Teorias da Comunicação - Mauro Wolf
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A isso corresponde outra diferença importante relativamente às teorias 
precedentes: enquanto a segunda e a terceira tratavam essencialmente de situações comunicativas de tipo 
«campanha» (eleitoral, informativa, etc.), a teoria funcionalista dos mass media -ao mesmo tempo que 
passa do estudo dos efeitos para o estudo das funções - refere-se a um outro contexto comunicativo. De 
uma situação específica como uma campanha informativa, passa-se para a situação comunicativa mais 
«normal» e usual da produção e difusão quotidiana das mensagens de massa. As funções analisadas não 
estão associadas a contextos comunicativos especiais mas à presença normal dos mass media na 
sociedade.
Segundo este ponto de vista, a teoria funcionalista das comunicações de massa representa um momento 
significativo da transição entre as teorias precedentes sobre os efeitos a curto prazo e as hipóteses 
posteriores sobre os efeitos a longo prazo (ver Capítulo 2), embora o quadro teórico geral da referência 
destas últimas seja bastante diferente (o estrutural-funcionalismo, no primeiro caso, e a sociologia do 
conhecimento e, em parte, a psicologia cognitiva, para as hipóteses sobre os efeitos a longo prazo).
Em conclusão, na evolução geral do estudo das comunicações de massa - que acentuou progressivamente 
as relações entre fenómenos comunicativos e contexto social, a teoria funcionalista ocupa uma posição 
muito precisa que consiste na definição da problemática dos mass media a partir do ponto de vista da 
sociedade e do seu equilíbrio, da perspectiva do funcionamento do sistema social no seu conjunto e do 
contributo que as suas componentes (mass media incluídos) dão a esse funcionamento. Já não é a 
dinâmica interna dos processos comunicativos (como é típico, sobretudo, da teoria psicológico-
experimental) que define o campo de interesse de uma teoria dos mass media, é a dinâmica do sistema 
social e o papel que nela desempenham as comunicações de massa.
Neste sentido, embora com todas as importantes diferenças ligadas ao quadro conceptual de fundo, a 
perspectiva é muito semelhante à das teorias gerais sobre os mass media posteriores, que partilham com 
esta teoria o facto de tornarem pertinente o estudo das comunicações de massa a partir do problema do 
equilíbrio e do conflito sociais. A teoria funcionalista dos mass media representa, assim, uma etapa 
importante na crescente e progressiva orientação sociológica da communication research.
Antes de analisar as funções dos mass media, é, todavia, necessário expor sinteticamente a teoria 
sociológica geral de referência.
1.5. 1. A posição estrutural-funcionalista
Se a teoria hipodérmica estava ligada ao objectivismo behaviorista e descrevia a acção comunicativa como 
uma mera relação automática de estímulo e resposta, reduzindo a dimensão subjectiva da escolha em 
favor do carácter manipulável do indivíduo e, acima de tudo, reduzindo a acção humana a uma relação de 
causalidade linear, a teoria sociológica do estrutural-funcionalismo salienta a acção social (e não o 
comportamento) na sua adesão aos modelos de valores interiorizados e institucionalizados. O sistema 
social na sua globalidade é entendido como um organismo cujas diferentes partes desempenham funções 
de integração e de manutenção do sistema. O seu equilíbrio e a sua estabilidade provêm das relações 
funcionais que os indivíduos e os subsistemas activam no seu conjunto. «A sociedade deixa de ser meio 
para se procurar atingir os fins dos indivíduos; são os indivíduos, na medida em que exercem urna função, 
que se tornam meio para se procurar atingir os fins da sociedade e, em primeiro lugar, da sua sobrevivência 
auto-regulada» (De Leonardis, 1976, 17). Neste sentido, para a teoria estrutural-funcionalista e, em 
particular, para um autor como Talcott Parsons, «os seres humanos aparecem como "drogados culturais" 
impelidos a agir segundo o estímulo de valores culturais interiorizados que comandam a sua actividade» 
(Giddens, 1983, 172). A lógica que regulamenta os fenómenos sociais é constituída por relações de 
funcionalidade que presidem à solução de quatro problemas fundamentais, ou imperativos funcionais, que 
todo o sistema social deve enfrentar:
1. a manutenção do modelo e o controlo das tensões (cada sistema social possui mecanismos de 
socialização que activam o processo através do qual os modelos culturais vêm a ser interiorizados na 
personalidade dos indivíduos);
2. a adaptação ao ambiente (para sobreviver, cada sistema social deve adaptar-se ao seu ambiente social. 
