Um toque de classicos - Durkheim Marx Weber
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Um toque de classicos - Durkheim Marx Weber


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A dificuldade que o sociólogo enfrenta para libertar-se das falsas evidências, 
formadas fora do campo da ciência, deve-se a que influi sobre ele seu sentimento, sua paixão 
pelos objetos morais que examina. Mas, mesmo que tenha preferências, quando investiga, o 
sábio 
 
se desinteressa pelas conseqüências práticas. Ele diz o que é; verifica o que são as 
coisas e fica nessa verificação. Não se preocupa em saber se as verdades que 
descubra são agradáveis ou desconcertantes, se convém às relações que estabeleça 
fiquem como foram descobertas, ou se valeria a pena que fossem outras. Seu papel é 
o de exprimir a realidade, não o de julgá-la.
22
 
 
Por isso é que uma das bases da objetividade de uma ciência da sociedade teria 
que ser, necessariamente, a disposição do cientista social a colocar-se \u201cnum estado de espírito 
 
19
 DURKHEIM. As regras do método sociológico, p. 25. 
20
 DURKHEIM. As regras do método sociológico, p. XXI. 
21
 DURKHEIM. As regras do método sociológico, p. 16. 
22
 DURKHEIM. Educação e Sociologia, p. 47. 
semelhante ao dos físicos, químicos e fisiologistas quando se aventuram numa região ainda 
inexplorada de seu domínio científico\u201d assumindo, desse modo, sua ignorância, livrando-se de 
suas prenoções ou noções vulgares (já combatidas por Bacon) e adotando, enfim, a prática 
cartesiana da dúvida metódica. Essa atitude leva apenas à convicção de que 
 
no estado atual dos nossos conhecimentos, não sabemos com certeza o que são 
Estado, soberania, liberdade política, democracia, socialismo, comunismo etc. e o 
método estatuiria a interdição do uso destes conceitos enquanto não estivessem 
cientificamente constituídos. E todavia os termos que os exprimem figuram sem 
cessar nas discussões dos sociólogos. São empregados correntemente e com 
segurança, como se correspondessem a coisas bem conhecidas e definidas, quando 
não despertam em nós senão misturas indistintas de impressões vagas, de 
preconceitos e de paixões.
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A DUALIDADE DOS FATOS MORAIS 
 
As regras morais são fatos sociais e apresentam, conseqüentemente, as 
características já mencionadas. Inegavelmente coativas, elas, no entanto, mostram uma outra 
face, ao se apresentarem como \u201ccoisas agradáveis de que gostamos e que desejamos 
espontaneamente\u201d. Estamos ligados a elas \u201ccom todas as forças de nossa alma\u201d. A sociedade 
é nossa protetora e \u201ctudo o que aumenta sua vitalidade eleva a nossa\u201d, por isso apreciamos 
tudo o que ela preza. A coação deixa, então, de ser sentida graças ao respeito que os membros 
de uma sociedade experimentam pelos ideais coletivos. O prestígio de que estão investidas 
certas representações deve-se a que 
 
somente uma sociedade constituída goza da supremacia moral e material 
indispensável para fazer a lei para os indivíduos; pois só a personalidade moral que 
esteja acima das personalidades particulares é que forma a coletividade. Somente 
assim ela tem a continuidade e mesmo a perenidade necessárias para manter a regra 
acima das relações efêmeras que a encarnam diariamente.
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Em suma, as regras morais possuem uma autoridade que implica a noção de dever 
e, em segundo lugar, aparecem-nos como desejáveis, embora seu cumprimento se dê com um 
esforço que nos arrasta para fora de nós mesmos, e que por isso mesmo eleva-nos acima de 
nossa própria natureza, mesmo sob constrangimento. As \u201ccrenças e práticas sociais agem 
sobre nós a partir do exterior", por isso, sua ascendência também é distinta 
daquela de que desfrutam nossos hábitos, os quais se encontram dentro de nós. O fato moral 
 
