Philipp-Bagus-A-Tragedia-do-Euro
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pode simplesmente não ter sido uma opção 
economicamente viável. O risco de um calote aumentou e as taxas de juros para os 
títulos gregos dispararam, levando a uma crise da dívida soberana. 
 
 
 
9. Por que a União Monetária Europeia é um sistema autodestrutivo 
 
Quando, em um determinado sistema monetário, os direitos de propriedade sobre o 
dinheiro são definidos de maneira obscura, há a ocorrência de vários efeitos externos 
negativos. O arranjo institucional do euro, com seus direitos de propriedade debilmente 
definidos, levou o sistema para perto do colapso, e pode ser chamado de uma tragédia 
dos comuns. 
Papel-moeda de curso forçado e custos externos 
Custos e benefícios externos são o resultado de direitos de propriedade mal definidos ou 
mal defendidos.
 105
 O proprietário não assume todas as vantagens ou todas as 
desvantagens do uso de uma propriedade. E dado que o agente não é totalmente 
responsável pelos efeitos de suas ações, ele não irá levar em consideração todas as 
consequências de suas ações. 
O agente que não tira proveito de alguns dos benefícios de suas ações não irá levar em 
conta todos os efeitos positivos dela. Um exemplo desses benefícios (externos) 
positivos pode ser o do dono de uma macieira cujos direitos de propriedade sobre as 
maçãs que crescem na árvore não estão garantidos. As pessoas que caminham pela rua 
e passam sob a árvore podem simplesmente pegar as maçãs que estiverem ao seu 
alcance. Esse comportamento é permitido pelo governo. O dono da macieira 
provavelmente agiria diferente caso ele fosse o único patrono da árvore. No atual 
arranjo, ele pode não querer proteger a árvore contra insetos, ou pode até mesmo 
derrubar a árvore para queimar a madeira. 
Similarmente, o proprietário de algo pode gerar alguns custos externos. Custos externos 
resultam da ausência de direitos de propriedade. Custos externos são um ônus não para 
o proprietário, mas para terceiros. O proprietário irá empreender alguns projetos que ele 
não empreenderia caso tivesse de assumir todos os custos. Um exemplo de custos 
externos seria o proprietário de uma fábrica que despeja lixo em um lago público. Este 
 
