Teorias da Comunicação - Mauro Wolf
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Teorias da Comunicação - Mauro Wolf


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produtivas cinematográficas; repetidas polémicas sazonais sobre os efeitos 
deploráveis que os mass media teriam sobre as crianças; entusiasmos e sobressaltos em relação às novas 
tecnologias e aos cenários por elas prefigurados. A enumeração poderia continuar e serviria para realçar 
que os mass media constituem, simultaneamente, um importantíssimo sector industrial, um universo 
simbólico objecto de um consumo maciço, um investimento tecnológico em contínua expansão, uma 
experiência individual quotidiana, um terreno de confronto político, um sistema de intervenção cultural e de 
agregação social, uma maneira de passar o tempo, etc.
Tudo isso se reflecte naturalmente na forma de estudar um objecto que muda tantas vezes de forma: a 
longa tradição de análise (sinteticamente designada pelo termo communication research) acompanhou os 
diversos problemas que iam aflorando, atravessando perspectivas e disciplinas, multiplicando hipóteses e 
abordagens. Daí resultou um conjunto de conhecimentos, métodos e pontos de vista tão heterogéneos e 
discordantes que tornam não só difícil mas porventura também insensata qualquer tentativa para se 
conseguir uma síntese satisfatória e exaustiva. Se, todavia, se renunciar a seguir todas as correntes de 
pesquisa para se expor «apenas» as tendências mais difundidas e consolidadas daquilo que, neste 
complexo domínio, se transformou ou está a transformar em «tradição» de estudo, a tentativa parece então 
ser possível.
Esta obra representa precisamente um esforço para seguir nessa direcção, analisando os principais 
modelos teóricos e os principais âmbitos de pesquisa que caracterizaram os estudos sobre os mass media. 
O trabalho não está dividido por meios de comunicação (imprensa, rádio, televisão, etc.), mas pelas teorias 
que mais incidiram na pesquisa. As lacunas, os aspectos subvalorizados ou descurados poderão parecer 
numerosos, ainda que, ao interpretar a história, a evolução e a situação actual da communication research, 
tenha tentado fornecer simultaneamente uma resenha exaustiva deste sector.
Antes de passar a expor as diversas teorias dos mass media, convém descrever sumariamente o estado da 
matéria em estudo por volta dos finais dos anos 70, período que representou um verdadeiro e preciso ponto 
de viragem. O primeiro capítulo reconstituí o percurso que nos conduz até essa época, ao passo que os 
capítulos seguintes analisam as razões e os motivos que permitiram que a pesquisa comunicativa se 
encaminhasse para «novas» direcções. Na segunda metade dos anos 70, a constatação da complexidade 
do objecto de investigação confrontava-se com o acordo unânime, que existia entre os estudiosos, acerca 
do estado de profunda crise em que o sector se encontrava. Todos concordavam em salientar 
insatisfações, frustrações e limitações de um trabalho de pesquisa que se afigurava cada vez mais carente. 
O próprio campo doutrinário encontrava-se dividido por tendências opostas; por um lado, a questão 
imediata era repensar as coordenadas principais em que a pesquisa se desenvolvia, para se poder 
modificar profundamente todo o sector. Por outro lado, e pelo contrário, continuava a investigar-se, de uma 
forma mais ou menos tradicional, independentemente da discussão teórico-ideológica em curso.
Nessa discussão, a crítica mais difundida referia-se à impossibilidade de se conseguir uma síntese 
significativa dos conhecimentos acumulados, uma sistematização orgânica desses conhecimentos num 
conjunto coerente. Um crescimento, quantitativamente relevante mas desordenado, de análises e 
pesquisas, não conseguia transformar-se num corpo homogéneo de hipóteses verificadas e de resultados 
congruentes. A fragmentação - transformada, por vezes, a nível subjectivo, em desinteresse por este tipo 
de estudos - constituía um obstáculo difícil de transpor, sobretudo por dois aspectos. Em primeiro lugar, no 
diz respeito à questão da definição da área temática dos estudos sobre os meios de comunicação mais 
pertinente; em segundo lugar, no que respeita ao que deveria ser a base doutrinária capaz de unificar a 
communication research. Por outras palavras, o que estudar e como estudá-lo.