23
 DURKHEIM. As regras do método sociológico, p. 19-20. 
24
 DURKHEIM. De la división del trabajo social, p. 10. 
apresenta, pois, a mesma dualidade do sagrado que é, num sentido, \u201co ser proibido, que não se 
ousa violar; mas é também o ser bom, amado, procurado\u201d. Por isso, 
 
ao mesmo tempo que as instituições se impõem a nós, aderimos a elas; elas 
comandam e nós as queremos; elas nos constrangem, e nós encontramos vantagem 
em seu funcionamento e no próprio constrangimento. (...) Talvez não existam 
práticas coletivas que deixem de exercer sobre nós esta ação dupla, a qual, além do 
mais, não é contraditória senão na aparência.
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Embora a coação seja necessária para que o ser humano acrescente à sua natureza 
física, ultrapassando-a, uma outra e superior natureza - isto é, a social - ele tem também o 
prazer de partilhar interesses com outros membros da sociedade, de levar com eles uma 
mesma vida moral. Nessas passagens, Durkheim faz lembrar as considerações feitas por 
Rousseau no Contrato social sobre as vantagens que o ser humano obtém ao sair do estado de 
natureza. Vemos que, ao explicitar sua concepção de sociedade, o sociólogo francês mostra-
nos uma realidade que tem vida própria, é como um ente superior, mais perfeito e que, afinal, 
antecede e sucede os indivíduos; independe deles e possui sobre eles uma autoridade que, 
embora constrangendo-os, eles amam. Enfim, é ela que lhes concede humanidade e \u201cnão 
poderíamos pretender sair da sociedade sem querermos deixar de ser homens\u201d.26 
Contudo, os ideais que congregam os membros dos grupos sociais devem ser 
periodicamente revificados a fim de que não se debilitem. Isso acontece nas ocasiões que 
aproximam as pessoas, tornando mais freqüentes e intensas as relações entre elas, como 
ocorre durante movimentos coletivos, por meio do reforço exuberante da vida social, e tal 
 
reconstituição moral não pode ser obtida senão por meio de reuniões, de 
assembléias, de congregações onde os indivíduos, estreitamente próximos uns dos 
outros, reafirmam em comum seus sentimentos comuns, daí as cerimônias que, por 
seu objeto, pelos resultados que produzem, pelos procedimentos que empregam, não 
diferem em natureza das cerimônias propriamente religiosas. Qual é a diferença 
essencial entre uma assembléia de cristãos celebrando as datas principais da vida de 
Cristo, ou de judeus celebrando a saída do Egito ou a promulgação do decálogo, e 
uma reunião de cidadãos comemorando a instituição de uma nova constituição 
moral ou algum grande acontecimento da vida nacional?
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Durkheim refere-se a essa necessidade de revigorar os ideais coletivos como a 
razão de muitos dos ritos religiosos que voltam a reunir os fiéis, antes dispersos e isolados, 
para fazer renascer e alentar neles as crenças comuns. A sociedade refaz-se moralmente, 
reafirma os sentimentos e idéias que constituem sua unidade e personalidade. Isso garante a 
 
25
 DURKHEIM. As regras do método sociológico, p. XXX. 
26
 DURKHEIM. Sociología y filosofía, p. 171. 
27
 DURKHEIM. Las formas elementales de la vida religiosa, p. 438. 
coesão, vitalidade e continuidade do grupo, e assegura energia a seus membros. A França 
instituiu \u201ctodo um ciclo de festas para manter em estado de juventude perpétua\u201d os princípios 
nos quais se inspirara a Revolução.
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 Mas o que faz com que os homens mantenham-se em 
sociedade, ou seja, por que os agrupamentos humanos não costumam desfazer-se facilmente 
e, ao contrário, desenvolvem mecanismos para lutar contra ameaças de desintegração? 
 
COESÃO, SOLIDARIEDADE E OS DOIS TIPOS DE CONSCIÊNCIA 
 
Conquanto não tenha sido o primeiro a apresentar explicação para o problema, 
Durkheim elaborou o conceito de solidariedade social, procurou mostrar como se constitui e 
se torna responsável pela coesão entre os membros dos grupos, e de que maneira varia 
segundo o modelo de organização social. Para tanto, levou em conta a existência de maior ou