Virologia Veterinária_EDUARDO FLORES
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endocito-
se mediada por clatrina. O vírus HIV também pa-
rece utilizar essa via para infectar macrófagos.
3.2.3.3 Translocação através da mem-
brana plasmática 
Esse é um mecanismo pouco conhecido, pro-
vavelmente raro entre os vírus animais e parece 
ocorrer somente com os vírus sem envelope. 
3.2.3.4 Transferência direta entre 
células 
Além dos mecanismos especí\ufb01 cos de pe-
netração, alguns vírus podem ser transmitidos 
diretamente entre células, sem a necessidade de 
egresso e infecção de uma nova célula. Essa trans-
missão é possível pela inserção de proteínas vi-
rais na membrana lateral da célula. As proteínas 
virais produzem fusão entre as células vizinhas e 
transferência do material genético do vírus para 
a nova célula. Esse mecanismo de transferência 
direta (observada nos paramixovírus e poxvírus, 
entre outros) permite ao vírus infectar novas cé-
lulas sem se expor ao sistema imunológico.
Como já mencionado, a simples internaliza-
ção da partícula vírica não assegura que a repli-
cação irá ocorrer. O desnudamento e a entrega do 
material genético aos locais apropriados são ne-
cessários para o prosseguimento do ciclo. Além 
disso, a célula deve apresentar as condições in-
tracelulares necessárias para a expressão gênica 
e replicação do genoma. Sob ME, é freqüente a 
118 Capítulo 5
visualização de vírions internalizados em células, 
porém localizados em sítios inapropriados para 
o prosseguimento da replicação. Alguns desses 
vírions podem ser eventualmente reciclados e 
liberados na superfície celular, podendo infectar 
produtivamente outras células. A maioria, po-
rém, parece estar destinada à inativação por pro-
cessos catabólicos celulares. 
3.3 Etapas após a penetração
3.3.1 Desnudamento
O termo desnudamento (do inglês uncoating) 
refere-se à serie de eventos que ocorrem imedia-
tamente após a penetração, em que os componen-
tes do nucleocapsídeo são parcial ou totalmente 
removidos, resultando na exposição parcial ou 
completa do genoma viral. A remoção das proteí-
nas do nucleocapsídeo é necessária para a exposi-
ção do genoma às enzimas e fatores responsáveis 
pela transcrição (vírus DNA e RNA de cadeia 
negativa) ou tradução (vírus RNA de cadeia po-
sitiva). No ciclo replicativo de alguns vírus, a re-
plicação do genoma ocorre após o desnudamen-
to completo do genoma (poliovírus e \ufb02 avivírus). 
Em outros vírus, a remoção parcial das proteínas 
do nucleocapsídeo já é su\ufb01 ciente para a ocorrên-
cia das etapas seguintes do ciclo (paramixovírus, 
rabdovírus, ortomixovírus e reovírus). Portanto, 
o desnudamento parece ter uma de\ufb01 nição mais 
funcional do que estrutural. A estrutura e com-
plexidade de cada nucleocapsídeo é que determi-
na os passos subseqüentes na replicação.
O produto do desnudamento depende da 
estrutura do nucleocapsídeo. Nos picornavírus, 
o resultado é a liberação do RNA genômico to-
talmente desnudo, com uma proteína de 23 ami-
noácidos (VPg) ligada covalentemente à sua ex-
tremidade 5\u2019. Em alguns vírus (paramixovírus, 
rabdovírus, arenavírus e ortomixovírus), o geno-
ma nunca é totalmente desnudo. Os processos de 
transcrição e replicação ocorrem com o genoma 
recoberto por proteínas (ribonucleoproteína). 
Nos reovírus e poxvírus, a transcrição e a replica-
ção do genoma ocorrem no interior de capsídeos 
parcialmente desintegrados. 
