na descrição gestáltica do Promotor de Justiça, colorindo a ação
criminosa de forma lenta e progressiva e, na condição de componente do Corpo
de Jurados, dê o seu veredicto. Perceba, ainda, o leitor que a atmosfera dramática
do Tribunal do Júri é suavizada na linguagem escrita: não há melodramas, mas a
técnica gestáltica cumpre sua tarefa persuasiva.
Outras posturas poderiam ser analisadas, mas a breve menção a elas se deve
ao pouco uso no discurso jurídico.
A linha psicanalítica cria o discurso caótico (leia-se GARCIA, 1975, p. 100-106),
de grande dramaticidade, mas inadequada para o ordenamento lógico que há de
pautar a argumentação jurídica. É a linguagem de uma Lygia Fagundes Telles ou
de um Luís Vilela - "Tarde da Noite".
O existencialismo, por sua vez, embora postura filosófica, repercute no com-
portamento humano. É usado, com alguma freqüência, em defesas nos tribunais
do júri. O que se pretende denunciar é a pressão que o meio exerce no homem,
tornando-o impotente diante da vida: perde a consciência do "ser" para apenas
"estar aí" no mundo, sem analisar causas do passado e sem perspectivas para o
futuro.
Medite o leitor na '~egria, Alegria" de Caetano Veloso e sinta o clima exis-
tencialista. O tempo é o hoje e a expectativa é o nada. Apesar da insuficiência
argumentativa, não é raro encontrarem-se defesas que buscam fazer do criminoso
uma vítima do meio social hostil que o empurrou para a criminalidade, o mesmo
retrato que comumente se faz do cárcere (masmorra) como a escola do crime
para aquele que caminha sem lenço (ausência de afetividade) e sem documento
(ausência de identidade).
5.9 EXERCÍCIOS
Sugestões de atividades
1. Recomendam-se leituras complementares e discussões sobre os diversos assun-
tos do capítulo (seminário, mesacredonda, debate), com objetivo assimilativo
e de fixação de aprendizagem.
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A Redação 179
2. Devem ser escolhidos alguns textos (pelo professor ou alunos - individualmen-
te ou em grupo) - e apontadas as partes que compõem a estrutura do pará-
grafo.
3. Desenvolver o esquema redacional sobre o costume no Direito.
4. Apresentação de textos, músicas e filmes com posturas behaviorista e gestáltica
(trabalhos preferencialmente em grupo).
5. Elaborar uma redação jurídica, tendo como tema discussão de assunto polêmico
no Direito. Em seguida:
a) apresentar o esquema redacional utilizado;
b) apontar as partes da redação;
c) indicar os tipos de postura psicológica, filosófica e de argumentação que
foram utilizados em seu texto;
d) indicar as palavras de coesão responsáveis pela unidade textual.
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TEORIA E PRÁTICA
A língua portuguesa, tanto ou mais que suas irmãs neolatinas, exige do re-
dator uma criteriosa relação sintagmática - seleção e organização das idéias na
estrutura frásica - porque a mensagem pretendida pelo emissor só logra obter seu
desiderato quando, conhecido previamente o pensamento que se busca exprimir,
há uma distribuição lógica e concatenada das idéias.
No exercício profissional, redigindo-se peças jurídicas ou extrajudiciais, não
pode haver liberalidade em matéria gramatical. A linguagem escorreita, sem os
exageros de um preciosismo nocivo à clareza da idéia, exige do redator períodos
bem organizados.
Prejudiciais ao pensar direito são os períodos extremamente curtos ou longos
como já se disse repetidas vezes em capítulos anteriores. Desta sorte, a estrutura
gramatical deve ater-se às funções e relações sintáticas da frase, para que não se
prolongue sem medida lógica.
Exemplificando: requerer abono de faltas exige relação causa/conseqüência,
sem a qual não se completa o circuito do pensamento.
Incorreta seria, assim, frase oracional que requeresse da autoridade competen-
te abono de faltas dos dias 15 e 16 de maÍo de 1993. Indispensável à construção
frásica seria a idéia causal, indicando o motivo da ausência, porque a relação
causa/conseqüência é binômio indestrutível.
Não basta ao profissional do Direito, porém, a correção gramatical como pos-
tulam alguns cultores do vernáculo. A ele, exigível se lhe torna, ainda, o domínio
Teoria e Prática 185
1. O mandato (ou procuração) judicial é chamado de Procuração Ad Judicia
(note-se que em latim não há hífen).
3. Quanto à finalidade
3.a) Geral: quando o mandante confere poderes para todos seus negó-
cios.
3.b) Especial: quando especifica o negóCio (ou negócios) expressamente
(artigo 660, CC).
4. Quanto à extensão dos poderes
4.a) Amplos: confere liberdade ampla ao procurador.
4.b) Restritos: o procurador fica sujeito a decisões do outorgante.
1. Quanto à natureza
1.a) Procuração Judicial: destinada para procurar em juízo.
1.b) Procuração Extrajudicial: para os negócios em geral.
2. Quanto ao instrumento
2.a) Procuração Pública: passada em cartório, no livro próprio, chaman-
do-se traslado a cópia original deste registro. As demais cópias são
dadas em forma de certidão.
2.b) Procuração Particular: quando outorgada pelo próprio mandante
em documento escrito com firma reconhecida.
Oportuno se faz esclarecer que as espécies combinam-se em todas as proba-
bilidades, e. g., procuração judicial, pública, geral, de poderes amplos; procuração
extrajudicial, particular, especial, poderes restritos; procuração judicial, particular,
especial, poderes amplos, enfim, todas as variações combinatórias possíveis.
Algumas observações mostram-se pertinentes:
expressão líquido e certo significa um direito especificado e plenamente conheci-
do (líquido) e sobre o qual dúvidas não pairam (certo). É o caso, por exemplo,
do candidato a um concurso público classificado em 21Q lugar, quando vinte
eram as vagas, tendo o 19Q desistido e, para completar o quadro, seja convocado
o 22Q colocado. Na situação em tela, caberia ao 21Q impetrar ordem de segu-
rança.
A palavra mandante, complete-se, de sentido equívoco, refere-se ao que con-
trata alguém para a prática do delito, ou seja, o mandante de homicídio. Neste
sentido, há os que defendem a tese de ser a palavra mandante empregada, tam-
bém, na acepção de mandato, porque alguém contrata outrem para, em seu nome,
praticar ato criminoso, sendo-lhe imputadas as mesmas penas do homicida, seu
mandatário.
Resolvidas as dificuldades semânticas do mandato, cumpre assinalar os tipos
de procuração a ele correspondentes:
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Perlustrando o Código Civil (Editora Atlas, organizado por Sílvio de Salvo
Venosa, 2003), encontramos:
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&quot;Art.653. Opera-se o mandato, quando alguém recebe de outrem poderes