mauro_wolf_teorias_da_comunicacao
123 pág.

mauro_wolf_teorias_da_comunicacao


DisciplinaTeoria da Comunicação I1.581 materiais83.762 seguidores
Pré-visualização50 páginas
que se encontra, ela própria, numa posição de potencial 
tensão com outras instituições igualmente respeitáveis, bem estruturadas, que são fontes de poder 
económico e político. Há poucos indivíduos que estejam assim expostos» (McQuail, 1980, 111).
Este aspecto não constitui apenas um dado de facto da pesquisa sobre os mass media; começou também 
a colocar-se como questão a analisar no seu próprio âmbito: de que forma se articulam as relações entre o 
sistema dos mass media e as outras estruturas e instituições sociais? Que reflexos dessa relação se 
produzem no funcionamento e nos confrontos dos mass media?
Por outras palavras, na tendência geral (que está a caracterizar progressivamente a communication 
research) para intensificar a atenção sobre as estruturas sociais e sobre o contexto histórico enquanto 
factores essenciais para se compreender a acção dos mass media, os cultural studies representam um 
momento específico que marcou, de uma forma peculiar, essa tendência. A teoria dos mass media 
conhecida por esta designação, esboça-se, em Inglaterra, entre os meados dos anos 50 e os primeiros 
anos da década de 60, em torno do Center for Contemporary Studies de Birmingham.
O interesse dos cultural studies centra-se, principalmente, na análise de uma forma específica de processo 
social, relativa à atribuição de sentido à realidade, à evolução de uma cultura, de práticas sociais 
partilhadas, de uma área comum de significados. Segundo tal abordagem, a «cultura não é uma prática, 
nem é simplesmente a descrição da soma dos hábitos e costumes de uma sociedade. Passa por todas as 
práticas sociais e é a soma das suas inter-relações» (Hall, 1980, 60). O objectivo dos cultural studies é 
definir o estudo da cultura própria da sociedade contemporânea como um campo de análise 
conceptualmente relevante, pertinente e teoricamente fundamentado. No conceito de cultura, estão 
englobados quer os significados e os valores, que surgem e se difundem nas classes e nos grupos sociais, 
quer as práticas efectivas através das quais esses valores e esses significados se exprimem e nas quais 
estão contidos. Relativamente a tais definições e modos de vida - entendidos como estruturas colectivas -
os mass media desempenham uma função importante, na medida em que agem como elementos activos 
dessas mesmas estruturas.
Os cultural studies atribuem à cultura um papel que não é meramente reflexivo ou residual no que respeita 
às determinações da esfera económica: uma sociologia das comunicações de massa adequada, deve, pois, 
ter como objectivo expor a dialéctica que se instaura entre o sistema social, a continuidade, e as 
transformações do sistema cultural, o controlo social. As estruturas e os processos pelos quais as 
instituições das comunicações de massa mantêm e reproduzem a estabilidade social e cultural devem ser 
estudados; isso não acontece de uma forma estática, mas adaptando-se continuamente às pressões, às 
contradições que emergem da sociedade, englobando-as e integrando-as no próprio sistema cultural.
Segundo este ponto de vista, os cultural studies diferenciam-se de outra corrente da pesquisa sobre os 
mass media, ou seja, a análise económica dos mass media e da produção cultural. Esta representa um
âmbito mais «clássico» em que a especificidade da dimensão cultural-ideológica tende a atenuar-se: a 
dinâmica económica é, de facto, proposta como explicação necessária, e também suficiente, para se 
compreender o processo dos efeitos culturais e ideológicos dos mass media. As diferenças existentes entre 
as diversas práticas culturais tornam-se vagas, desde o momento em que o que interessa a este tipo de 
abordagem é o aspecto mais geral da forma de mercadoria (Hall, 1980).
