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depois de recepcionada e compreendida a mensagem do emissor,
deve julgá-la, com seu posicionamento ou com o auxílio de julgamentos de outros
emissores, ou, ainda, por meio das duas atividades.
No mundo jurídico, por muito tempo considerou-se que o receptor deveria
ter o alter (outro) como atividade única e exclusiva da direção semasiológica,
conforme o brocardo in claris cessat interpretatio.
Sendo clara a mensagem, bastaria compreendê-la passando-se para outras
operações do racioCÍnioapenas se nebuloso ou incompleto, lógica e sintaticamente,
for o pensamento do emissor.
Prevalece hoje o entendimento hermenêutico de que a claridade é requisito
essencial do ato comunicativo do emissor, que não completa a atividade do re-
ceptor, devendo este último, depois de compreender, julgar e avaliar a mensagem
do emissor.
c) alter/ego > outro/eu (crítica): é a operação do racioCÍnio da crítica.
Não significa, como se diz vulgarmente, ser a crítica encontrar defeitos na
mensagem do emissor.
Criticar é avaliar a validade/eficácia da idéia no mundo concreto, ava-
liando sua aplicabilidade e efeitos = dimensão pragmática da hermenêutica.
Assim, ninguém interpreta, sem antes compreender. Pode haver a interpreta-
ção pura, mas não a crítica pura, pois criticar pressupõe ter antes interpretado a
mensagem, existindo, porém, a interpretação crítica, na qual as duas operações do
racioCÍnio são realizadas concomitantemente, na forma, mas com anterioridade
interpretativa na formulação do pensamento.
Veja-se exemplo extraído do Código Civil de 2002:
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'~t. 156. Configura-se o estado de perigo quando alguém, premido da ne-
cessidade de salvar-se, ou a pessoa de sua família, de grave dano conhecido pela
outra parte, assume obrigação excessivamente onerosa.
Parágrafo único. Tratando-se de pessoa não pertencente à família do declarante,
o juiz decidirá segundo as circunstâncias."
1. Compreensão
o dispositivo legal descreve o estado de perigo como necessidade incontro-
lável de alguém salvar-se ou à pessoa de sua família, de grave dano, assumindo
obrigação excessivamente onerosa. Essa necessidade, para o legislador, deve ser
conhecida pela outra parte.
No parágrafo único, a regra legiferante admite que a pessoa a ser salva não
pertença à família do declarante, cabendo ao juiz analisar essa validade pela aná-
lise das circunstâncias negociais.
Observe-se que se extraíram do dispositivo legal suas idéias, no sentido literal,
com neutralidade interpretativa, sem a opinião ou julgamento do receptor, tarefa
de compreender a mensagem.
2. Interpretação
Na interpretação stricto sensu, o receptor irá posicionar-se diante do texto
legal, ou comentá-lo, valendo-se, inclusive, de outros autores.
Veja-se exemplo dessa operação do racioCÍnio:
Cuida-se de nova modalidade de defeito de negócio jurídico, com vício da
vontade.
O estado de perigo avizinha-se, para muitos juristas, do estado de necessidade
previsto na esfera criminal, mas com ele não se confunde.
No estado de necessidade, premida pelo desejo de salvar-se, a pessoa acaba
por tirar de outrem a mesma possibilidade. É o caso clássico do alpinista que corta
o equipamento do companheiro, por considerar que o peso dos dois provocará
inevitável avalanche. In casu, provada a necessidade extrema, não há delito.
Na esfera CÍvel, tem de existir um negócio entre duas ou mais pessoas, mas
contrato ajustado por premente necessidade de uma das partes de salvar-se,
ou a pessoa de sua família, de grave dano, sendo essa circunstância conhecida
da outra parte. Além disso, há um elemento caracterizador imprescindível: ser
excessivamente oneroso para a parte que se encontra em perigo, significando,
então, dolo de aproveitamento de quem, conhecedor da situação, dela quer obter
enriquecimento indevido.