Tratava-se de determinar um nível privilegiado de análise, uma pertinência mais significativa do que as 
outras, que permitisse a homogeneização da área de estudos. Para além disso, e paralelamente, era 
necessário elaborar uma abordagem teórica, um conjunto de hipóteses e metodologias que permitisse 
superar a fragmentação e a dispersão de conhecimentos.
Foi segundo estas duas directrizes que a communication research foi capaz de se distinguir e desenvolver, 
se não como âmbito disciplinar autónomo, pelo menos como área temática específica.
Alguns aspectos da pesquisa foram particularmente caracterizados como seus «pontos fracos»: em 
primeiro lugar, o seu carácter predominantemente ad hoc, mais ligado a contingências específicas e a 
exigências imediatas do que inserido organicamente num projecto a longo prazo. Daí a dificuldade de 
acumular resultados em grande parte não suceptíveis de não serem comparados (e não só por razões 
metodológicas). Uma pesquisa deste tipo tinha naturalmente uma eficácia escassa, quer na elaboração de 
uma teoria geral sobre a função global das comunicações de massa num contexto social, quer no que diz 
respeito às exigências práticas que estavam na sua origem.
Mas a dificuldade mais manifesta - segundo a discussão de finais dos anos 70 - consistia na 
questão das relações entre os meios de comunicação de massa e a sociedade no seu conjunto. Essas 
relações (certamente difíceis de especificar e descrever nas suas articulações) ou eram descuradas em 
virtude dos objectivos práticos da pesquisa ou eram assumidas genericamente dentro das teorias 
«conspirativas», de tal forma que o funcionamento dos mass media parecia desenrolar-se em contextos 
vagos e indefinidos ou ser totalmente marcado por objectivos de manipulação.
É, todavia, necessário precisar que a consciência desse limite da communication research não se tornou 
clara apenas recentemente, na fase de balanço e reajustamento, antes percorreu, mais ou menos 
subterraneamente, quase todo o seu percurso, dele representando uma constante crítica. Por exemplo, nos 
finais do ano 50, Raymond Bauer defendia que o que tinha caracterizado, desde o início, a communication 
research não tinham sido as grandes ideias, as grandes hipóteses teóricas, mas sobretudo a variedade das 
abordagens metodológicas aplicadas a um vasto campo temático. «As abordagens iniciais comportavam 
hipersimplificações necessárias que se tornaram claras apenas porque as abordagens prosseguiram até ao 
ponto em que revelaram os seus próprios limites. O resultado não foi apenas o reconhecimento da 
complexidade dos processos comunicativos, foi também uma deslocação do interesse para a essência das 
questões e um menor empenho nas estruturas de investigação específicas» (Bauer, 1964, 528)*. A 
consciência progressiva de que os problemas relativos aos meios de comunicação são extremamente 
complicados e requerem uma abordagem sistemática e complexa, percorreu pouco a pouco - e com sorte 
diversa - toda a história da pesquisa sobre os mass media e constitui actualmente uma das linhas 
unificadoras do sector.
No entanto, na discussão de há alguns anos, e num plano mais específico, a tradicional oposição entre a 
pesquisa «administrativa» e a pesquisa «crítica» - isto é, entre a pesquisa americana, por um lado, 
acentuadamente empírica e caracterizada por objectivos cognoscitivos inerentes ao sistema dos mass 
media e a pesquisa europeia, por outro lado, teoricamente orientada e atenta às relações gerais existentes 
entre o sistema social e os meios de comunicação de massa - motivou uma especificação e uma 
interpretação diversas dessa crise.
Como se verá ao longo da obra, a oposição entre os dois critérios de pesquisa e as perspectivas que eles 
abrem