Os cultural studies, pelo contrário, atribuem ao âmbito superstrutural uma especificidade e um poder 
constitutivo que vão para além da oposição entre estrutura e superstrutura. O efeito ideológico global da 
reprodução do sistema cultural operada através dos mass media, sobressai pela análise das várias 
determinações (internas e externas ao sistema das comunicações de massa) que vinculam ou libertam as 
mensagens dentro das práticas produtivas e através delas. De tais práticas é explicitado sobretudo o 
carácter estandardizado, redutor, que favorece o status quo, mas que é também, e simultaneamente, 
contraditório e variável; a complexidade da reprodução cultural surge em primeiro plano, assim como se 
torna clara a ligação fundamental entre o sistema cultural e as atitudes dos indivíduos. O comportamento do 
público é orientado por factores estruturais e culturais que, por outro lado, influenciam o conteúdo dos mass 
media, precisamente pela capacidade de adaptação e de englobamento destes últimos. Para além disso, 
esses factores estruturais favorecem a institucionalização dos modelos «aprovados» de utilização dos mass 
media e de consumo dos produtos culturais.
Os cultural studies tendem a especificar-se em duas «aplicações» diversas: por um lado, os trabalhos sobre 
a produção dos mass media enquanto sistema complexo de práticas determinantes para a elaboração da 
cultura e da imagem da realidade social; por outro, os estudos sobre o consumo da comunicação de massa 
enquanto espaço de negociação entre práticas comunicativas extremamente diferenciadas.
Segundo este último ponto de vista, os cultural studies distinguem-se (como acontece em relação à 
economia dos mass media) de outras abordagens, mais ou menos próximas, em particular da que é 
conhecida como «teoria conspirativa dos mass media» e que associa os conteúdos ao objectivo de controlo 
social, perseguido pelas classes dominantes. A censura de certos temas, o empolamento de outros, a 
existência de mensagens evasivas, a não-legitimação das opiniões marginais ou alternativas, são alguns 
dos elementos que fazem dos mass media um instrumento, puro e simples, de hegemonia e de 
conspiração da elite no poder. Contra esta versão, os cultural studies, reafirmando a centralidade das 
criações culturais colectivas como agentes da continuidade social, salientam, contudo, o seu carácter 
complexo e flexível, dinâmico e activo, não meramente residual ou mecânico. Realçando, uma vez mais, o 
facto de as estruturas sociais exteriores ao sistema dos mass media e as condições históricas específicas 
serem elementos essenciais para a compreensão das práticas dos mass media, os cultural studies põem 
em destaque a contínua dialéctica entre sistema cultural, conflito e controlo social.
Subtraindo-se ao mecanicismo redutor que pode, por vezes, caracterizar a abordagem económica dos 
mass media e subtraindo-se igualmente ao rígido funcionalismo que caracteriza a «teoria conspirativa», o 
problema fundamental da abordagem dos cultural studies, na sua formulação mais ampla e programática, é 
o de analisar quer a especificidade das várias práticas de produção de cultura, quer as formas do sistema 
organizado e global que essas práticas geram (Hall, 1980).
1.9. As teorias comunicativas
Uma das linhas condutoras deste livro é que a história e a evolução da communication research têm sido 
também profundamente influenciadas pelo tipo de teoria comunicativa dominante. Isto é, é possível 
«adivinhar» a sucessão dos principais problemas que se colocam à pesquisa, não só relativamente às 
determinações do contexto histórico-económico e político ou ao predomínio de um paradigma sociológico 
específico, mas também quanto ao grau de elaboração dos modelos sobre os processos comunicativos.
Os momentos mais significativos das teorias até agora expostas são outros tantos episódios de uma 
oposição constante entre a pertinência sociológica e a especificamente comunicativa, oposição essa que 
percorreu e percorre a communication research. Com efeito, o cruzamento das duas linhas de reflexão 
existiu sempre e o maior impulso, num sentido ou no outro, prefigurou alguns momentos e êxitos 
específicos neste domínio. A