ENFOQUE - Pentateuco
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ENFOQUE - Pentateuco


DisciplinaHistoria e Literatura do Antigo Testamento4 materiais87 seguidores
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PENTATEUCO
A primeira parte da Bíblia é chamada de Tora (Pentateuco, em grego). Tora, em hebraico significa Lei. Mas \u201clei\u2019, em português, normalmente tem sentido negativo, e, por vezes, proibitivo. Seguidamente, ouve-se pessoas relacionando o Antigo Testamento como \u201cLei\u201d e o Novo Testamento como \u201cEvangelho\u201d. Esta é uma visão equivocada da Bíblia e, se aplicada dessa forma, traz sérios problemas para a compreensão e a interpretação do Antigo Testamento. Na verdade, tanto o Antigo quanto o Novo Testamento possuem lei como evangelho. O termo Tora, aplicado a Gênesis e ao Pentateuco, possui um sentido mais neutro como \u201cinstrução\u201d ou mesmo \u201cPalavra de Deus\u201d.
	
GÊNESIS
Os títulos de muitos livros no Antigo Testamento são extraídos da respectiva primeira palavra hebraica desse livro. Assim, o título hebraico de Gênesis é \u201cBereshith\u201d ou \u201cNo princípio\u201d. O nome do livro em português é copiado da Vulgata e da Septuaginta. Bem antes da divisão dos capítulos, o primeiro livro da Bíblia foi dividido em dez \u201chistórias\u201d, ou \u201cgerações\u201d. Ela é conhecida como \u201cfórmula toledoth\u201d:
Esboço 					Referências de capítulos
1-11 História primeva 			11 Torre de Babel
12-26 Abraão e Isaque 			14 Abraão e Melquisedeque
27-36 Jacó e Esaú 				19 Sodoma e Gomorra
37-50 José 					22 Sacrifício de Isaque
28 Sonho de Jacó
49 Bênção de Jacó
O autor de Gênesis não estava interessado em descrever uma história sociológica ou econômica dos inícios da civilização. Estava interessado sim em que o círculo da graça e da promessa iniciado com a humanidade se estendesse de maneira concêntrica a Noé, Abraão, Jacó, Isaque e aos filhos de Jacó. 
Visto a literatura babilônica ser mais antiga do que Gênesis, presume-se que as semelhanças provam a dependência bíblica do relato babilônico. Conforme essa teoria, Israel teria emprestado esses conceitos mitológicos dos babilônios e feito uma adaptação à sua perspectiva monoteísta. O grande problema dessa hipótese é a implicação que a história dos princípios em Gênesis acaba tornando-se simplesmente mitologia. Se Gênesis for mitologia, então a consequência é que não se precisa crer que personagens como Adão, Eva, Caim, Abel ou o próprio jardim do Éden realmente existiram.
Embora haja semelhanças entre Gênesis e tais narrativas mitológicas, as diferenças as superam. Estudiosos que fizeram ampla análise linguística e literária concluíram que tal suposta dependência literária não pode ser sustentada. Aqui, como na maioria dos relatos paralelos com Gênesis, acredita-se ser mais provável que tradições mesopotâmicas e bíblicas tenham tido uma mesma fonte. A épica de Atrahasis, por exemplo (início do segundo milênio), é muito similar, de novo, à narrativa bíblica da criação. Na verdade, a épica só vem confirmar que a história básica apresentada em Gênesis 1-11 era bem conhecida em todo o Antigo Oriente Próximo.
Os patriarcas
A história patriarcal (Gn 12-50) nos fornece algumas possibilidades de cronologia. Grande parte dos estudiosos entende que o chamado de Deus a Abraão em Ur da Caldeia, na Mesopotâmia, acontece num contexto geográfico e histórico significativo. O mundo de Abraão é um mundo ativo, econômica e tecnologicamente avançado para a sua época. Nesse período, por volta do ano 2000 a.C., além dos antigos sumérios e acadianos dispersos pela Mesopotâmia, encontramos outros grupos importantes como os amorreus, os hurrianos e os hititas, que começaram a se destacar nessas terras.