Nos vírus que penetram por fusão com a 
membrana plasmática, a remoção do envelope, 
que ocorre pela fusão faz parte do desnuda-
mento. Em alguns vírus RNA de cadeia positiva 
(togavírus), a remoção das proteínas do nucleo-
capsídeo ocorre logo após a penetração, pela sua 
interação com o RNA dos ribossomos. Nos vírus 
pH dependentes, a acidi\ufb01 cação dos endossomos 
desencadeia a fusão e também pode facilitar a 
dissociação das proteínas do genoma. Isso resul-
ta na liberação do nucleocapsídeo ou do genoma 
desprovido de proteínas diretamente no citoplas-
ma. Nos herpesvírus, adenovírus e papovavírus, 
o capsídeo permanece parcialmente íntegro após 
a penetração, sendo transportado até as proxi-
midades do núcleo associado aos túbulos do ci-
toesqueleto. O desnudamento e a penetração do 
nucleocapsídeo no núcleo ocorre próximo aos 
poros nucleares. Nos picornavírus, a acidi\ufb01 cação 
dos endossomos provoca alterações conforma-
cionais no capsídeo que proporcionam interações 
de suas proteínas com a membrana, resultando 
na formação de aberturas através das quais o ge-
noma é liberado no citoplasma.
O desnudamento torna o genoma acessível 
às enzimas e a outros fatores celulares respon-
sáveis pelas etapas subseqüentes da replicação. 
Dependendo do tipo de genoma, as etapas que 
se seguem ao desnudamento diferem entre os ví-
rus. 
3.3.2 Movimentação intracelular
Após a penetração, o genoma viral precisa 
ser transportado até o local onde ocorrerão a ex-
pressão gênica e a replicação. A movimentação 
dos vírions no citoplasma ocorre inicialmente 
de forma passiva, no interior de vesículas endo-
cíticas. Após a penetração, os nucleocapsídeos 
podem interagir com os componentes do cito-
esqueleto ou com proteínas transportadoras. Os 
paramixovírus (que penetram na célula por fu-
são direta do envelope com a membrana celular) 
e os picornavírus (que penetram através de poros 
na membrana endossomal) não necessitam de 
transporte intracelular antes de iniciar a síntese 
de proteínas, pois os ribossomos podem estar 
Replicação viral 119
próximos ao local de penetração. Outros vírus 
penetram na célula em vesículas endocíticas, que 
se movimentam entre a densa cadeia de micro\ufb01 -
lamentos e entregam a sua carga aos locais apro-
priados. Os herpesvírus e retrovírus penetram na 
célula por fusão do envelope com a membrana 
plasmática, e o genoma viral deve ser transpor-
tado até o núcleo para a replicação. Para iniciar 
a transcrição reversa de seu material genético, os 
retrovírus interagem com \ufb01 lamentos de actina, 
necessitam funções relacionadas à miosina e dos 
microtúbulos. O HSV ultrapassa o córtex celular 
(composto basicamente de actina) por mecanis-
mos ainda desconhecidos, e os nucleocapsídeos 
são transportados até o núcleo associados com os 
microtúbulos. Os adenovírus e parvovírus tam-
bém são transportados por microtúbulos até o 
núcleo da célula hospedeira. 
3.3.3 Penetração nuclear
O núcleo é o local de replicação da maioria 
dos vírus DNA e também dos ortomixovírus. No 
entanto, a presença da membrana nuclear repre-
senta uma barreira adicional à progressão dos ví-
rions ou dos nucleocapsídeos, pois os poros nucle-
ares permitem a passagem somente de partículas 
com até 39 nm de diâmetro. Conseqüentemente, 
o transporte dos nucleocapsídeos ou do genoma 
até o interior do núcleo depende de interações 
especí\ufb01 cas com componentes celulares. Vírions 
pequenos, como os parvovírus (18-24 nm) e os 
capsídeos do vírus da hepatite B (36 nm), podem 
ser transportados intactos (ou semi-íntegros), por 
meio de mecanismos citoplasmáticos especializa-
dos (microtúbulos, micro\ufb01 lamentos e proteínas 
motoras), e, posteriormente, translocados através 
dos poros nucleares por proteínas especializadas. 
Os vírions ou capsídeos maiores necessitam ser 
previamente desintegrados ou deformados para 
permitirem a introdução do genoma viral pelos 
poros nucleares. O nucleocapsídeo do HSV, por 
exemplo, é transportado do córtex celular até o 
núcleo ao longo dos microtúbulos e liga-se, na 
face citoplasmática da membrana nuclear, por 
meio de uma molécula denominada de importi-
na. Posteriormente ocorre uma abertura parcial 
de um dos vértices do capsídeo e a liberação do 
DNA viral através do poro nuclear. O adenoví-
rus tipo 2 é transportado ao longo dos microtú-
bulos até as proximidades do núcleo e liga-se a 
\ufb01 lamentos dos poros nucleares. Após, com o au-
xílio das importinas, e pela ligação com histonas, 
ocorre a desmontagem