Um exemplo de função que soluciona o problema da adaptação é a divisão do trabalho, que se baseia no 
facto de nenhum indivíduo poder desempenhar simultaneamente todas as tarefas que devem ser 
desempenhadas para a sobrevivência do sistema social);
3. a perseguição do objectivo (cada sistema social tem vários objectivos a alcançar, susceptíveis de serem 
realizados mediante esforços de carácter cooperativo, por exemplo, a defesa do próprio território, o 
incremento da produção, etc.);
4. a integração (as partes que compõem o sistema devem estar interligadas. Deve existir fidelidade entre os 
elementos de um sistema e fidelidade ao próprio sistema no seu conjunto. Para contrariar as tendências 
desagregadoras, é necessário que haja mecanismos que sustentem a estrutura fundamental do sistema).
Quando se afirma que a estrutura social resolve as questões relativas aos imperativos funcionais, pretende 
dizer-se que a acção social conforme às normas e aos valores sociais contribui para a satisfação das 
necessidades do sistema. Na solução dos imperativos funcionais (o problema da adaptação, da integração, 
da perseguição do objectivo, da manutenção do esquema de valores) superintendem diferentes 
subsistemas: cada estrutura parcial tem uma função, se contribui para a satisfação de uma ou mais 
necessidades de um subsistema social. Por exemplo, no que respeita ao problema da manutenção do 
esquema de valores, o subsistema das comunicações de massa é funcional, na medida em que 
desempenha parcialmente a tarefa de realçar e reforçar os modelos de comportamento existentes no 
sistema social.
Um subsistema específico é composto por todos os aspectos da estrutura social que são importantes 
relativamente a um dos problemas funcionais fundamentais. Uma estrutura parcial ou subsistema pode ser 
igualmente disfuncional, na medida em que constitui um obstáculo à satisfação de uma das necessidades 
essenciais. Convém notar, para além disso, que a função se diferencia do propósito: enquanto este implica 
um elemento subjectivo associado à intenção do indivíduo que age, a função é entendida como 
consequência objectiva da acção.
Atribuir funções a um subsistema significa que a acção que está de acordo com essas funções tem 
determinadas consequências que o sistema social no seu conjunto pode observar de uma forma objectiva. 
Mas as consequências podem ter também uma orientação diferente: muitas estruturas parciais do sistema 
social têm consequências directas sobre outras estruturas parciais, sobre outros subsistemas. Isto é, para 
além das funções (ou disfunções) directas, existem funções (ou disfunções) indirectas; finalmente, as 
funções (e disfunções) podem ser manifestas ou latentes: manifestas são as que são desejadas e 
reconhecidas; latentes são as que não são reconhecidas nem conscientemente desejadas.
Uma última observação útil para descrever a teoria funcionalista dos mass media, diz respeito ao facto de 
um sistema social raramente depender de um único mecanismo, ou de um único subsistema, para resolver 
um dos quatro imperativos funcionais. Normalmente, existem mecanismos que são funcionalmente 
equivalentes quanto à solução de uma necessidade, de modo que é necessário estudar todas as 
alternativas funcionais existentes. (Parsons, 1967).
É, naturalmente, impossível dar a conhecer em poucas linhas uma obra tão «erudita, complexa,