Devido ao progresso no conhecimento do Antigo Oriente Próximo no segundo milênio, muitos estudiosos, que antes colocavam dúvidas sobre a historicidade dos patriarcas, passaram a atribuir maior valor histórico a essas narrativas. O maior expoente dessa perspectiva foi o teólogo e arqueólogo William F. Albright. A posição de Albright reflete posição dominante. \u201cComo um todo\u201d, diz ele, \u201co quadro de Gênesis é histórico, e não há motivos para duvidar da exatidão geral dos detalhes biográficos e dos traços de personalidade que fazem com que os patriarcas surjam com uma intensidade inexistente em nenhum personagem extrabíblico em toda a vasta literatura do Antigo Oriente Próximo.\u201d
Os acontecimentos do capítulo 22 parecem colocar em risco a vida de Isaque e a promessa dada a Deus ao patriarca Abraão. Críticos liberais insinuam que este evento tem por objetivo polemizar o sacrifício de crianças que, segundo eles, era prática comum entre os israelitas até bem mais tarde. Mas não há nada no texto que justifique essa análise. A ênfase da história não é outra senão o teste pelo qual passa \u201co pai de todos os crentes\u201d.
O episódio de Judá e Tamar (cap. 38) \u2013 obviamente, umas das razões do autor é chamar a atenção para a tribo de Judá de onde virá Davi e, a partir da dinastia davídica, o Messias. Da mesma forma, o capítulo 49, chamado de \u201cBênção de Jacó\u201d, é importante linguisticamente devido a vários aspectos poéticos arcaicos, e ainda mais importante teologicamente em razão da referência davídico-messiânica em conexão com a bênção dada a Judá.
Quando Jacó morre, os irmãos de José temem por suas próprias vidas. Pensaram, como o mundo pensa, que haveria uma vingança da parte de José (50.15). Relembrando a amargura e as tribulações que se seguiram, José faz uma confissão de fé e confiança magníficas. Virando-se para seus irmãos ele diz: \u201cVós intentastes o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem\u201d (50.20). É fácil falar assim quando você esteve na prisão por dois anos e os causadores dessa injustiça estão à sua frente? É possível perdoar? José sabia que Deus tinha usado essa tragédia para Seus propósitos. No dia em que o lançaram naquele poço seco em Dotã (37.24), eles deram início a uma série de acontecimentos ordenados por Deus destinados a tornar seu irmão desprezado num líder e conselheiro cuja habilidade, discernimento e fé trariam esperança e salvação a muitos.
Exôdo
O nome do segundo livro do Pentateuco deriva-se do grego Exodos, que passou para a Vulgata (Latim) Exodus e, daí para o português. \u201cÊxodo\u201d significa \u201csaída\u201d (19.1). Êxodo descreve, pois, a saída do povo de Israel do Egito, sendo o tema predominante do livro. No cânone hebreu, o nome vem das palavras iniciais \u201cshemoth\u201d (\u201cnomes\u201d) em 1.1.
Esboço 						Referências de capítulos
1-19 Êxodo e a Aliança 				3 Chamado de Moisés (sarça)
20-40 Orientações divinas no
Sinai (Decálogo; \u201cLivro da Aliança;
Tabernáculo; Partes \u201cprescritivas\u201d x
\u201cdescritivas\u201d)						12 Ritual da Páscoa
14 Êxodo
15 Cântico do Mar
20 Decálogo (= Dt 5)
20.23-23.33: \u201cLivro da Aliança\u201d
24 \u201cSangue da primeira aliança\u201d
28-29 Vestes sacerdotais e consagração
32 Bezerro de ouro
34 Renovação da Aliança
O livro registra acontecimentos desde o nascimento de Moisés até a construção e dedicação do tabernáculo no Sinai no segundo ano da saída do Egito (1.1; 19.1; 40.17). Dessa forma, a história do livro em si abrange cerca de 85 anos. O maior problema é determinar o século em que os fatos associados à saída do Egito aconteceram. Nesse debate, duas posições surgiram: os que defendem uma data mais antiga e os que defendem uma data mais recente para o êxodo. Como apenas dois faraós do Egito reinaram por mais de 40 anos, que corresponde ao exílio de Moisés no deserto durante a opressão dos hebreus, seus reinados se tornaram foco de debate na datação do êxodo. A posição da data mais antiga identifica Tutmosis III (1504-1550) como o faraó da opressão e Amenófis II (1450-1425) como o faraó do êxodo. Defensores da data mais antiga acentuam uma interpretação literal dos números bíblicos em Êxodo 12.40, Juízes 11.26, e 1 Reis 6.1 e recorrem à arqueologia para fundamentar sua posição Um destes é Walter Kaiser, que, ancorado em dados historiográficos, \u201cadota o século XV a.C. para o êxodo, localizando-o na 18ª Dinastia. As afirmações de 1 Reis 6.1 sustentam que o êxodo aconteceu 480 anos antes de Salomão iniciar a construção do templo em 967 a.C. Estes dados colocam o êxodo em 1447 a.C. e a conquista em 1407 a.C.\u201d.¹¹ Os que sugerem uma data mais recente identificam Ramsés I (1320-1318)