105
 Ludwig von Mises, Human Action, Scholar\u2019s Edition (Auburn, Ala.: Ludwig von Mises Institute, 
1998), p. 651. É necessário enfatizar que aqui estamos nos referindo a consequências positivas ou 
negativas resultantes de direitos de propriedade mal definidos ou mal defendidos. Não estamos nos 
referindo a consequências psicológicas ou monetárias de determinadas ações. Você cultivar flores no seu 
jardim pode ter efeitos positivos ou negativos sobre o bem-estar do vizinho. Os efeitos sobre o bem-estar 
do vizinho são normalmente chamados de efeitos externos psicológicos. Na literatura, há também um 
outro efeito externo. Se um cinema for construído perto de um restaurante, provavelmente haverá efeitos 
monetários positivos para o dono do restaurante, uma vez que os frequentadores do cinema tenderão a ir 
ao restaurante após a sessão. Poderá também haver efeitos externos negativos sobre outros restaurantes. 
Tais efeitos são normalmente chamados de efeitos externos pecuniários. Quando falarmos neste capítulo 
sobre efeitos externos, não estaremos nos referindo nem aos efeitos psicológicos e nem aos efeitos 
monetários das ações. Todas as ações podem ter estes efeitos. Antes, estaremos nos referindo aos efeitos 
de ações resultantes de direitos de propriedade mal definidos ou mal defendidos. Em termos da literatura 
ortodoxa, estamos lidando aqui com externalidades tecnológicas, e não com externalidades pecuniárias ou 
psicológicas. 
lago pode ser propriedade privada de terceiros, mas o governo não vai defender os 
direitos de propriedade dos donos do lago porque considera a fábrica extremamente 
essencial para o crescimento econômico. Neste cenário, o proprietário da fábrica não 
tem de assumir todos os custos da produção, pois pode externalizar uma parte dos 
custos ao jogar sobre terceiros o lixo produzido. Se o proprietário da fábrica tivesse de 
pagar pelo descarte do lixo, ele provavelmente agiria diferente. Ele poderia produzir 
menos, ou operar de forma mais econômica, de modo a produzir menos resíduos. Uma 
vez que os direitos de propriedade do lago não são bem defendidos ou nem sequer são 
definidos (como no caso de o lago ser propriedade pública), o dono da fábrica está 
liberado da responsabilidade de alguns dos custos incorridos. Como consequência, 
haverá mais poluição do que haveria caso os direitos de propriedade fossem bem 
definidos. 
O nosso atual sistema monetário possui vários níveis, e em cada um desses níveis os 
direitos de propriedade não são claramente definidos e defendidos. No primeiro nível, 
os direitos de propriedade estão ausentes no campo da produção da base monetária \u2014 
também chamado de dinheiro padrão, composto pelo dinheiro que existe fisicamente 
(cédulas, moedas metálicas e reservas bancárias que os bancos mantêm depositadas 
junto ao banco central). O dinheiro oriundo de produção privada, o ouro, foi 
nacionalizado no século XX, e a produção privada de moeda-commodity pertence ao 
passado. 
É importante ressaltar que, sob o padrão-ouro, não havia efeitos (tecnológicos) externos 
envolvidos na produção do dinheiro padrão. Os produtores privados de ouro incorriam 
em custos substanciais ao minerar o ouro, e eles colhiam todos os benefícios desta 
atividade. É verdade que o aumento na oferta monetária de ouro tendia a gerar uma 
elevação de preços dos bens e serviços, o que significa que tal atividade gerava efeitos 
externos pecuniários. Porém, um aumento na produção de bens que afete o poder de 
compra do dinheiro e os preços relativos não implica nenhuma violação da propriedade 
privada. Qualquer pessoa era livre para procurar ouro, minerá-lo e vendê-lo no 
mercado. Ninguém era obrigado a aceitar ouro em pagamento. Além disso, a 
propriedade privada sobre o dinheiro metálico era defendida. 
A perda de poder de compra causada pela mineração trouxe consigo efeitos 
redistributivos. No entanto, efeitos redistributivos por si sós não implicam efeitos 
externos. Qualquer mudança nas condições de mercado possui efeitos redistributivos. 
Se a produção de maçãs aumenta, seu preço cai, o que beneficia algumas pessoas, 
especialmente aquelas que gostam de maçãs. Se houver um aumento conduzido pelo 
livre mercado na produção de ouro-dinheiro ou de maçãs, haverá redistribuição, mas 
não estará havendo uma aplicação errônea dos direitos de propriedade privada e, 
consequentemente, não estará havendo custos externos (tecnológicos). 
Ademais, o aumento na produção de ouro-dinheiro não gerou o efeito externo negativo 
de reduzir a qualidade do dinheiro.
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 Ao aumentar o número de moedas de ouro, o 
conteúdo médio metálico de uma moeda de ouro não foi reduzido. O ouro pôde 
continuar cumprindo seu propósito de ser um meio de troca e uma reserva de valor. 
 
106
 Para mais sobre a qualidade do dinheiro, ver Philipp Bagus, \u201cThe Quality of Money,\u201d Quarterly 
Journal of Austrian Economics 12 (4, 2009): pp. 41-64. 
Durante o século XX, os governos incorporaram e monopolizaram a produção de 
dinheiro. O dinheiro de ouro, que era de produção privada e possuía direitos de 
propriedade claramente definidos, foi substituído por papel-moeda fiduciário estatal. 
Este monopólio monetário por si só implica uma violação dos direitos de propriedade. 
Somente os bancos centrais passaram a poder produzir base monetária, isto é, cédulas 
ou reservas bancárias que os bancos mantêm depositadas