Para muitos juristas, antes do advento do Código Civil de 2002, a situação
poderia ser, ainda, interpretada como um tipo sui generis de coação, pois, não
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havendo conduta da outra parte para estabelecer situação que obrigue alguém
a realizar um negócio, é o próprio fato que propicia esse querer defeituoso, co-
locando uma pessoa à mercê do aproveitamento negociaI de outra, quase como
uma coação fática irresistível.
A questão, portanto, é saber se o negócio é invalidado, tendo em vista que o
beneficiado não colabora para o surgimento do estado de perigo, aproveitando-se
dele, no entanto.
Para muitos juristas, a anulação é instrumento punitivo do dolo de aproveita-
mento, coibindo essa prática. Para outros, porém, a mera anulação do negócio é
solução injusta, pois proporciona vantagem sem ônus para quem se encontrava em
estado de perigo, entendendo, assim, que mais justo é reduzir o valor obrigacional
para limites adequados ao serviço prestado.
Colhendo-se exemplos aqui e acolá, percebe-se que a interpretação da intenção
legiferante concentra-se nos paradigmas de promessa de recompensa excessiva
ou prestação exorbitante para pagar serviço por estado de necessidade da con-
tratante.
É oportuno ilustrar a situação com o caso de um jovem que recebe notícia
sobre o estado desesperador da mãe, com perigo de morte iminente e, sem a dis-
ponibilidade de serviço público, ajusta com um particular contrato de locomoção
da mulher para cidade próxima, com mais recursos médicos, por preço despro-
porcional ao praticado pelos motoristas do local, pois o contratado vê na angústia
do jovem e no grave estado de saúde da mulher a possibilidade de um negócio
altamente vantajoso.
3. Crítica
Nesse passo, o intérprete deve questionar a aplicabilidade da norma na reali-
dade jurídica, tecendo comentários sobre o valor tutelado e a dimensão pragmática
da norma jurídica.
Veja-se exemplo:
A solução reclamada pela doutrina para casos desse dolo de aproveitamento,
ou de quase coação provocada pelo fato jurídico, é, para muitos, merecedora
de elogios por superar a lacuna axiológica da lei, prevendo a situação antes não
conceituada em lei.
No entanto, expressiva parcela da doutrina questiona a anulabilidade do ne-
gócio, considerando ser a redução do preço a melhor solução jurídica.
No entanto, talvez a discussão interpretativa devesse avaliar, ainda, a extensão
semântica da expressão salvar-se de grave dano, tendo em vista a configuração
contextual da realidade.
Comunicação Jurídica 35
Considerando que a interpretação da norma, consoante o Código Civil de
2002, nos artigos 112 e 422, deve observar o princípio da boa-fé negociaI e a fun-
ção social das relações contratuais, deve a doutrina e a jurisprudência atentarem
para a necessária ampliação do sentido de salvar-se, não se limitando ao campo
semântico que, estreitamente, norteia a norma, mas a outras situações que carecem
de dispositivo legal específico.
Por isso, salvar-se pode ser entendido não apenas no sentido de assegurar a
própria vida, ou de familiares e, ainda de terceiros, ou a integridade física dessas
mesmas pessoas, mas também pode alcançar o sentido de escapar de grave situação
financeira, salvar-se da insolvência.
É o caso de quem, premido por graves dificuldades financeiras, precisando
salvar-se das conseqüências funestas que se mostram inevitáveis, aliena um bem
valioso por preço vil, pois a outra parte, conhecedora de sua situação financeira,
quer aproveitar-se do estado de perigo econômico do outro. Em situação asseme-
lhada, já se tem normatizado a usura praticada por inescrupulosos aproveitadores
da dificuldade alheia.
Não faltam juristas que refutam o alargamento da expressão salvar-se para o
perigo econômico, postulando que o valor econômico é caracterizador da lesão.
No entanto, muitos desses juristas ampliam o campo semântico de salvar-se,
como iminência de sofrer dano físico, para aceitarem, também, o dano moral.
Nesse modelo, fácil é perceber que a crítica pode avançar nas interpretações